Cultura

Luísa Costa Gomes. “A “escrita feminina” é uma pestilência da cultura. Aparece e desaparece”.

O seu primeiro livro, “13 contos do Sobressalto” (1982), causou abalo na nossa ficção. Desde então, Luísa Costa Gomes tem vindo a criar uma “primavera autónoma”. "Florinhas de Soror Nada – a Vida de uma Não-Santa" é o seu mais recente romance, regado a ironia, ora perplexa, ora de uma frescura agreste, a resvalar para o sarcasmo. E segundo um sistema gota-a-gota, como uma torneira que pinga e vai escorrendo a católica fé que foi pelo cano. 

Declinada em romances, livros de contos, peças de teatro, crónicas, libretos, a obra que tem vindo a construir tem a marca da desobediência às visões canónicas, no que toca a géneros mas também à própria tradição literária, reconfigurada no gosto do risco e do desafio. Corre ao arrepio da ordem geral, do lugar-comum, daquele português que, já sem quilates, parece ter feito um voto de pobreza. E desdenha do solene. A existir o mandamento “Não ironizarás”, os seus livros estariam sempre a incorrer nas iras de um deus menor.

O romance notável que acaba de publicar com o selo da D. Quixote é uma bem realizada paródia do género hagiográfico. Centra-se na vida de Teresa Maria, senhora da vontade actuante. Obcecada pelos exemplos dos santos, apontou às alturas e aterrou na medida comum da segunda metade do século XX. Perdeu a fé e ganhou-se. A vida entrou nela e coube.

O seu currículo de não-santa averba uma orelha sacada a um santo de pedra, em plena igreja. E depois há os pensamentos, a carne, ossos duros de roer, actos de liberdade, as omissões, as palavras, os palavrões, as perguntas (“Deus?”) – tudo a dar vulto a uma mulher sobre a qual paira um halo de santidade. E uma maldição: “desejar coisas que não queria e desejar coisas que nunca foram”.

Uma pagela dedicada a esta não-santa teria de incluir a figura de uma mulher robusta, fortalecida na perda da fé. E paramentada com elementos cómicos, como a meia onde, dobradas, um dia guardou três notas de vinte escudos “donde espreitava o Santo António”. Na mão direita, um copo de vinho, sublime, “contínua oferenda do deus dos olimpos”. No verso, nada de orações: não há orações capazes de regular ou inverter o curso da sua descrença. Nem súplicas que façam recuar a velhice e a agonia final.  “Florinhas de Soror Nada” vem confirmar que a literatura não é o céu, tão-pouco o lugar onde se está bem. Este é um romance que nos levanta e nos afunda. E foi nele que centramos a conversa com Luísa Costa Gomes.

 

O título deste romance tem um encanto estranho … como se principiasse por uma suavidade quase lírica para terminar numa investida provocatória. 

Foi um título muito polémico, muito difícil. Começou por chamar-se apenas Soror Nada e … não agradou: amigos diziam-me que era disfónico, que não se percebia. Depois, chamou-se outra coisa qualquer. E quando me apareceu “Florinhas de Soror Nada”, que acho um título um bocadinho esquinado, pareceu-me que era o título. Isto porque eu não acho que os títulos são bons ou maus; é como uma fatiota: há coisas que caem bem ao livro, o livro é isso, é o que o livro é. E, às vezes, parte-se de um título e depois anda-se a tentar, como dizia o meu pai, fazer um belo fato para um aleijadinho. Anda-se ali a cortar a coisa para o livro entrar no título. Com este, passou-se exactamente o contrário: nunca teve título, teve muitos títulos, depois apareceu e era o título do livro e esse é o livro do título.

Não teme que este título atraia ao livro a velha etiqueta da “escrita feminina”?

Não, de modo nenhum. Pensei até que essa etiqueta já estivesse arrumada, mas aparentemente… não. A “escrita feminina” é uma coisa que surgiu quando eu comecei a publicar, em 1983. E durante uma década, não se falava de outra coisa. Isso são uma espécie de pestilências que acontecem na cultura e depois também desaparecem. E essa agora voltou. Eu e a Hélia [Correia] fomos as primeiras vítimas desse equívoco. Já não se aguentava. Eu tinha que arrumar depressa o assunto e continuei a escrever com a minha experiência. Mas isso também tem a ver com o enorme desenvolvimento que tiveram os estudos culturais e as questões de género e uma certa visão da literatura com programa e mensagem, como “literatura de combate”, um combate muito redutor, espartilhado mesmo, em que as personagens têm sempre que ser positivas, num certo sentido é muito limitativo. Mas eu acho que já não estou nessa guerra.

