Opiniao

Como irá Centeno acomodar os aumentos na Função Pública?

Qualquer deslize do Governo através de promessa irrealista irá atirar o défice de 2019 para números acima dos previstos 

Se na semana a passada o 25 de Abril foi o mote do meu artigo, nesta semana tem de ser o 1.º de Maio. Lembro-me bem do de 1974. Chegados do exílio, Cunhal e Soares vieram falar de esperança e democracia, num ambiente de festa nacional que marcou bem o tom inicial do pós-25 de Abril. Este clima festivo nem chegou a durar um Verão – e todos os 1.º de Maio desde então, a começar no de 1975, foram celebrados em ambientes de revolução ou de reivindicação. O deste ano não fugiu à regra, com a CGTP e a UGT obviamente desunidas, apesar de coladas numa ‘geringonça’. O que as separa? O tempo e o modo! Uma acredita na reedição da revolução soviética, elegendo a rua como palco das reivindicações; outra crê numa democracia inspirada numa corrente social-democrata, privilegiando os gabinetes para chegar a acordos exequíveis.

No entretanto, a CGTP pede 650 euros de salário mínimo, a UGT fica-se pelos 615 euros – ou seja, uma diferença substancial de cerca de 5%, que representa bem o estado de espírito de cada uma das centrais. 

Se somarmos as já anunciadas greves em maio de vários setores da Função Pública por incrementos salariais e redução do tempo de trabalho (as famosas 35 horas!), podemos adivinhar aquilo que nos espera no Verão por parte do PCP/CGTP – e que tem como aperitivo uma grande manifestação nacional a 9 junho. 

E Carlos Silva, encostado às cordas pela CGTP (e com o argumento de não existir qualquer diálogo com este Governo, supostamente de esquerda mas objetivamente cada vez mais coordenado com a Europa), também já anuncia manifestações de rua.

Neste ambiente de um maio vermelho nas reivindicações, vem a Comissão Europeia referir que o crescimento projetado pelo Governo em 2018 será mesmo de 2,3% e, em paralelo, o desemprego ficar-se-á pelos 7,7%, apontando para um défice de 0,9%, superior aos 0,7% estimados por Centeno. 

Sinceramente, acho que são ótimas notícias, embora certamente por defeito meu (raciocínio economicista e frio) não consigo deixar de me lembrar que a dívida pública chegou em fevereiro aos 246 mil milhões de euros – se bem que amortecida com tesouraria de cerca de 22 mil milhões, presentemente a ser acumulada para uma amortização de dívida de 6,6 mil milhões, a efetuar em 15 de junho  (com uma taxa bem elevada de 4,45%). 

Debitados estes números, questiono-me como irá a dupla Costa/Centeno acomodar as reivindicações salariais adicionais da Função Pública, feitas pelos sindicatos para 2019 e claramente referidas por Arménio Carlos (para todos os setores – público e privado). Podem ter a certeza de que, como diz o povo, «qualquer espirro pode ser uma constipação, se não for pneumonia». Por outras palavras, qualquer deslize governamental através de promessa irrealista irá atirar o défice de 2019 para números bem superiores aos agora previstos (0,3% segundo Centeno) e que a Comissão Europeia até vem antecipando, ao referir 0,6%.

P.S. 1 – Finalmente o Partido Socialista vem demarcar-se objetivamente de Pinho e Sócrates. Foi preciso um clamor generalizado na opinião pública, chocada com alegados pagamentos a Pinho feitos pelo Grupo BES enquanto estava no Governo, para reagirem contra ambos os anteriores governantes socialistas. Diz o povo: «Mais vale tarde que nunca!». E, na minha opinião, Carlos César e Galamba fizeram muitíssimo bem. Mas será que não tinham percebido antes que há imagens que, justa ou injustamente, ficam coladas a todo um coletivo – pelo que as pessoas de bem teriam de se demarcar atempadamente?

P.S. 2 – Também o Benfica tem uma época marcada por e-mails e seus conteúdos, obtidos por violação de correspondência privada, e ainda por um caso de alegada corrupção de um oficial de Justiça que se colou como uma nódoa ao clube e seus dirigentes. E aqui não há justiça ou injustiça. Há realidades. Também neste caso, por convicção de inocência ou por fuga para a frente, toda a época seguiu ao ritmo destes factos, agravados por resultados que não estão condignos com a grandeza do clube/SAD. E hoje o Benfica joga a presença na Champions no Estádio de Alvalade, podendo encontrar a salvação ou o abismo. Como benfiquista, espero a salvação – porque o abismo é um desconhecido que há anos não conhecemos e dispenso conhecer.