Economia

“Um em cada dez portugueses já sai do médico sem folhas de papel”

Conferência Portugal eHealth Summit junta esta semana mais de 5 mil pessoas em Lisboa. Presidente dos SPMS – Serviços Partilhados do Ministério da Saúde revela as novidades da transformação digital: SNS vai ter projeto de inteligência artificial para estudar o impacto da prescrição de antibióticos na saúde dos portugueses

Arranca hoje em Lisboa a segunda edição do Portugal eHealth Summit, uma conferência dedicada à transformação digital na saúde. Um dos projetos mais recentes de informatização no SNS está na ordem do dia: desde o ano passado que existe uma plataforma centralizada com os boletins de vacinas dos portugueses, o que no futuro poderá dar para fazer campanhas de sensibilização mais dirigidas a quem não tem as vacinas como a do sarampo em dia. Henrique Martins, presidente dos SPMS – Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, que organizam o evento, revela ao i alguns dos projetos em carteira para os próximos tempos e faz um balanço das medidas mais recentes.

Em que ponto está a centralização dos boletins de vacinas?

Neste momento, toda a informação de vacinas no sistema antigo migrou para o sistema centralizado, faltam só alguns centros de saúde na região de Lisboa. Atualmente, mais de 95% das pessoas já podem entrar no portal do cidadão no SNS e aceder a essa informação, o que não quer dizer que a informação esteja lá toda, pois pode ter havido situações em que o registo não foi feito no boletim e no computador, mas a maioria das pessoas têm registo eletrónico. 
 

O ministério vai enviar emails ou sms a quem não tenha vacina do sarampo em dia?

Será mais fácil fazer uma gestão central da vacinação. No inverno já tivemos a capacidade de fazer uma campanha no digital muito mais dirigida, com bons resultados: mais 170 mil vacinas da gripe do que no ano anterior. Para todas as pessoas que registaram o seu email na área do cidadão do portal do SNS, e já temos mais de 1,8 milhões de pessoas registadas, usamos esse contacto para promover a vacinação. No caso do sarampo, por um lado, a DGS consegue ter uma noção mais em tempo real da atividade vacinal, a vacinação está menos intensa. Por outro, podemos sensibilizar as pessoas e pensar em abordagens mais dirigidas.

Há muitas pessoas a aceder ao site para consultar o boletim de vacinas?

Desde quinta-feira, duplicou.

Quais são os pontos fortes da conferência eHealth Summit?

Há uma dimensão internacional muito forte e vamos abordar diferentes temáticas como o “SNS Sem Papel”, que é todo o esforço que está a ser feito nas instituições para evitar a utilização do papel na relação com o doente, mas também na contabilidade e organização.

Quando o doente não leva uma receita em papel, por vezes é impressa uma guia de tratamento. Não gasta papel na mesma?

Neste momento, um em cada dez portugueses já sai do gabinete de consulta sem qualquer folha de papel, sem receita e sem guia. No ano passado eram 2,5% e hoje são praticamente 10%. E temos casos, como o Hospital de Ovar, onde isso é verdade para sete em cada dez pessoas atendidas. Há aqui um grande potencial, vamos mostrar os melhores exemplos, mas também os constrangimentos. Depois vamos ter painéis com os diferentes parceiros – o Infarmed, as farmácias. Temos vários momentos dedicados à telessaúde.

Há pouco tempo foi noticiada uma espécie de fisioterapia à distância no Hospital de Leiria. Já existe em muitos sítios?

É o primeiro projeto. Outro tema será o “SNS Mais Proximidade”, que é uma iniciativa do Ministério da Saúde para alterar a forma como o SNS interage com os cidadãos e toca questões como a literacia e autocuidados. E vamos abordar as áreas da indústria e justiça, com a presença das secretárias de Estado da Indústria e da Justiça. Vamos abordar, por exemplo, a articulação com a saúde na área da informatização das prisões, onde estamos a promover a telessaúde para que seja mais fácil aos portugueses que estão reclusos terem acesso ao mesmo nível de cuidados de saúde. 