Este romance dista quatro anos do anterior “Cláudio e Constantino”. E já houve hiatos bem mais longos. Está fora das anuais correrias pelos altos postos nas tabelas de vendas?

Absolutamente. Cada vez gosto mais de escrever e cada vez gosto menos de publicar. Aquilo que eu gosto na profissão é de escrever. É claro que me agrada falar com os leitores, trocar opiniões, mas o que me interessa é de facto isso. O processo da escrita é muito apreciado, muito saboreado. É certo que há momentos mais maçadores, de pesquisa, mas mantêm-me interessada, ligada, implicada naquilo que escrevo. E isso, para mim, é o maior dom que a escrita me dá, que é o de me fazer companhia, de me manter entusiasmada por aquilo que estou a fazer. E esse é o processo. E, portanto, às vezes nem me apetece acabar. Já o “Cláudio e Constantino” demorou imenso tempo.

Os habituais problemas técnicos a emperrarem a escrita?

Pois … tenho sempre problemas técnicos que bloqueiam a minha escrita. Neste caso, a certa altura achei que não sabia continuar o romance. As coisas precisam de tempo para amadurecer, para se revelarem. É preciso deixar passar tempo e esse tempo serve para esclarecer que o problema ou é um problema, e então não tem solução, ou não é um problema e aquilo que se faz é andar para a frente. Com o final, feito numa residência em Itália a que me candidatei exactamente para acabar o romance, já foi diferente. Achei que já chegava, apetecia-me ir fazer outra coisa. Mas também é verdade que não me dedico em exclusivo a um romance. Isso, sim, seria fonte de angústia. Largo e vou fazer outras coisas.

Sempre as escritas paralelas?

As minhas várias actividades não vivem da fome umas das outras, mas vão-se alimentando umas às outras. E vou aprendendo com umas coisas a fazer outras. Agora, por exemplo, estou com um problema técnico muito interessante e que sempre me intrigou. Muitas vezes, contam-me histórias e dizem-me que dariam um bom conto. E eu sempre percebi que as histórias muito boas normalmente não davam bons contos. Estou a contar a história do funeral do Pirandello, que é uma história em si própria extraordinária.

E de um absurdo assinalável …

Sim, e que pode ser contada como uma peça do Pirandello. O curioso é que está a ser tremendamente difícil contá-la de uma forma que eu ache literariamente interessante. Como a história é muita boa, quase que se conta a si própria; no fundo, qual é o meu papel? Hoje, por acaso, apareceu-me uma maneira de a fazer. É evidente que o que me interessa na história do funeral do Pirandello é apropriar-me dela, contá-la à minha maneira, como se fosse o meu próprio funeral, com um pouco de humor negro (risos). Percebi que tenho de fazer cenas como se fossem cenas de teatro. É um conto, uma narrativa mais ou menos factual, e sempre dinâmica, e tem de incluir zonas teatralizadas. E esta questão, de natureza técnica, alimenta-se da minha experiência dramatúrgica.

Integrar, e não bifurcar, continua a valer como lema de escrita?

Sempre. Eu aprendi imenso a fazer, por exemplo, tradução e legendagem de filmes. Como cada legenda só pode ter 46 caracteres, isso dá uma grande necessidade de síntese e até uma maneira muito tensa de apresentar a situação, porque nós não podemos traduzir tudo. Nos filmes do Woody Allen, por exemplo, não teríamos tempo para ler tudo o que ele diz. Os ensinamentos que se retiram para o conto são importantíssimos.

Curiosamente, o conto é entre nós um género com poucos cultores assíduos. Já o romance é uma árvore frondosa, com ramos seguros, sólidos, outos fraquinhos, talvez mesmo escusados. Teremos hoje, neste campo, muita parra e pouca uva?

