Opiniao

Quem tramou Robles e o BE- Banhada de Esquerda?

 

1.Na edição de ontem do jornal “i”, concluímos que o Bloco de Esquerda já não é apenas o Balelas de Esquerda – já progrediu para uma verdadeira Banhada de Esquerda. O que há muito suspeitávamos, agora confirmou-se: o Banhada de Esquerda apregoa uma certa forma de viver e de encarar o mundo em público; pratica, em privada, exactamente o inverso do seu discurso. É um exemplo clássico daquilo que Lenine – e os seus seguidores, incluindo a imitação rasca personificada em Trotsky – apelidou de manipulação da opinião, desenvolvendo a tese respectiva.

No fundo, em termos brevíssimos, Lenine sugere que há que criar, no povo (mais ignorante, segundo a sua visão, que a elite vanguardista) a convicção de que todos os seus membros fazem parte de um colectivo, de um todo que é beneficiado pelo comunismo (pelo esquerdismo) e pelas políticas que implementa; isto para que a “elite privilegiada” (os camaradas de partido) possam tirar proveito próprio dos benefícios do poder e dos “prazeres da vida”.

2.Aliás, se pretendêssemos explorar a hipocrisia política e moral dos Banhadas de Esquerda, bastaria atentar no exemplo de Francisco Louçã: este ex-dirigente do Banhada escreveu um livro sobre “Os Burgueses”, evidenciando as características de vida, os hábitos e os vícios da classe social “pecaminosa”. Sucede, porém, que tais características, hábitos e vícios são praticamente todos comungados por Francisco Louçã na sua vida privada: socialmente, Louçã é mais burguês do que a maioria (até!) dos políticos portugueses de direita. E há tantos, mas tantos e tantos mais exemplos de hipocrisia no BE e no PS que se revela escusado estar aqui a evidenciá-los todos.

3. Dito isto, cumpre formular uma pergunta decisiva e que tem sido ignorada: quem é que tramou Ricardo Robles e o BE – Banhada de Esquerda?

Ou, numa outra formulação (ainda) mais directa, quem foi a fonte que estrategicamente colocou a notícia sobre a especulação pornográfica de Ricardo Robles, vereador do BE- Banhada de Esquerda em Lisboa?

Avançamos, desde já, que Catarina Martins sabe a resposta. Os dirigentes do BE – Banhada de Esquerda sabem a resposta. No entanto, optaram por fingir que desconhecem, que foi uma golpada da comunicação social, em notória promiscuidade com grupos da direita e da “alt-right” (já cá faltava!). Em detrimento de denunciarem a verdade e de a partilharem com os portugueses, o BE- Banhada de Esquerda preferiu criar uma efabulação. Por que será?

4.O leitor mais incauto dirá que o tema que hoje nos ocupa não passa de “pequena política”, de uma “questão lateral, secundária”. Nada de mais errado: saber quem foi a fonte da informação que tramou Robles e o Banhada de Esquerda explica muito sobre o presente e o futuro dos arranjos políticos que nos regem.

Avancemos então para a resposta: a fonte da notícia sobre a especulação gananciosa de Robles foi um dirigente destacado (e que alguns apontam mesmo como podendo vir a exercer funções cimeiras no médio prazo na estrutura do partido) do…PS. Isso mesmo: do PS. Não foi do PSD, não foi do CDS, não foi de Marcelo Rebelo de Sousa, não foi da “alt-right” (seja lá o que isso for!) – foi do PS. PS, o partido cujo Governo é apoiado pelo BE-Banhada de Esquerda no Parlamento!

5.Três razões justificam esta tropelia do PS ao Banhada de Esquerda.

Em primeiro lugar, tratou-se de um aviso de António Costa a Catarina Martins: se o BE atacar o PS ou dificultar a aprovação do  Orçamento de Estado para o próximo ano, criando instabilidade em período decisivo (porque pré-eleitoral), o PS reagirá em conformidade.

Que o BE não tente espicaçar os sectores da educação e da saúde para encetarem protestos contra o Governo, porque o PS sabe agora as manhas do BE (vulgo, os “podres”) e está disposto a utilizar tal informação cirurgicamente em seu proveito. É, sem dúvida, um ultimato de Costa aos Banhadas de Esquerda: Catarina, ou estás por nós socialistas; ou contra nós, socialistas.

