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Música para os mini ouvidos deles

Sabia que os bebés conseguem ouvir sons a partir da 16.ª semana de gestação, quando têm apenas 11 centímetros? O Institut Marquès, uma clínica de fertilidade de Barcelona, insiste que a música pode ter um papel no desenvolvimento fetal. A última novidade é uma espécie de playlist com lugar para Mozart, Bach ou Queen mas sem Adele nem Shakira

Pela primeira vez conseguimos comunicar com os fetos. Para o fazer, tivemos de criar o ‘baby pod’». A plateia no MIT, a famosa universidade técnica no estado do Massachusetts, desmancha-se a rir. Marisa López-Teijón, médica obstetra e diretora do Institut Marquès, uma clínica de fertilidade em Barcelona, não se faz rogada e mostra o gadget à audiência: uma espécie de tampão ligado a um smarthphone, com o qual é suposto (e possível, dizem) dar música aos bebés enquanto estão na barriga da mãe, por via vaginal. A apresentação do outro lado do Atlântico, no passado mês de novembro, resultou de uma distinção improvável: a ideia e o trabalho científico que tem desenvolvido no Institut Marquès valeu-lhe um IgNobel, os prémios para a «ciência que faz rir e depois pensar». É nisso que acredita Marisa López-Teijón: depois da descoberta acidental de que as vibrações musicais ajudavam nos processos de fertilização in vitro, o Institut Marquès está determinado em provar que a exposição a melodias influencia o desenvolvimento logo nos primeiros tempos de gestação. 

A última novidade, divulgada este mês, é um ranking das músicas de que os fetos mais gostam: ganham os clássicos, perde a pop - mas não toda. 

Mas antes de irmos à mais recente playlist intrauterina de Marisa López-Teijón, eis o que têm percebido. Nos últimos anos, o instituto espanhol conseguiu determinar, através da reação facial à música transmitida via vaginal, que os fetos conseguem ouvir a partir da 16.ª semana de gestação, quando têm 11 centímetros de comprimento. Sensivelmente pela mesma altura em que os pais conseguem saber se é menino ou menina. E uma das ideias que a médica desmistifica é que os bebés não ouvem quase nada quando se fala ou mete música a tocar para a barriga, 

A diferença entre expor as crianças a uma conversa ou a uma melodia está, segundo López-Teijón, no conceito de que a música gera emoções, o que ativa diferentes partes do cérebro. Nisto, as conclusões para os fetos não variam muito das que existem para os recém-nascidos. «Se falarmos normalmente, os bebés respondem muito menos do que se lhes falarmos com musicalidade. O que acontece a partir da 16.ª semana de gestação é exatamente igual ao que acontece quando se fala para um bebé», contou em 2015. 

E qual é a vantagem de comunicar com os fetos? A convicção da médica é que, ao expor os bebés na barriga da mãe a música, está a estimular-se a comunicação e alguns aspetos quer da vocalização quer da expressão corporal começam a determinar-se no útero. Nesta entrevista de 2015, López-Teijón admitia, por exemplo, que distúrbios como a dislexia, em que uma das características é a subvocalização de palavras, pudessem ser prevenidos ou até eliminados desta forma.

Se tudo isto está por validar, no mais recente trabalho, apresentado no congresso da Associação Internacional de Música e Medicina, que teve lugar em Barcelona, a equipa apresentou conclusões um pouco mais mundanas sobre as preferências musicais dos fetos com base numa experiência com 300 bebés nas barrigas das mães, entre a 18.ª e a 38.ª semana de gestação. Foram expostos a 15 temas: cinco peças clássicas, cinco canções tradicionais e cinco temas da pop. Basicamente, a equipa usava o ‘baby pod’ para passar a música e registava através de ecografia os movimentos da boca e língua dos fetos: a premissa é que, perante o estímulo musical, há uma tentativa de comunicação por parte dos bebés. «A música é uma forma de comunicação ancestral entre humanos: a comunicação através de sonos, gestos e danças precedeu a linguagem falada», assinalou Marisa López-Teijón em comunicado. Os resultados não deixam margem para dúvida aos investigadores: a maioria dos fetos reage à música de uma maneira que dificilmente será coincidência. A equipa sublinha que mexer a boca ou esticar a língua são movimentos que é raro serem produzidos de forma espontânea no segundo e terceiro trimestre da gravidez - só 3% a 5% acontecerão sem haver um estímulo específico. Mas a segunda conclusão, a tal que dá para definir uma lista musical que vá mais ao agrado dos bebés, teve a ver com as diferenças obtidas. As peças clássicas geraram reações em 84% das ‘cobaias’, as canções tradicionais (fosse um cântico de natal espanhol ou as rancheras mexicanas) produziram respostas em 79% dos fetos mas os temas pop só estimulam 59% dos bebés. Entre os temas clássicos testados, destacou-se ‘Eine Kleine Nachtmusic’, de Mozart, melodia habitual nos mobiles dos berços dos recém-nascidos e nos bonecos de corda que invadem os quartos dos bebés. Sabe-se agora que a composição de 1787 funciona logo na barriga da mãe. Mas se os clássicos parecem ser consensualmente apreciados, nos temas pop os bebés parecem ter mais algum critério. Bohemian Rhapsody dos Queen e Y.M.C.A. dos Village People, no fundo clássicos dentro da pop, tiveram mais sucesso que Adele, Bee Gees e Shakira. Outra curiosidade que poderá mostrar até que ponto os bebés tendem a reagir a sons mais musicais foi o facto de, confrontados com voz humana ou com a voz do rato Mickey, o boneco produzir mais efeitos.

Se há dúvidas sobre a capacidade de audição dos fetos através do clássico recurso a fones na barriga, o baby pod está à venda por 149 euros e os autores garantem que não é desconfortável... Marketing à parte, não faltam estudos de que, com mais ou menos precisão, qualquer coisa os bebés ouvirão nas barrigas das mães, em particular no final da gestação. E ao ponto de até se lembrarem disso mais tarde. Um trabalho publicado em 2013 por investigadores da Universidade de Helsínquia revelou que os recém-nascidos conseguem reconhecer melodias que ouviram enquanto ainda estavam no útero materno meses depois de nascerem. A experiência foi feita com 24 mulheres no terceiro trimestre da gravidez. Metade puseram a tocar, cinco vezes por semana, a Twinkle Twinkle Little Star. Logo nos primeiros dias de vida e depois aos quatro meses, os bebés que tinham ouvido a música mostravam uma maior atividade cerebral quando eram de novo expostos à cantiga do que os que tinham passado os últimos tempos no forno sem ouvir o ‘brilha brilha lá no céu’. Mais do que ouvir, os investigadores acreditam que isto prova que os bebés também são capazes de aprender qualquer coisa enquanto ainda estão na barriga da mãe. «Apesar de a nossa investigação interior ter mostrado que os fetos podiam aprender pequenos detalhes do discurso, não sabíamos quantos tempo seriam capazes de reter esta informação. Estes resultados indicam que os bebés são capazes de aprender muito cedo e que os preceitos dessa aprendizagem permanecem por muito tempo». Mais que não seja, podem sempre ficar com o bichinho de apreciar boa música.