Não sei… Eu tenho imensa vergonha de dizer isto, mas eu não sei o que se passa hoje na literatura portuguesa. Sou péssima a acompanhar as novidades. Nesse sentido, sou uma escritora muito egoísta. Aquilo que me interessa ler é o que me interessa para a minha escrita. De modo que é muito o que fica de fora. Depois, há aquelas paixões em que lemos tudo de um autor. Aconteceu-me com a Agustina. E ainda bem que li “A Ronda da Noite”, um romance esmagador, Mas parece-me, por outro lado, que o meio editorial e as suas dinâmicas são uma coisa à parte da literatura. Uma coisa é a literatura, outra é a indústria, e as pessoas têm de se manter a publicar, têm de estar presentes no olho do público, visíveis.

Mas a Luísa Costa Gomes faz o inverso. Não me lembro de ver o seu nome anunciado num festival, num encontro literário, uma sessão de leitura. Nada.

Eu não sou capaz. Há o recato. Há também a preguiça, pura e simples. Já fiz toda essa recruta nos anos 80 e 90. Fui ao Salão do Livro, a essas coisas todas do Instituto do Livro, no tempo dourado em que havia dinheiro e a literatura portuguesa se internacionalizou, na altura do Prémio Nobel do Saramago. Fiz essa tarimba toda e não fiquei muito mais feliz por isso. Não é uma coisa que me diga muito. Não estou a esnobar. Do que eu gosto mesmo é de estar em casa a escrever.

Ou será que os festivais e iniciativas do género praticam aquele catering com indulgências ao gosto dos leitores, contra o qual se insurge no romance “Ilusão (ou o que quiseram)”?

Não, não tenho qualquer sentimento de desprezo ou de superioridade em relação a esse tipo de iniciativas. E tenho até admiração pelas pessoas que têm essa capacidade de socializar, de viver com o copo na mão. Eu não sei o que fazer ao copo, não tenho nenhumas graças sociais. E refiro-me ao social não apenas literário, mas também ao social das festas, dos funerais. Não me interessa. Muita gente impede a conversa e isso é a única coisa que me interessa: conversar, estabelecer uma relação que não seja superficial. É claro que quando é preciso vou, vou com prazer, mas vou profissionalmente. 

Fixemo-nos nas “Florinhas…”. Teresa, a protagonista do romance, quer ser santa e começa por seguir o tradicional guião: escolhe-se e assinala-se. O que é que correu mal?

Esse foi um dos grandes problemas que se me puseram. Eu diria: o que é que correu bem? Teresa é uma sobrevivente. Correu-lhe tudo mal e, no entanto, conseguiu fazer de si própria e da sua vida, não um elogio do sofrimento e do sacrifico, mas uma permanente luta pelo prazer e pela autonomia. O que lhe aconteceu não é uma perda, é um ganho. Enquanto criança, tem uma grande necessidade de liderança, um grande sentimento de si, e que se identifica e se revê naqueles modelos que estão disponíveis na sua cultura, a ideia do olho de Deus incluída.

É uma ideia forte.

Claro, ser permanentemente vigiada, estar sempre na cabeça de outra pessoa, no seu olhar maligno, a ideia de alguém que está permanentemente a imaginar o mal que nós estaríamos a imaginar fazer. E, depois, é extremamente libertador quando percebemos que ninguém está a pensar em nós, que o pai tem a vida dele, que a mãe está também noutra. Tudo isto é sentido como um abandono, assim como a questão de não ter a presença de Deus. É algo que lhe cria perplexidade.  

A igreja católica tem também aqui as suas culpas, no sentido em que ela tritura a própria ideia da humanidade e da dignidade humana. Ou desconhece-as mesmo?

No fundo, o que a Igreja faz é sacrificar essa extraordinária imagem natural de Deus. Se nós observarmos uma criança pequena, tudo para ela é benigno. A primeira relação com os pais, amorosa, de conforto, de consolo completo, essa confiança é que é Deus. Não é um pai permanentemente judicativo, que lê os nossos pensamentos mais recônditos. E Teresa depressa percebe este ermo e vai percebendo, ao longo da vida, que estão a fazer um negócio que não lhe é nada favorável. Ela quer salvar Deus da religião, da Igreja, porque não se pode deitar fora o bebé com a água do banho.

