Política a Sério

Três visões do mundo

Macron, Merkel, Guterres, Trump e Putin não poderiam participar conjuntamente naquele fórum, pois protagonizam visões radicalmente diferentes do mundo e do exercício do poder.

O Fórum Mundial da Paz em Paris, para comemoração do Armistício que selou o fim da I Grande Guerra, foi aberto por Macron, Merkel e Guterres, caminhando lado a lado.

Entretanto, noutro ponto de Paris, no pequeno cemitério de  Suresnes, Donald Trump homenageava os soldados americanos mortos na guerra de 1914-18.

E num terceiro local, junto ao Sena, Vladimir Putin depositava flores no monumento dedicado à Força Expedicionária Russa.

Este quadro retrata na perfeição o mundo atual.

Macron, Merkel, Guterres, Trump e Putin não poderiam participar conjuntamente naquele fórum, pois protagonizam visões radicalmente diferentes do mundo e do exercício do poder.

Macron, Merkel e Guterres representam a visão ‘politicamente correta’.

Que tem hoje duas grandes vertentes: as ‘causas fraturantes’ e o ‘problema dos migrantes’.

Nas questões fraturantes, Macron, Merkel e Guterres são permissivos: apoiam a despenalização das drogas leves e do aborto, o casamento gay, as quotas para mulheres, as mudanças de sexo, etc.

E na questão dos migrantes, defendem uma política de portas abertas.

Putin está quase no outro extremo.

Formalmente, a Rússia é uma democracia, mas na prática funciona como uma autocracia ou uma ditadura disfarçada.

Putin conseguiu perpetuar-se no poder através do ‘truque’ de trocar de posição com Medvedev: uma vez é ele Presidente da República e Medvedev primeiro-ministro, depois é ele primeiro-ministro e Medvedev Presidente da República. Mas é sempre o mesmo quem manda.

Além disso, Putin promove o ‘desaparecimento’ de jornalistas e a eliminação de cidadãos russos no estrangeiro que se tornaram personas non gratas.

Nas causas fraturantes, é absolutamente intransigente: considera-as uma degenerescência e persegue-as ativamente.

A Rússia continua, assim, a ser governada num regime de força: primeiro foi o czarismo, depois o comunismo, agora é o putinismo.

A questão que se põe, perante esta realidade, é se a Rússia será governável de outro modo.

Se um país daquela dimensão e diversidade de povos e culturas não exigirá sempre um poder forte, capaz de exercer a autoridade em áreas muito afastadas do centro.

Finalmente vem Donald Trump.

Que representa um modelo de exercício do poder diferente ainda dos outros dois.

Não se coloca a questão da democracia, pois a América é talvez o país mais democrático do mundo.

As instituições funcionam plenamente.

Ao contrário da Rússia, que é opaca, a América é transparente.

Mas Trump tem opções muito diferentes das de Macron, Merkel ou Guterres: é claramente contra o politicamente correto e desfavorável relativamente à globalização.

É contra o aborto, a despenalização das drogas, etc., e contra o internacionalismo, dizendo constantemente: «America First».

Na questão dos migrantes, é radicalmente contra a sua entrada indiscriminada nos EUA.

No fundo, tal como Putin, Trump também defende uma política musculada – mas, ao contrário de Putin, não põe em causa os mecanismos da democracia.

Expulsa jornalistas da Casa Branca mas não os faz desaparecer…

Estas três formas de agir e visões do mundo têm méritos e fraquezas.

Putin tem a seu favor a autoridade, a capacidade de manter a ordem – mas tem contra ele o desprezo pela democracia e pela própria vida humana.

Trump tem a seu favor o combate a uma certa degenerescência dos costumes e uma atitude pragmática relativamente aos migrantes – mas tem contra ele um comportamento por vezes errático e uma grande instabilidade que transmite à Administração.

Macron, Merkel e Guterres têm a seu favor o respeito escrupuloso pela democracia e um indiscutível humanismo – mas têm contra eles uma tolerância excessiva relativamente a certos comportamentos destrutivos e uma atitude demasiado complacente em relação aos migrantes.

Putin impressiona pela autoridade mas assusta pela frieza; Trump incomoda pela imprevisibilidade mas impõe-se pela coragem de enfrentar o status quo; Macron, Merkel e Guterres tornam-se simpáticos pelo humanismo mas perigosos pela permissividade.

Pondo de lado Putin, que é um mistério inquietante, julgo que os líderes europeus, em vez de diabolizarem Donald Trump, fariam melhor em tentar perceber as razões do seu sucesso.

Ele tem posições sobre os costumes e sobre o patriotismo que vão ao encontro do que muitas pessoas sentem e pensam, dentro e fora da América, embora por vezes não tenham coragem para o dizer.

Várias nações europeias, escancarando as portas a mudanças radicais no campo dos costumes – que contrariam valores velhos de séculos –, e admitindo a entrada indiscriminada de cidadãos de outras paragens e culturas, estão a transformar a Europa num campo de batalha.

Os populismos de extrema-direita, de que tanta gente fala, não têm surgido por acaso: são a resposta à permissividade dos partidos centrais e às agendas radicais da extrema-esquerda.