Opiniao

Água na fervura para aprovar o Orçamento

A rápida desautorização de que Santos Silva foi alvo por Costa mostra que este quis estancar a reabertura da hostilidade à esquerda

António Costa veio a terreiro acalmar os parceiros de esquerda – a sua verdadeira maioria parlamentar, aquela que lhe dá legitimidade para ser primeiro-ministro é o PS, o PCP e o Bloco de Esquerda. Depois de uns meses em que andou inebriado com o perfume da maioria absoluta, acordos parlamentares com Rui Rio e a ideia de tornar o PS um partido de centro ou, como dizem os anglo-americanos, catch it all, Costa desceu à terra. Até ver, só a ‘geringonça’ permite a passagem do Orçamento para 2019. O excesso de hostilização – que começou a ser paulatinamente elaborado com a ascensão de Rui Rio à liderança do PSD e foi evidente no Congresso socialista – foi estancado. Ou parece que foi. O debate sobre o Estado da Nação foi uma peça importante para avaliar o estado das coisas. «A ‘geringonça’ não só está no nosso coração como na nossa cabeça», declarou o primeiro-ministro numa declaração de amor bastante necessária num tempo em que alguma cólera se vinha a espalhar dentro da ‘geringonça’.  O discurso de Costa teve vários momentos de reaproximação: em resposta a Catarina Martins, pela primeira vez em muito tempo, o primeiro-ministro afirmou perentoriamente que era contra o Tratado Orçamental. 

Estão a ser dados pequenos sinais de reconciliação com vista à aprovação do Orçamento de Estado para 2019. É verdade que Augusto Santos Silva lançou a bomba da semana quando, em entrevista ao Público e à Renascença, afirmou que só era possível repetir a solução de Governo caso os partidos à esquerda do PS passassem a defender as políticas europeias, o que é a mesma coisa que dizer «uma repetição da  ‘geringonça’ é impossível». Mas a rápida desautorização de que foi alvo por parte de António Costa mostra que o primeiro-ministro quis estancar, desta vez, a reabertura da hostilidade aos parceiros de esquerda. A ideia de que o PS poderia lucrar eleitoralmente com eleições antecipadas pode estar a ser sobrevalorizada – principalmente se as pessoas perceberem que foi o PS e o primeiro-ministro que se afastaram deliberadamente da solução de Governo. 

Portanto, dando o desconto a Augusto Santos Silva parece que estamos a assistir a um processo a que depois do «recentramento» sucede o «desrecentramento». Mas até ao lavar dos cestos é vindima como diria Jerónimo de Sousa que adora adágios populares.