A mesma Igreja que tem uma visão malévola da mulher…

É toda uma cultura multimilenar. Estou a ver agora uma série extraordinária da Margaret Atwood, “The Handmaid's Tale”. O que é genial nela é ter percebido uma coisa muito simples que eu ainda não tinha percebido com esta clareza: para dominar uma sociedade, tens de começar por submeter as mulheres. Se submetes as mulheres, os homens vão atrás, porque convém aos homens. Mas o global da sociedade é completamente submisso. Como é um jogo que lhes interessa, porque eles mandam mas não mandam o suficiente, mantêm a sociedade numa redoma de opressão em que as mulheres se estratificam, se obrigam umas às outras. É pelo controlo da genealogia, daquilo que na mulher é genesíaco que se controla uma sociedade.  

“O Sermão à Ranhosa”, que haveria de ficar impresso no legendário privado de Teresa, assinala o início da desconversão. Actua como umas daquelas vacinas que marcavam a nossa infância?

É uma espécie de véu que cai face à falta de atenção da santidade. Eles estão sempre com a atenção posta noutras realidades, noutras dimensões que não uma coisa inter-relacional. É por isso que eu, neste campo, sou completamente indiferente ao diálogo e à persuasão e a todas estas coisas pedagógicas, aos grandes sermões. Porque até uma criança percebe imediatamente o hipócrita.

Quer falar-nos do devaneio do prólogo do livro?

Começa com uma fantasia de suicídio, que é uma fantasia típica da média vida, a idade em que as pessoas pensam que têm o controlo sobre si, sobre a sua velhice e sobre o seu próprio fim. A partir da Terceira Idade, o que se perde essencialmente é essa omnipotência. E despois, com a Quarta e a Quinta Idades, perdemo-nos a nós próprios.

O paradoxo é, assumidamente, o seu terreno de eleição. É a figura que melhor pode expressar a complexidade que sobe à superfície deste livro?

Sim, sobretudo o paradoxo da soberba, aquilo que para Teresa é mais terrível, e que é um pecado em si próprio paradoxal. A própria auto-estima de conseguir dominar a soberba vai subindo. O que vemos nos santos é uma escalada de violência contra si próprios que é inexplicável. O próprio pecado é posto no centro da criação da autonomia – autonomia de pensamento, autonomia espiritual – e tem de ser submetido. Ora, isso só é possível por uma espécie de extensão do espírito divino que está introjectado e que cria uma auto-perseguição permanente. Daí o anseio do martírio, do sofrimento.

Não por acaso, a soberba é dada pela imagem das claras em castelo, que é uma coisa que não lembra ao diabo. 

É uma coisa em que a pessoa se vai puxando pelos atacadores das botas. E os santos fazem isso. Criam grandes problemas que, de fora, nós não conseguimos perceber, que nos intrigam. São efabulações narcísicas, e às vezes esquizóides, sobre problemas inexistentes. É que se saíssem de casa e fossem fazer o bem, nada a opor. Como São Francisco de Assis que foi para os leprosos, que certamente agradeciam. Mas a verdade é que me parece uma coisa exibicionista. A prática do bem é uma coisa discreta, que não tem a ver com a religião, mas com outras coisas e, por vezes, até com circunstâncias da vida: a solidão, a perda de alguém. Agora estar com elucubrações místicas… e capazes de transformar os outros em vítimas, como aquela família de Santa Catarina de Siena, coitada!

E onde fica a realidade?

Um santo tem uma idealização de si próprio, do deus e das instâncias intermédias; portanto, aquilo é uma conversa que mantém consigo próprio. Alimenta-se da sua própria necessidade, porque os míticos são grandes reformadores, que não aceitam bem a autoridade externa. Santa Teresa de Ávila cria uma ordem, São Francisco de Assis cria uma ordem. Os santos não são entes anódinos e sem soberba. E sobretudo como com Ramon Llull [filósofo e missionário catalão, 1232-1316], também aconteceu quando teve aquele combate com Deus, que queria que ele fosse dominicano e ele queria ser franciscano. E foi franciscano É a autonomia no delírio mas é autonomia

O corte com a religião ou, talvez melhor, o desapego que experimenta não é uma espécie de pele que a personagem deixe para trás. É como se, na ausência da “massa” religiosa, ficasse a cratera, o vazio?