Se estiveres por nós socialistas, estás protegida e podes continuar a somar “tachos”; se estás contra nós socialistas, o BE sofrerá – eis o modus operandi do Primeiro-Ministro (que tem perversidade a mais e carácter a menos) António Costa.

E mais notícias contra o BE surgirão, enquanto o BE não garantir que o próximo Orçamento de Estado será aprovado e que não fará oposição ao Governo nos próximos meses até às legislativas. Muito convenientemente, António Costa desapareceu por estes dias. É verdade que Costa ainda não foi para Palma de Maiorca – isso é só quando ocorre uma tragédia chocante, como a que sucedeu no Verão passado, com a morte de portugueses em virtude dos incêndios florestais -, mas ainda assim desapareceu. Muito convenientemente…

Acresce, ainda, que o aparecimento desta notícia é um aviso, indirecto, ao PCP e a Marcelo Rebelo de Sousa: não criem dificuldades a António Costa, senão…o arquivo de notícias para serem cirurgicamente utilizadas do Largo do Rato será utilizado sem pejo.

Em segundo lugar, trata-se de uma clara manifestação daquela que será a estratégia política do PS nos próximos meses: por um lado, manter-se-á o discurso oficial de alegada relação de confiança e vontade de renovação do acordo político com o BE – Banhada de Esquerda; por outro, o PS irá procurar desgastar ao máximo eleitoralmente o BE.

Porquê? Fácil: porque António Costa quer a maioria absoluta, julgando que a mesma será mais fácil atraindo os eleitores flutuantes do Banhada de Esquerda. Será esta uma jogada arriscada que colocará em risco António Costa, caso obtenha apenas uma maioria relativa em 2019?

Ora bem: aqui entra em cena o novo dado da vida política portuguesa – o PSD de Rui Rio. Rui Rio é a cartada perfeita para Costa tentar capitalizar politicamente à custa do BE, sabendo que terá sempre no horizonte a possibilidade do “Bloco Central” para se manter na cadeira do poder.

Rui Rio é, pois, a amante perfeita de Costa – neste momento, estão, utilizando uma expressão jurídica de outros tempos, em concubinato simples (ou seja, têm encontros políticos íntimos casuais, isolados).

António Costa quer, após o divórcio com Catarina Martins, ficar a viver com os seus camaradas socialistas sozinhos em casa, reeditando o primeiro Governo de José Sócrates – leia-se, governar com maioria absoluta; ou avançar na sua relação com Rui Rio, elevando a relação para um concubinato duradouro (uma relação íntima política permanente).

Reiteramos o que já escrevemos mais do que uma vez: parece que Rui Rio foi feito de encomenda para servir António Costa!

Em terceiro lugar, a notícia objectivamente beneficiou Fernando Medina – diz-se, nos “mentideiros” da política lisboeta, que a relação de Medina (e dos seus colaboradores socialistas) com Ricardo Robles era complicada. E que o BE estava a colocar dificuldades acrescidas ao poder absoluto socialista na Câmara e nas entidades municipais.

A notícia sobre Robles vai permitir que o PS controle um muito fragilizado BE, recuperando o domínio absoluta em Lisboa. Muito convenientemente também Fernando Medina se encontrava desaparecido, em férias…

6. Eis, pois, mais um episódio, digno de uma telenovela mexicana, da maior fraude política que se inventou em Portugal, que é a “geringonça”.

Já agora: alguém ouviu o Paulo Ralha – o Presidente do Sindicato dos Funcionários da Administração fiscal, que era constantemente chamado para intervir na RTP sobre a situação fiscal de Pedro Passos Coelho, o que lhe valeu uma candidatura à Assembleia da República pelo BE, Banhada de Esquerda – a comentar o caso Robles? E o saldo fiscal que lhe foi aplicado?

Para completar o ramalhete, estranhamos o não comentário do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa sobre este caso…Não nos digam que nenhum jornalista vai perguntar ao Presidente da República o que acha do caso Robles: porventura, será mais importante ouvir Marcelo divagar sobre as suas férias na Praia do Gigi…

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