Cultura

Cláudio Ramos sobre #MeToo: “Achei o discurso da Oprah oportunista”

Desde a publicação da já chamada carta de Deneuve no “Le Monde” que o consenso inicial em torno do tema do assédio parece desfeito. Partindo desta ideia, o i  fez duas perguntas:

1. Qual é para si a fronteira entre sedução e assédio?

2. Qual a sua posição em relação à carta aberta subscrita por Catherine Deneuve e os contornos que está a ganhar o movimento #MeToo?

Cláudio Ramos, apresentador e comentador 

1. Vivemos um momento em que podemos achar delicado tentar seduzir sob pena de sermos mal interpretados. Acredito que a fronteira é posta quando se vê que do outro lado não há resposta. Percebo perfeitamente a discussão, mas acho que cada caso é um caso. Corremos o risco de perder a nossa capacidade de interagir uns com os outros com naturalidade.

2. Entendo e concordo com os dois lados. Acho fundamental que se tenham levantado vozes a contar o que acontece nos bastidores do cinema e da moda - mas atenção que acontece em todos os lugares. Acho importante que se grite, se fale, se denuncie, mas não compactuo com o facto de parecer que ninguém sonhava que isto era verdade. Toda a gente sabia o que se passava. Se não sabia, imaginava ou já tinha ouvido falar. Mas não tinha coragem de dizer. Entendo o silêncio das vítimas porque o medo faz isso. Mas não entendo o silêncio de muita gente que agora grita e quer aparecer e nunca fez nada. Foi por isso que critiquei o discurso da Oprah. Achei oportunista. Ninguém me convence que não lhe tinham dito o que se passava. Por outro lado, acho que a Catherine tem o direito de dizer o que pensa e muitas pessoas pensam da mesma forma. O alvoroço mediático nunca é bom para se fazer uma análise justa de nenhuma situação  e perdem-se boas mensagens no meio do barulho. E ‘assediar’ não é uma característica unicamente masculina.