Isso foi justamente um problema que se me pôs. Esse grande impulso para uma transcendência, que está culturalmente configurada, uma coisa muito reconhecível, não desaparece. É curioso ver como é que ela, perdendo essa configuração, não perde a necessidade, é pouco provável que perca. E por isso eu achei que o vinho, a cultura do vinho, poderia ser, simbolicamente, algo que pudesse sublimar essa mesma necessidade, que é intrínseca, é dela. É interessante ver que esta exigência absoluta o que pode criar é pessoas dissimuladas. Para mim, é exactamente como a avaliação nas escolas: quanto mais exigente, mais cria cábulas, gente que vai copiar no teste, que vai arranjar todos os truques para fazer todos os possíveis para ser …  falsa. Há esta avaliação, há este olho, sempre permanentemente sobre nós; parece que estamos num teatro, temos espectadores e temos de fazer essa representação. Portanto, a intimidade connosco e com o que nos interessa verdadeiramente é coarctada, não é possível.

O livro fecha com as boas intenções, sempre as boas intenções das quais se diz que o inferno está cheio.

Mas as pessoas têm boas intenções, ao contrário do que se diz lá no evangelho segundo já não sei de quem (fiz por esquecer)… acho que é a Carta aos Romanos, em que aquele padre que se dirige a umas velhinhas inocentes, porque não têm propriamente circunstâncias que lhes permitam pecar (quem lhes dera!). E o padre está naquele disparate, são todos pecadores desde que nascem até que morrem, maus, invejosos. Ao contrário, eu acho que as pessoas até são, de um modo geral, honestas, boas, trabalhadoras. Seria muito curioso saber como seria uma sociedade em que as pessoas fossem exactamente como os cristãos pensam que elas são. Bom, agora já estão melhorzitos, mais de acordo com essa concepção (risos). Mas não se percebe aquele escarnecimento sobre aquelas desgraçadas.  

Não vejo este livro como uma “hagiografia falhada”, como disse Isabel Lucas no “Público”. mas antes como uma bem conseguida paródia do género hagiográfico.

Não, não é uma hagiografia falhada, de modo nenhum. Enfim, é uma interpretação … Seria, sim, se o livro fosse inconscientemente uma hagiografia. E ele está conscientemente construído como uma hagiografia: em cada etapa da hagiografia ela escolhe o caminho da liberdade, da autonomia. O primeiro capítulo é a consciência da vocação, na infância, que acontece em todas as hagiografias. É a altura em que os santos descobrem que são eleitos. Depois, uma adolescência normalmente libertina. No caso de Santa Teresa d’ Ávila é até cómica porque ela considera-se uma pecadora por se olhar ao espelho e se achar bonita. Corresponde, no romance, à segunda fase da vida de Teresa, quando ela dá às tesouradas no cabelo. O final é uma vida de santo, mas de alguém que não é santa nem escolhe a santidade de olhos abertos. Note-se que se trata de uma mulher que é professora, tem os seus discípulos, a sua vida de matemática internacional. Nada nela é falhado, pelo contrário. O que é difícil é retirar os preconceitos. Com a sua perda de fé, ela fica, aliás, com mais espaço para fé noutras coisas mais interessantes. 

Poderia ser também uma via-sacra por defeito?

São as 13 estações da via-sacra. Uma via-sacra imperfeita.

A vontade subversiva que identificamos nos seus romances neste é mais declarada. Concorda?

Este romance é mais traço grosso. Em algumas passagens é bastante mais programático, ou seja, percebe-se qual é a minha intenção ao escrever cenas e isso torna-o menos subtil. Neste livro, não estou acima nem abaixo de coisa nenhuma, faço absolutamente o que me apetece. É que há livros em que podemos dizer: não faço determinadas piadas, não faço insinuações, não deixo que o livro se encaminhe para zonas um bocadinho grotescas. A minha culpabilidade era tão grande que o meu instinto pendeu para o radical contrário.

A verdade é que a ironia faz milagres. E se pudéssemos canonizá-la?

Eu achava muito bem. Imediatamente votava Santa Irónica, mas não-mártir. 

E o que a ocupa agora?

Estou a escrever contos, muito implicada, muito divertida. Estou também a terminar o tal funeral do Pirandello. E está-me a aparecer o próximo romance, curiosamente quando eu pensava que já não ia conseguir escrever mais romance nenhum, porque demoram imenso tempo. E está-me a apetecer imenso ficção científica (eu que sempre odiei ficção científica!) e diálogo filosófico. Provavelmente um diálogo filosófico passado noutro planeta.