Opiniao

Feira do Livro: tudo em que mexi (e não levei para casa)

Uma questão de alguns euros interpôs-se entre mim e um belo negócio

Não foi a visita mais demorada – nem certamente das mais produtivas. Com o carro estacionado precariamente, impunha-se uma espécie de contrarrelógio, alameda acima, alameda abaixo, de forma a tentar vasculhar o máximo de livros no mínimo tempo possível.

A primeira coisa que me chamou a atenção foi uma edição ilustrada de Pinóquio, de Carlo Collodi (ed. Relógio d’Água). Pelo menos, tinha a desculpa de ser para os meus filhos… Estive com ele na mão durante algum tempo, decidido a levá-lo, mas a demora no atendimento obrigou-me a desistir. Com o carro mal parado, era preciso acelerar o passo. Ao lado, numa banca de promoções, folheei Lanterna Mágica, a autobiografia de Ingmar Bergman. Seria sem dúvida um bom reforço para a minha diminuta secção de mestres do cinema. Mas ficou para outras núpcias.

Imediatamente depois disso avistei ao longe, com algum destaque, a capa amarela de O Farmacêutico de Auschwitz – Uma História Secreta do Holocausto, de Patricia Poznan (Clube do Autor). Trata-se da história verídica de Victor Capesius, uma figura-chave do infame campo de concentração, e há algum tempo que desejava adquiri-lo, mas a quantidade de pessoas ali à volta desencorajou-me.

Adiante, na Tinta da China, senti-me tentado a levar Hotel, de Paulo Varela Gomes, e o número 5 da Granta, que tem o seu assombroso texto ‘Morrer é mais difícil que parece’. Pensei que pudessem estar mais baratos e, assim, acabei por deixá-los ficar onde estavam.

Nas Edições 70 abri ao acaso, como faço tantas vezes em livrarias, o volumoso Ascensão e Queda dos Impérios Globais, 1400-2000, de John Darwin, Prémio Wolfson de História 2008. Gostei do que li – mas não gostei tanto do preço… E segui o meu caminho.

Parando na Cotovia, descobri algo que me interessou muito: A Realidade do Artista. Pensei que me ajudaria a penetrar no mundo de Mark Rothko, cujos quadros com grandes manchas de cor se tornaram tão icónicos quanto mal compreendidos. Era melhor ainda do que imaginava: o excerto que li falava também sobre o papel do artista ao longo da história, com exemplos concretos. Mais uma vez, uma questão de alguns euros interpôs-se entre mim e um belo negócio.

Não vos vou maçar muito mais com tudo o que gostaria de ter levado para casa. Mas, quase no final, vi algo que me acelerou o batimento cardíaco. O Homem e o Mar – Artistas Portugueses do Marfim e do Osso dos Cetáceos – Açores e Madeira, de João A. Gomes Vieira. Já lhe tinha pegado em Ponta Delgada. Aqui estava consideravelmente mais barato.

Hesitei. O que fazer? O cronómetro falou mais alto. Era melhor ir buscar o carro ou arriscava-me a gastar numa só multa o equivalente a tudo o que não tinha gasto em livros.