Opiniao

O grego, o regime e o aviso

Ora, se Varoufakis estivesse verdadeiramente atento à prática governativa de António Costa e ao papel de Mário Centeno enquanto ministro das Finanças, poderia no máximo dizer que ele terá eventualmente traído as expectativas do eleitorado que votou nos parceiros da solução governativa protagonizada pelo PS de Costa, a ‘geringonça’, e não a esmagadora maioria do eleitorado português.

Yanis Varoufakis é um daqueles políticos que Marcelo Rebelo de Sousa deu como mau exemplo para a democracia na sessão solene evocativa do 44.º aniversário do 25 de Abril, no tal discurso que António Costa comparou «àquela arte moderna difícil de perceber».

Porquê? Porque é um diletante demagogo e populista. E um populista que, em Portugal, já só importa ao ultraminoritário partido Livre, de Rui Tavares e poucos mais, incluindo-se nestes últimos, obviamente, jornalistas.
«Mário Centeno traiu o eleitorado que votou nele em Portugal», disse Varoufakis ao i. «O vosso Governo de Esquerda tem uma dívida de gratidão para com a Grécia», reafirmou ao Público.

Já se sabia que Varoufakis não ultrapassou o facto de Tsipras ter cedido ao Eurogrupo, sacrificando o seu então ministro das Finanças, nem nunca engoliu que o Eurogrupo tenha  escolhido para presidente Mário Centeno, ministro das Finanças do Governo português, e que este, ainda por cima sustentado em forças políticas de Esquerda, tenha vestido o fato (e a gravata que Varoufakis se nega a usar) a preceito e a rigor (em todos os sentidos do termo).

Agora que Varoufakis desconhece a história de Portugal mais recente, embora tenha vindo descer a Av. da Liberdade no dia 25 de Abril, passou também a saber-se.

Em primeiro lugar, porque Mário Centeno só foi a votos... no Eurogrupo. 

Em Portugal, o eleitorado não votou em Centeno nem sabia ou sequer imaginava que o discreto professor viria a ser ministro quando foi às urnas em outubro de 2015.

Quem foi a votos foi António Costa e o PS e quem ganhou as eleições foi o PSD de Pedro Passos Coelho e da austeridade.

Ora, se Varoufakis estivesse verdadeiramente atento à prática governativa de António Costa e ao papel de Mário Centeno enquanto ministro das Finanças, poderia no máximo dizer que ele terá eventualmente traído as expectativas do eleitorado que votou nos parceiros da solução governativa protagonizada pelo PS de Costa, a ‘geringonça’, e não a esmagadora maioria do eleitorado português.

Porque, uma vez cumpridas as bases do acordo de Governo dos socialistas com bloquistas e comunistas, Mário Centeno fechou a boca do saco e, sendo certo que com cuidados de semântica no discurso, recuperou previdente austeridade – veremos se Costa a cumprirá e se sujeitará ou se não resistirá aos apelos eleitoralistas. 

Ora, acontece que também Mário Centeno, como António Costa, foi alvo do tal discurso de Marcelo, quando, falando igualmente de si próprio, disse não confundir «o prestígio ou a popularidade mais ou menos conjuntural de um ou mais titulares do poder com endeusamento ou vocação salvífica».

Certo.

Sendo que a grande mensagem do discurso de Marcelo, que Costa não quis perceber ou reconhecer, foi a da lição histórica da primeira República e no que esta descambou nas décadas seguintes.

O que Marcelo disse, evocando a história de há 100 anos, foi que o regime está em risco por uma manifesta incapacidade dos seus principais atores, por ação e omissão, sendo evidente a necessidade de renovação permanente do sistema político e de resposta dos sistemas sociais.

Em apenas 15 minutos, Marcelo passou em revista podres do regime, desde a secundarização das Forças Armadas à corrupção de pessoas e instituições, aos vazios criados pelos protagonistas de um sistema em falência de valores, éticos, legais, sociais e culturais.

Não lhe peçam a ele, Marcelo, mais do que ele pode dar e do que a Constituição lhe permite e exige.
Nem a ele, nem a ninguém, porque a democracia não se faz de «messianismos nem sebastianismos», antes pelo contrário. Faz-se de «equilíbrios, de pesos e contrapesos».

O discurso de Marcelo não tem nada de abstrato nem de incompreensível. 

É um aviso ou alerta claro. E um apelo à renovação do sistema político e partidário. Que urge.

Quem assim não o compreender ou pretender pintar de cor de rosa um quadro perigosamente negro não contribui, por certo, para a melhoria da qualidade da democracia.

A Grécia está prestes a ter uma saída limpa do resgate da troika. Varoufakis, em vez de dar o braço a torcer, prefere vilipendiar o presidente do Eurogrupo.

António Costa, que – como certamente Rui Rio – muito bem percebeu o discurso de Marcelo,  devia antes ter reservado o comentário sobre a ‘arte moderna de difícil compreensão’ para Varoufakis, porque pior do que deixar o grego a falar sozinho é fingir que não entendeu o apelo do Presidente.

Portugal tem muito mais que fazer antes de agradecer à Grécia o que quer que seja.