Opiniao

Um adeus amargo

José Sócrates colocou hoje, 4 de maio de 2018, termo à sua militância no PS, acabando assim com uma relação que tinha mais de 40 anos, e que lhe permitiu ser primeiro-ministro, o único do PS com maioria absoluta

Esse gesto só fica bem a Sócrates. A relação de militância com o PS já era um embaraço para ambas as partes. António Costa, que como comentou Pacheco Pereiro, deve ser mais cínico de que parece, limitou-se a revelar-se “surpreendido”.

Mas a questão não é assim tão simples. Voltando a citar Pacheco Pereira, “José Sócrates é uma pessoa pouco séria”. E eu não deixo de me recordar de um senhor, há alguns anos, ao meu lado, no barbeiro, a comentar, incrédulo: “o primeiro-ministro é corrupto”.  A mensagem implícita foi que chegámos ao fim da linha.

Na realidade, e apesar de 99% da população portuguesa estar convencida que Sócrates é corrupto, não temos a certeza que esse seja o caso, pois o julgamento ainda não começou não existindo, por isso, qualquer sentença, que condene ou que absolva Sócrates. É possível que Carlos Santos Silva, que lhe pagou o apartamento de Paris, seja, nas palavras de Pedro Mexia, “o melhor amigo do mundo, desde que existem amigos. Ou vai ser condenado, ou vai ser canonizado.”

Tendo a concordar mais com José Luís Arnaut, o fundador (e militante do PS) do Serviço Nacional de Saúde, que afirmou que Sócrates vivia acima das suas possibilidades. E isto não é uma piada sobre uma frase que esteve há tempos na moda a propósito da situação macroeconómica portuguesa. De facto, parece ser mesmo verdade. Sócrates é um deslumbrado. Deixa-se seduzir por apartamentos no centro de capitais, por roupas caras, por automóveis a condizer, e por mulheres sofisticadas da capital. Sinais de riqueza que não condizem com os rendimentos que declara. Tudo isto pode ser verdade. Mas estes eventuais defeitos de carácter não são suficientes para o imolar na praça pública.

Não. Mas há algo muito sério que não podemos perdoar a Sócrates e ao seu ministro das finanças, Teixeira dos Santos: é terem deixado acumular desequilíbrios de tal forma elevados nas contas de Portugal com o resto do mundo, que o crédito ao nosso pais quase se acabou. Estivemos a semanas da bancarrota, da qual só fomos salvos pelo acordo com a troika, e às situações de elevados sacrifícios, desespero, miséria, e emigração em massa, a que esse acordo conduziu.

Carlos César ainda tentou hoje dourar a pílula, afirmando no parlamento que Portugal sempre registou avanços quando o PS esteve no poder. Talvez, de uma forma ou de outra, isso seja verdade. Mas de que serviram esses avanços se Portugal esteve à beira da bancarrota?

De certeza que a História não perdoará a Sócrates e a Teixeira dos Santos, e eu também não lhes perdoarei. Hoje, temos um ministro das Finanças, Mário Centeno, que está a fazer tudo bem: colocou as contas públicas próximas do equilíbrio, para ter margem de manobra para gastar mais dinheiro quando o ciclo económico piorar, e com esses gastos adicionais estimular a economia e evitar uma recessão mais cavada do que outra forma seria, sem essas despesas adicionais. Em jargão, Centeno está a aplicar uma política orçamental anti cíclica. Receita de manual, mas que nem sempre teve condições ou vontade para ser aplicada. E, a julgar pela popularidade de Centeno nas sondagens, os residentes em Portugal parecem compreender essa necessidade de moderação. De maneira geral, se explicarmos as situações com seriedade e exatidão às pessoas, estas tendem a compreender.

Centeno está também apostado em reduzir a elevadíssima dívida pública portuguesa, e só com o dinheiro dos impostos, pois já não há receitas de privatizações. Já vendemos tudo o que havia para vender, e mesmo assim estamos muito endividados, o que é sem dúvida brilhante. E, finalmente, a génese dos nossos problemas, o défice das contas de Portugal com o exterior, é hoje um excedente. Transformou-se, mudando de negativo para positivo. E só dessa forma teremos uma subida, gradual, mas sustentada, do nosso nível de vida

O grande mérito de António Costa tem sido o de dar carta branca a Centeno para este agir. Quanto ao facto de Costa ter sido o número dois de Sócrates, é fácil perceber que se nos sentarmos ao lado de um ladrão num autocarro não nos transformamos, por contágio, em larápios. O resto, as tentativas de colar Costa a Sócrates, são tretas. Costa será avaliado pelos seus próprios méritos e deméritos, não por ter sido o número dois de Sócrates. E Costa já tem um historial como primeiro-ministro. Veremos como evolui.