Opiniao

Casamentos à la carte e mortes na pedreira

E se o autocarro escolar tivesse caído na pedreira de Borba com 50 crianças a bordo? Estaria tudo como está?

 

A televisão é cada vez mais o espelho da sociedade e não há nada a fazer. Se antigamente as pessoas viam na televisão aquilo que gostariam de ser, hoje, no pequeno ecrã, vê-se aquilo que as pessoas são. Por isso, existem programas que retratam na perfeição o mundo atual. Alguém quer casar e não consegue encontrar a cara metade? É simples, vai-se à televisão que eles vendem uma cara metade. Não se consegue encontrar alguém para fazer uma aula de ginástica na cama? Não tem problema: a televisão arranja. Em nome das audiências faz-se tudo, até porque existe um público ávido de encontrar outras pessoas que passem pelos mesmos problemas. E aqui reside uma das grandes diferenças para o passado: supostamente, na televisão vendiam-se sonhos, agora vendem-se realidades.

E é neste cenário miserabilista que o país vive. Em 2001, na ponte de Entre-os-Rios morreram 59 pessoas quando a estrada ruiu. O ministro das Obras Públicas de então, Jorge Coelho, demitiu-se do cargo por achar que não tinha condições para se manter no Governo. Dezassete anos depois, um troço de uma estrada em forma de gincana que se sustentava entre enormes buracos de duas pedreiras deu de si e consigo levou para a morte pelo menos cinco pessoas, ao que se supõe. Mesmo para qualquer leigo, era evidente que a tragédia estava anunciada. O pouco mármore que não tinha sido retirado entre as duas explorações era aquele que sustentava a estrada, sendo mais do que previsível que esse mesmo mármore acabaria por ceder. Qualquer busca na wikipédia explica a vulnerabilidade do mármore, que sujeito a temperaturas díspares e com a água da chuva estala facilmente. Daí que no Alentejo tenha de se perfurar tanto terreno para ir encontrar mármore que esteja em condições. Aquele que se vê nas fotos da pedreira de Borba, por exemplo, ao longo da perfuração ficou danificado pelas condições climatéricas.

Mas como vivemos num país onde as tragédias acontecem ao vivo, sejam elas morais ou físicas, tudo já é natural. Surgiram relatórios que revelam que as autoridades competentes já tinham sido alertadas há vários anos para o perigo daquela estrada. Morreram pessoas e ninguém vai poder devolver-lhes a vida, mas podem evitar-se outras tragédias se existir uma cultura da responsabilização. Se as pessoas não são competentes para desempenharem as funções para as quais foram eleitas, então têm de se sujeitar às consequências. Nesta edição, falamos de uma pedreira que há 20 anos decidiu comprar uma estrada à câmara para a destruir e poder prosseguir a exploração da pedra. Um bom exemplo que devia de ser seguido.

Mas quantas outras estradas não estão nas condições daquela que ruiu e só por acaso não levou para a morte as crianças que todos os dias passavam ali na camioneta da escola? Olhando para a região percebe-se facilmente que há muitas outras.

Não gosto de apontar o dedo a ninguém, mas é óbvio que o caso é grave demais para se deixar passar com o fim dos diretos televisivos. Amanhã acontecerá outra tragédia e a de Borba será esquecida em nome das audiências, atendendo a que é a isso que os governantes, sejam centrais ou locais, dão importância. E quando as tragédias acontecem longe da capital ou do Porto mais facilmente se apagam as luzes. Viver no país real tem de deixar de ser uma fatalidade.