Opiniao

Turismo: de solução a problema?

«Deve haver coragem política para dizer basta ao turismo».

Alexandre Ferreira,

Arquiteto, dirigente da Secção Regional Norte da Ordem dos Arquitetos

Portugal, nos últimos anos, tem ganho vários prémios turísticos de âmbito europeu e internacional. Distinções que reforçam a atratividade e o bom nome da nossa oferta turística, na concorrência feroz que existe entre vários países e vários destinos, sobretudo na Europa e na bacia do Mediterrâneo (mais ocidental do que oriental). 

Os World Travel Awards, por exemplo, distinguiram Portugal como o melhor destino de praia da Europa, a cidade de Lisboa como o melhor porto de cruzeiros da Europa, e a Madeira como a melhor ilha de destino europeu. Mais: o resort Pine Cliffs, no Algarve, foi considerado o melhor resort de destino europeu para famílias, e a vila de Sintra um excelente destino. Portugal obteve ainda a distinção de melhor site de promoção turística.

Estes e outros troféus atestam e reforçam não só a perceção mas acima de tudo a certeza de que o nosso país vive muito bons momentos na primeira divisão internacional do turismo. 

 

A tudo isto há que acrescentar mais e melhores indicadores económicos e sociais, que mostram até que ponto o turismo é um esteio para a nossa economia -- no que respeita à captação de receitas, pagamento de impostos e afins, criação de emprego, renovação e revitalização de vilas, cidades e outras partes do território. 

Portugal está na moda como destino turístico. A diversificação da oferta turística durante os doze meses do ano tem permitido que o nosso país não seja procurado apenas durante alguns meses do ano, sobretudo por causa do sol e do mar, mas seja associado a outras ofertas na área da cultura, da história e da gastronomia.

 

O turismo no nosso país tem crescido - e muito - mais do que a economia nacional no seu todo.

O perfil do turista que nos visita tem sido tipicamente europeu, mas os não europeus estão a aumentar. Vêm essencialmente de avião, viajam acompanhados, gastam principalmente dinheiro no alojamento, restauração e viagens. Mais de dois terços dos turistas são repetentes no nosso país. Não faltam indicadores, números, exemplos, para atestar quanto nós, portugueses, temos ganho com o turismo.

Esta indústria global movimenta em todo o mundo mais de mil milhões de pessoas (das mais de sete mil milhões que o globo tem) e preveem-se crescimentos alucinantes até 2030 (ano em que, segundo a Organização Mundial do Turismo, haverá 1,9 mil milhões de turistas). 

No ranking dos países do mundo que mais turistas recebem estão vários europeus, mas também outros como a China, a Malásia ou a Rússia. Globalmente, a França é um dos campeões. Dos países que mais lucram com o turismo, temos também uma diversificação que atesta o quanto a receita turística é importante para as contas públicas e para as economias nacionais.

 

Quando esta indústria foi ‘criada’, há cento e cinquenta anos, poucos poderiam vaticinar o que iria ser o turismo no futuro. 

Num mundo cada vez mais aberto, no século do movimento dos povos, o turismo tem tudo para continuar a ser uma força económica, social e cultural que pressionará governos e fronteiras. 

Mas será que o turismo corre o risco de deixar solução e se transformar num problema para os cidadãos e para os países recetores de turistas? Será que a euforia com o turismo não correrá o risco de ser igual à euforia com o betão num passado recente? Designadamente com as características do emprego que assegura e dos vícios que alimenta? 

Já se começam a ouvir e a identificar vários problemas com a massificação turística. Sobretudo nas grandes cidades portuguesas, que têm sido também as grandes beneficiárias. Não faltam exemplos. Cá e lá. Barcelona aí está a atestá-lo.

olharaocentro@sol.pt