Que projetos têm em mãos para este ano?

Esta semana arrancou o novo software administrativo dos cuidados primários, que veio substituir o SINUS, um software que tinha 20 anos e foi o primeiro implementado no SNS.

Há receios sobre se os dados vão ser todos migrados e se não haverá falhas...

Estamos a avançar com um primeiro centro de saúde exatamente para garantir que tudo está bem. O atual sistema não tinha a mesma flexibilidade, não tinha uma agenda tão maleável, e vai permitir interligar dados que os cidadãos possam ter em diferentes centros de saúde, evitando a duplicação de registos. 

Continua, ainda assim, a haver relatos de dificuldades informáticas nos centros de saúde e tempo perdido em consulta. No fim de 2016 apontou-se para a compra de 10 mil computadores. Foram comprados?

Foram comprados, faltava instalar cerca de 4 mil computadores aqui na zona de Lisboa. Neste momento foi instalada metade e esperamos terminar no final de abril.

Nesta área, as Finanças também demoram muito tempo a autorizar a despesa?

Não vou esconder que tivemos dificuldades no ano passado. No final de dezembro, a situação foi desbloqueada. Entretanto estamos a pedir às instituições para identificarem novas necessidades e é preciso continuar a investir muito a sério.
Há dias circulou na internet a imagem de um médico a trabalhar com um computador em cima de um caixote, um cenário muito pouco futurista face ao que estará em debate por estes dias na conferência.

Acredito. Só temos um caminho, que é continuarmos a puxar pelas pessoas e pelas instituições. Vamos ter um fórum que junta todos os responsáveis dos hospitais e administrações regionais de Saúde para falarem desta estratégia de transformação digital e para se perceber que isto não é uma moda que vai passar, é essencial até para otimização dos recursos.

Falou de um novo software mais flexível nos centros de saúde. Quando será possível uma pessoa sem médico de família atribuído poder marcar uma consulta pelo portal do utente?

De facto, o sistema informático foi montado para só permitir marcações só para quem tem médico de família. Podemos alterá-lo, assim haja essa decisão pelas administrações regionais de saúde e pela Administração Central do Sistema de Saúde.

Hoje, uma pessoa acaba por ser duplamente penalizada: não tem médico e não tem a mesma conveniência na marcação. 

Tem razão e, por isso, um dos temas que vão estar em analise é como conseguir estratégias de proximidade para todos.

A marcação de exames pela internet está em cima da mesa?

Neste momento, não. Vamos avançar em abril com a desmaterialização da requisição, ou seja, uma pessoa poder sair do gabinete médico não com uma credencial em papel, como até aqui, mas com um sms ou email.

Na interação entre médicos e doentes, vai haver novidades?

Estamos a trabalhar numa nova plataforma de telessaúde que vai permitir consultas com o médico ou enfermeiro. 

Sem intermediário? Será a pessoa ligar-se e o médico estar online como uma espécie de WhatsApp?

É mais ou menos isso, terá de haver horários e vontade de ambas as partes, mas acho que as pessoas vão descobrir que há e que, se calhar, é melhor falar logo do que esperar por uma consulta presencial. Se puder fazer uma consulta e usar a receita sem papel ou o exame sem papel, talvez possa resolver alguns problemas. Estou convencido de que até ao final do ano vamos ter novidades. 

A segurança dos dados e a garantia de privacidade são sempre uma preocupação. Tem havido muitos ataques informáticos às instituições?

Nada para além do que é o ocasional ou incidentes em que a pessoa abre inadvertidamente um email com um vírus. Não obstante, a cibersegurança será outro tema discutido no evento e vamos também assinar um protocolo sobre blockchain. Queremos sobretudo conhecer a tecnologia, não temos nenhum projeto concreto. Na área da inteligência artificial, aí sim, temos um projeto mais concreto em conjunto com o Instituto Gulbenkian de Ciência para tentar estudar os padrões de prescrição de antibióticos, como forma de identificar zonas do país onde possa haver mais resistências e padrões que possam pôr a saúde pública em risco. 

