Opiniao

O piso nobre da estante da sala

Um dia, já lá vão uns anos, ao entrar em minha casa um amigo que convidei para jantar pôs-se a olhar para a estante da sala onde eu tenho os meus livros. Ao fim de um bocado, concluiu: «Quer dizer que consideras a política mais importante do que a poesia?». Não percebendo o comentário de imediato, perguntei-lhe o que o levava a pensar isso. «Porque tens os livros de política na estante mais alta, enquanto os de poesia estão a meia altura».

O raciocínio tinha a sua razão de ser. Quando os arquitetos do Renascimento italiano elaboraram o cânone do palazzo também definiram uma hierarquia na função e importância de cada piso. Quase sem janelas, o rés-do-chão seria sobretudo dedicado aos serviços que asseguravam o bom funcionamento da residência; o primeiro andar seria o piano nobile, ou andar nobre, o mais requintado por fora e por dentro, onde se abriam os salões de baile e de receções; o segundo andar, mais resguardado, seria para os aposentos privados dos proprietários; e o último, também o de mais difícil acesso, uma vez que não havia escadas (na época as vistas ainda não eram certamente como hoje), recebia zonas de arrumos e as instalações da criadagem.

Pensando ainda no comentário do meu amigo, ocorre-me que os livros de poesia ocupam na minha estante precisamente aquilo que poderíamos considerar o equivalente do piano nobile. Encontram-se à altura dos olhos e ao alcance da mão, prontos a serem lidos ou desfrutados a qualquer momento. Não por acaso, foi também nesse nível que arrumei alguns dos volumes com as mais bonitas lombadas e alguns dos troféus mais estimados.

Acima deles – e por aí se percebe que a posição relativa, mais alta ou mais baixa, não corresponde de forma rígida a um critério de maior ou menor importância – encontram-se exemplares bastante baratos e populares de livros de bolso da Europa-América, da Penguin, da coleção Saber ou da Que Sais-Je?, alguns deles em considerável mau estado.

Curiosamente, a secção de política e história do século XX, que outrora estava no topo da “hierarquia” (ou pelo menos assim acreditava o meu amigo), encontra-se hoje na base, poucos centímetros acima do chão. Não é que eu os tenha em pouca conta ou os considere inferiores. Acontece simplesmente que me parecem constituir, quer pela forma quer pelo conteúdo, uma base bastante sólida sobre a qual assentar o resto do edifício. Afinal, também no rés-do-chão dos palácios nobres de Itália se utilizavam grandes blocos de pedra rusticada para lhes dar uma aparência viril e duradoura.