Opiniao

O embuste de Tancos

Vamos a factos.

O presumível autor dos furtos de Tancos, quando se apercebeu da dimensão mediática do seu acto e receoso de que toda a publicidade em redor da sua proeza resultasse na sua mais que provável descoberta, decidiu manobrar para devolver o armamento de que se apropriara, recorrendo a conhecimentos junto de elementos da Guarda Nacional Republicana.

Colocou, então, como condição para a entrega do material de guerra que tinha em sua posse, que não viesse a ser responsabilizado criminalmente pela patifaria que cometera.

A Polícia Judiciária Militar, sendo prontamente alertada pela GNR das intenções do gatuno, logo engendrou um esquema que, por um lado, lhe atribuísse a si própria os louros pela recuperação do material e, por outro, afastasse a hipótese do autor dos furtos ser presente a juízo.

Para que esse plano resultasse tornou-se indispensável que a Polícia Judiciária ficasse fora desse filme, daí ter-se optado pela suposta descoberta do produto do furto através de uma chamada telefónica anónima.

Tratou-se, sem dúvida, de uma irrepreensível operação de contornos militares, mas o  responsável por a levar a cabo no terreno, consciente de que a trama pudesse vir ser do conhecimento público, precaveu-se, elaborando um documento em que descrevia os passos que tinham sido efectuados.

Esse documento entregou-o em mão ao chefe de gabinete do ministro da defesa, na presença do seu superior hierárquico, o director da PJM.

Há situações que são extremamente difíceis de escaparem ao controlo do domínio público e esta foi uma delas, culminando com os seus autores a serem expostos perante a justiça.

E agora vamos a suposições, mas, obviamente, das que ninguém acredita que sejam fantasiosas.

O chefe de gabinete do ministro não era nenhum jovem quadro do partido governamental, com uma carreira construída na base dos golpes traiçoeiros e da bajulação a quem lhe deu a mão, mas sim um respeitado oficial general de três estrelas, cuja vivência profissional se baseou sempre nos princípios da honra e da lealdade para com os superiores e os subordinados.

Alguém, no seu perfeito juízo, duvidará de que a primeira medida do chefe de gabinete, ao receber  aquele explosivo documento, não foi a de pôr o ministro ao corrente do sucedido?

Alguém poderá acreditar que este oficial general, no exercício de funções de suprema responsabilidade, limitou-se a colocar o documento na gaveta, mantendo o seu superior na ignorância?

Se alguma mente mais perturbada tem dúvidas a este respeito é porque desconhece, em absoluto, o que é a vida militar!

E quanto ao ministro é do conhecimento geral a sua inabilidade para as tarefas que lhe confiaram e a sua completa subordinação ao chefe de quem dependia, que, aliás, o defendeu até ao fim, fruto do escasso, para não dizer zero, poder político de que desfrutava junto dos restantes colegas de ofício.

Hesitante e receoso, características que o consumiam, que terá feito o ministro quando lhe despejaram em cima da secretária uma bomba prestes a explodir?

Alguém, de boa-fé, admitirá como plausível de que o primeiro-ministro não tenha sido logo informado da tramóia?

Costa, claro, o mestre na arte da dissimulação, o especialista em se mover entre os pingos da chuva, descartando para os seus peões de brega a responsabilidade directa pelos desaires e trafulhices e chamando apenas para si os louros das operações bem-sucedidas.

Na verdade não fomos confrontados apenas com uma guerra entre serviços com competência em matéria de investigação criminal, para se ver quem apareceria na fotografia, trincas que até são habituais entre as forças e serviços de segurança, mas sim, e sobretudo, com a tentativa de deixar impune um bandido que se atreveu a lesar o próprio Estado, através da Instituição Militar.

Por isso o grau de culpabilidade de Costa, ao dar o seu consentimento a toda esta fantochada, é bem mais gravoso do que aquele que tem sido exigido pela generalidade das vozes que se têm indignado com a completa ausência de ética ao mais alto nível da governação nacional.

Falta, somente, apurar o papel de Belém em toda esta encenação.

Neste caso, conhecedores que somos dos atributos de quem, para desgraça de uma Pátria ultrajada, habita em S. Bento, será de considerar como dúvida razoável de que a Marcelo tenham sido ocultados os pormenores que indiciam a prática de um crime por parte de quem, sem competência para o efeito, concedeu impunidade a um ladrão de armamento de guerra.

Mas uma vez desmascarada a farsa da recuperação do material furtado numa unidade do Exército,  Marcelo, que não é parvo nenhum, tem a obrigação de puxar pelo seu intelecto e daí retirar conclusões óbvias!

Que desça, pois, do pedestal onde lhe colocaram e se deixe de populismos baratos, e responsabilize, doa a quem doer, conforme se tem cansado de apregoar, os verdadeiros culpados por esta humilhação ao bom-nome de Portugal.

A hora não é de afectos, mas sim de agir enquanto Presidente da República e Comandante Supremo das Forças Armadas.

Talvez, assim, recupere algum do prestígio que tem desbaratado nos últimos tempos e nos faça a nós, a plebe desta mal-tratada Nação, confiar um pouco mais em quem nos representa!