Opiniao

O pântano e a tartaruga...

Sobre este desabafo amargo desabou um ruidoso silêncio, como se Ana Gomes não existisse. É a tática mais recente do partido e do Governo, ignorando olimpicamente que o PS «não pode continuar a esconder a cabeça na carapaça da tartaruga».

Uma eurodeputada socialista escreveu – e repetiu com desassombro – que «o PS se tornou instrumento de vários indivíduos corruptos e com uma agenda de enriquecimento pessoal». 

Sobre este desabafo amargo desabou um ruidoso silêncio, como se Ana Gomes não existisse. É a tática mais recente do partido e do Governo, ignorando olimpicamente que o PS «não pode continuar a esconder a cabeça na carapaça da tartaruga».

Perante o que corre mal – ou é contrário ao eufórico discurso corrente –, finge-se desconhecimento, marca-se ’falta de comparência’ e confia-se que a memória coletiva passe adiante.

Vivemos tempos estranhos. Um procurador do Ministério Público e um juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal (TCIC) foram vilipendiados por José Sócrates, como corolário de outras tentativas de descredibilização do processo onde é acusado, sem que aparentemente nada aconteça.    

Em pista paralela corre Manuel Pinho, suspeito de ter recebido uma choruda avença offshore do BES, mesmo enquanto foi ministro, situação tão inédita como grave.

Já Armando Vara, um homem de mão de Sócrates, viu confirmada (há um ano, pela Relação do Porto!…) a condenação de prisão efetiva em primeira instância, por alegado tráfico de influências no âmbito do processo Face Oculta, e continua alegremente em liberdade, graças aos recursos pendentes no Constitucional. 

O traço comum, variando no grau de importância, é que todos pertencem ao PS – afinal, o ponto de partida de Ana Gomes, inquieta com essa ‘malapata’ que contamina a imagem do partido, parte integrante há muito do ‘arco da governação’, com um histórico respeitável   de ocupação do poder. 

Sócrates, enquanto primeiro-ministro, ficou precisamente identificado com a «vaidade» (confessada) de apego ao poder, recorrendo a um invulgar arsenal de meios para alcançar os fins – sem grandes escrúpulos –, e montando uma rede de servidões, desde a banca à Justiça e, até, à comunicação social.

Nos media, Sócrates ainda hoje acumula um elenco de influências apreciáveis. Os atuais diretores do DN e do JN são–lhe devotos há muito, e o diretor de informação da TVI assumiu-se em tempos, por escrito, como seu amigo, numa espécie de ‘declaração de interesses’.  

Não admira, por isso, que este triunvirato se esforce, amiúde, e sob diversas formas, por levá-lo de andor ao adro da sua vitimização.

 No Brasil, o ex-Presidente Lula da Silva, condenado por corrupção e lavagem de dinheiro, também se proclamou, como Sócrates, injustiçado e alvo de perseguição política.

Curiosamente, com um oceano de permeio, ambos se dizem objeto de estratagemas «da direita», com a conivência da Justiça, para os impedir de disputar as eleições presidenciais.
    
O que impressiona neste percurso do PS é a forma como exerce o poder e como o sequestra, com o prestimoso auxílio de muitos, media incluídos. 

Num olhar retrospetivo, basta lembrar como um Governo do PS levou o país à beira da bancarrota, em 2011, pela mão de Sócrates (assinando em desespero, e com ‘a corda na garganta’, um memorando com a troika para pagar ao funcionalismo e aos pensionistas) – e como os socialistas depressa sacudiram qualquer sentimento de culpa e ‘lavaram as mãos’, endossando a austeridade imposta pelos credores a Passos Coelho e à coligação PSD-CDS, que ficaram com o ónus de ‘apertar o cinto’. 

Os ‘maus da fita’ não mudam. Os governos socialistas nunca são responsáveis por nada que corra mal. Quem oiça António Costa não lhe vislumbra uma autocrítica no discurso, tão-pouco algum ato de contrição pelas ausências e silêncios. 

Após uma breve travessia do deserto, o PS reapareceu em força, resplandecente, sem sombra de pecado. 

A repescagem de gente ligada aos governos de Sócrates, desde ministros ao primeiro-ministro, de sorriso pronto e ‘alma lavada’, é a prova de que o PS –  ao contrário do que sente Ana Gomes –, se acha suficientemente ‘purificado’, sem receio de que lhe sejam pedidas contas. Tal como Carlos César, o presidente da agremiação, todos batem com a mão no peito, jurando uma «irrepreensível ética» republicana…

Pacientemente, Sócrates, Pinho e Vara hão de esperar com fé (na companhia de Ricardo Salgado e de outros que arruinaram a confiança na banca e nos políticos), que a lentidão exasperante da Justiça – servida pela parafernália de recursos que os bons advogados sabem usar –, os deixe a marinar, até se descobrir um qualquer expediente que faça prescrever os processos ou que fiquem circunscritos ao território das penas simbólicas.

Uma coisa é certa: Costa tem razões para estar inebriado com a sua ‘boa estrela’. Embora o pântano de que fugiu Guterres não tenha mudado de sítio...