De tudo o que hoje já é possível fazer com as novas ferramentas digitais no SNS, o que parece causar maior surpresa às pessoas?

Acho que ainda há muita gente que não acredita que pode sair de um gabinete médico com um sms e que isso basta para comprar os medicamentos. Recebi já várias mensagens de pessoas a dizer que usaram pela primeira vez a receita sem papel e que “funciona mesmo”. Este é um caminho que temos de continuar a fazer, até porque a saúde está aproximadamente dez a 15 anos atrasada em relação à banca ou às compras online. Hoje uma pessoa marca um hotel, paga os impostos, faz tudo pela net. Dito isto, na saúde estamos avançados em relação a outros países.

E na comparação público vs. privado, quem vai à frente?

No eHealth tem sido claramente o setor público a puxar o privado. A prova disso é que estamos a assinar um protocolo para que todos os privados possam usar a prescrição eletrónica e a atualizar todos os médicos que estavam registados como inadaptados para usar o sistema.

O canal do SNS vai avançar?

Estamos a trabalhar com a Agência para a Modernização Administrativa no eventual agendamento de consultas através de televisão e depois, eventualmente, a produção de conteúdos. Primeiro temos de dar serviços às pessoas e, depois, talvez partir para um canal de informação.

Qual é o investimento nesta transformação digital do SNS e qual tem sido a poupança?

Não temos ainda dados consolidados para todo o ministério, estamos a fazer essa análise. Posso dizer que o Hospital de Ovar, em cinco meses, conseguiu reduzir para metade o consumo de papel com a iniciativa do SNS Sem Papel. No caso das receitas, no ponto em que estamos hoje, estamos a falar de uma poupança de 8 mil folhas por dia, mais toner, impressoras... São mais de 30 mil folhas por semana. O investimento tem sido também grande e de 2017 para este ano temos um reforço de 20 milhões de euros para investir nestas matérias. 

Qual é o investimento total?

Entre o que é gasto centralmente e o que é gasto pelas instituições, anda à volta de 200 milhões de euros anualmente, o que é muito pouco se pensarmos que, em setores como a banca e serviços, 3% do orçamento é gasto em tecnologias de informação.

Na saúde não se gasta muito mais do que isso, por exemplo, em pilares como a prevenção.

Quando usamos as tecnologias de informação para promover a vacinação, as coisas estão ligadas. Dou-lhe um exemplo: em 2013 enviámos emails a promover a vacinação da gripe para 600 mil pessoas, eram os emails que tínhamos registados. No ano passado, entre emails, presença no Facebook, apps, farmácias, campanhas no portal do SNS, tivemos um alcance muito superior e a maior campanha de vacinação de sempre. Devia gastar-se mais em prevenção, mas as ferramentas digitais podem contribuir para se fazer isso de uma forma mais eficaz. Quando mando a uma pessoa de mais idade um email a apelar à vacinação ou um livro em suporte digital, como os que têm sido divulgados a promover os cuidados a ter com o frio, estamos a fazer marketing digital e promoção de saúde mais barata e mais dirigida.

Para isso é preciso que as pessoas de mais idade tenham acesso a email, o que não será uma realidade em todo o país.

E para isso temos a academia SPMS, que visa reforçar a formação e como promover espaços para informatizar os cidadãos. O Hospital de Ovar avançou precisamente por aí e tem um espaço onde uma assistente social tem, entre as suas funções, ajudar a família a inscrever o cidadão no portal do SNS, explicar ao neto como pode ajudar a avó. Esta mensagem tem de passar: pessoas que hoje têm 70 anos vão viver mais 15 anos num ambiente cada vez mais digital e precisamos de incluí-las e formá-las. Com certeza que as universidades sénior terão um papel, assim como as juntas de freguesia, mas é um trabalho de todos.