Em nome da verdade

Defesa: nomeações boas e más

Já tive oportunidade de mencionar que, nos momentos críticos, como o que vivemos, é da maior relevância que exista uma forte capacidade de administrar, gerir e liderar. 

A escolha da Dr.ª Ana Pinto para secretária de Estado da Defesa está em linha com a opção adotada na escolha do respetivo ministro.

Já tive oportunidade de mencionar que, nos momentos críticos, como o que vivemos, é da maior relevância que exista uma forte capacidade de administrar, gerir e liderar. 

No entanto, as escolhas do Governo (aceites pelo Presidente da República) privilegiaram o perfil ‘académico e professoral’ das áreas das Relações Internacionais, Ciência Política e Geopolítica - que noutras circunstâncias podiam ser úteis, mas não nestas.

Com evidente inexperiência, desconhecendo inteiramente os problemas que se colocam às Forças Armadas Portuguesas (e não às dos países do Médio Oriente) e ao Ministério da Defesa, a ‘novel’ secretária de Estado não só está desfasada da realidade como está destinada a discorrer academicamente sempre que estiver perante militares - numa perspetiva muito querida ao primeiro-ministro, que é suprir os ‘défices formativos dos portugueses’.

A análise retrospetiva das nomeações para as ‘pastas’ políticas do Ministério da Defesa dos governos socialistas (de António Guterres a José Sócrates) permite-nos verificar a leviandade como encaram a Defesa Nacional, bem patente no número de ‘empossados’ mas sobretudo na decrescente qualidade dos escolhidos.

Regressemos ao Governo atual - o tal que sofre de ‘geringoncite’ - e às recentíssimas nomeações para a Defesa, pois, com duas personalidades de características muito próximas, não se augura nada de bom.

Estaremos atentos - cívica e democraticamente - ao seu desempenho.

Teremos como referências o Programa do Governo, as matérias da pasta de transição de Aguiar Branco para Azeredo Lopes, e o controle objetivo dos programas da ‘Defesa 2020’ entregues pela Comissão de Acompanhamento para a Reforma da Defesa Nacional (CARDN), aquando da sua extinção pelo atual Governo.

Quanto ao novo chefe do Estado-Maior do Exército (CEME), conheço razoavelmente bem o general Nunes da Fonseca, desde 1980, quando regressei à Academia Militar vindo da Escola Prática de Infantaria, em Mafra. 

Já então se destacava pelo conjunto de qualidades pessoais que viria amplamente a demonstrar ao longo da carreira, que segui com proximidade e atenção.

Homem calmo, ponderado, reflexivo, mas atento e preocupado com o ‘fazer bem’, cedo se tornou um referencial para os que o rodeavam, creditando-se como um ‘cadete’ a seguir pelos superiores.

Possui uma carreira diversificada, tendo ocupado cargos da maior responsabilidade onde o seu desempenho foi sempre excelente.

Pelo que representa e possui, o general Nunes da Fonseca constitui uma muito fundamentada esperança para a recolocação do Exército no patamar que dele é expectável e exigível.

Permito-me destacar ainda, como essencial, o modo como irá relacionar-se com o chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas (CEMGFA), bem como a compreensão do posicionamento do ramo perante os desafios do presente e do futuro.

Sem corporativismos doentios, exige-se aos atuais chefes militares a compreensão e a coragem necessária para construir o modelo de governance adequado, ponderadas as circunstâncias de Portugal em pleno século XXI.

Tenho fundadas expectativas de que assim será.

Deposito no general Nunes da Fonseca, como no almirante Silva Ribeiro (CEMGFA), a esperança de que tal virá a acontecer, para bem do Exército, das Forças Armadas e de Portugal.

A propósito das recentes comemorações do Dia do Exército (que ainda foram planeadas pelo seu antecessor), recordei um ‘velho’ mestre da Academia Militar que, quando um jovem professor se lançava na publicação de um compêndio, dizia: «Caro camarada, menos esforço na capa e mais no conteúdo».

Boa sorte meu general, pois dela bem precisa e… merece!

Neste momento de alta criticidade - e em Nome da Verdade - não posso deixar de lamentar que os decisores políticos ainda não sejam capazes de, objetiva e diretamente, assumir as suas responsabilidades.

É-lhes mais fácil criar - através dos habituais e conhecidos ‘escribas assalariados’, e mesmo alguns diretores de órgãos de comunicação social - factos que só existem nas mentes perturbadas destes ‘serventuários’, denegrindo falsamente eventuais candidatos a cargos que não querem nomear.

É tempo de acabar com estas ‘manigâncias’, que em nada dignificam quem as faz e quem as manda fazer, e são disruptivas para as instituições. Em democracia não é assim que se deve proceder.

No entanto, foi assim mais uma vez que aconteceu: agora com o tenente-general Campos Serafino, que de todo o não merecia, pelo que já dedicou com saber, dedicação, competência e disponibilidade à ‘causa pública’.

Foi cruel, injusto e desnecessário - pois até acabaram por decidir bem.

 

Nota - Em próximo número analisaremos a ‘impunidade’ e seu sentimento, pois urge atacar decidida e eficazmente esta chaga social a cujas consequências diariamente assistimos. 

 

*Major-General Reformado