Desporto

Fórmula 1. O fim das hospedeiras de serviço

A decisão está tomada: na Fórmula 1 não haverá mais mulheres nas grelhas de partida, a auxiliar os pilotos ou a encaminhar os vencedores para o pódio

A maior novidade relacionada com o mundo do automobilismo chegou esta quarta-feira e nada teve que ver com pilotos, equipas ou construtores. A organização da Fórmula 1 anunciou o fim das grid girls - modelos promocionais que se encontravam nos paddocks das corridas. A medida tem efeitos imediatos e, por essa razão, a próxima temporada da Fórmula 1, com início agendado para 25 março de 2018, já não contará com mulheres na grelha de partida. 

O diretor de operações comerciais da F1, Sean Bratches, justificou esta decisão, garantindo que “embora a prática de usar grid girls tenha sido frequente na Fórmula 1 há décadas, sentimos que esse costume não reflete os valores da nossa marca e está claramente em discordância com as normas da sociedade moderna”. Bratches defendeu ainda que “não acredita que a prática seja apropriada ou relevante para a Fórmula 1 e seus fãs, antigos e novos, em todo o mundo”. 

A resolução da F1 chega uma semana depois da Corporação Profissional de Dardos (PDC) ter decretado medidas no mesmo sentido, colocando um ponto final na presença das ‘walk-on girls’. A Women’s Sport Trust, organização que luta por aumentar o impacto das mulheres no desporto, reagiu com agrado a estas decisões: “Incentivamos fortemente as modalidades como o ciclismo, o boxe e o UFC a seguir o exemplo da PDC e Fórmula 1 e reconsiderar o uso de meninas no pódio, ringue e pistas”. No mesmo comunicado a organização acredita que “esta não é uma questão de feministas versus modelos, que parece ser a forma como muitas pessoas querem retratar esta história” e assevera que estas mudanças “estão a ocorrer porque as empresas estão a fazer uma escolha considerada sobre a forma como as mulheres devem ser valorizadas e retratadas no desporto”. 

Apesar de muitos aplaudirem a decisão, este tem sido um tema muito controverso já que também há quem defenda que esta sentença pode ditar o fim do glamour no desporto. 

“As pessoas estão ofendidas com o quê?”

A ex-grid girl Charlotte Gash mostrou-se “desapontada” com a deliberação da F1. “É chato e estou bastante desapontada pela F1 ter cedido perante uma minoria para ser politicamente correta”, disse à BBC Radio 5 Live. Contudo, a jovem gaba-se por não ter depositado todas as esperanças naquele trabalho: “Sou uma das sortudas que não confiei nisso como uma fonte principal de rendimento, mas há muitas meninas que o fazem”. “Eu sei que parece que o nosso papel é estarmos ali porque somos bonitas, mas é muito mais do que isso. Quando estamos fora da grelha interagimos com a multidão e isso é um tipo de anúncio para os patrocinadores. Nós adoramos fazê-lo, não nos tirem essa possibilidade”, pede.  

Caroline Hall, agora antiga grid girl ou hospedeira, deixou uma questão no ar: “Afinal, porque é que as pessoas estão ofendidas? Elas estão ofendidas pelo papel em si, pelo facto de estar alguém parado com patrocinadores ou pelo facto de serem só mulheres a fazer isso?”. À mesma estação de rádio, Hall lamentou as “medidas extremas”. “Acho triste eles tomarem medidas tão extremas tão rapidamente. Acho que poderiam ter procurado outras maneiras de tornar o papel mais alinhado com os tempos modernos em vez de destruí-lo por completo”, adiantou.

As grid girls, uma prática de longa data na F1, tinham como principais missões, além de exibirem o patrocinador nas roupas normalmente reduzidas, segurar guarda-chuvas, placas de identificação dos pilotos e formar um corredor para encaminhar os vencedores até ao pódio.

As grid girls existem desde os anos 60 Desde 1960 que as marcas começaram a usar o automobilismo como uma oportunidade para anunciar os seus produtos. O conceito grid girl começou no Japão mas desde cedo que os EUA abraçaram a ideia que viria a ser utilizada um pouco por todo o mundo. Nos anos 70, as roupas cada vez mais justas passariam a ser o uniforme não oficial destas ‘mulheres das grelhas’. Nos anos 90, Eddie Jordan, fundador da Jordan Grand Prix, uma equipa de F1, foi pioneiro no uso das grid girls. Hoje em dia, as grid girls olhavam para a sua função como uma possível rampa de lançamento para outros trabalhos relacionados com a televisão e a moda. É o fim de uma tradição com quase 60 anos.