Opiniao

Manifestações normais

“Não devemos dramatizar aquilo que são manifestações normais de países democráticos”

Ao ouvir estas palavras de Costa, proferidas  no passado fim-de-semana, senti um arrepio e vi-me na contingência de confirmar se não se tratara de um problema meu, de audição, ou se o homem tinha mesmo dito aquilo.

Felizmente, para mim, cheguei à conclusão de que não sofro de nenhuma doença que me afecte a capacidade de ouvir com clareza o que os outros dizem, mas infelizmente, para todos nós, portugueses, porque somos governados por aquela criatura, não restam dúvidas de que foram essas as exactas palavras que lhe vieram à cabeça.

As manifestações normais a que Costa se referia foram, imagine-se, os saques, pilhagens, destruição de bens e agressões a agentes de autoridade que ocorreram em Paris e noutras cidades gaulesas, provocados por desordeiros que se substituíram a manifestantes que protestavam contra os constantes roubos de que são vítimas por parte do Estado.

Paris esteve a ferro e fogo, durante dias, e tudo indica que assim vai continuar, com ataques planeados e coordenados contra o património público, em particular monumentos que fazem parte da herança cultural dos franceses.

Nessa onda de vandalismo não escaparam os bens privados dos cidadãos parisienses, com especial incidência em lojas comerciais e viaturas, com prejuízos consideráveis para quem se limita a ganhar a vida honestamente.

Os polícias, a quem está atribuída a responsabilidade de garantir a ordem pública e a segurança de pessoas e bens, foram igualmente, durante o cumprimento do dever, vítimas da ânsia destruidora de hordas para quem a paz social não passa de letra morta.

A todos estes lamentáveis incidentes, que indiciam a prática de actos terroristas, considera Costa como se tratando de situações normais nos regimes que vigoram no mundo ocidental e que não devem ser dramatizadas.

No fundo o que Costa deixou expresso, sem se atrever a o afirmar explicitamente, é que este é o preço a pagar pelos povos que desfrutam do prazer de viver numa democracia, cuja imagem de marca é a alternância de poder entre os partidos do sistema.

Para o nosso chefe do governo, e certamente também para os seus homólogos a quem os respectivos partidos catapultaram para o dever da governação, não existe alternativa: a democracia ou a segurança.

Não nos podemos dar ao luxo de exigir as duas!

Se queremos ter a liberdade de escolher quem nos represente nos mais altos cargos da hierarquia estatal, teremos também de nos conformar com a fatalidade da mais do que provável pilhagem dos nossos bens e daqueles que as gerações anteriores à nossa souberam preservar ao longo dos séculos, classificando-os como património de todos.

A nós, portugueses, restam-nos, no entanto, duas opções, caso consideremos de inquestionável obrigação de que o Estado seja eficaz no garante da nossa segurança física e dos nossos pertences.

A primeira é a de que, à semelhança do que ultimamente temos assistido em algumas partidocracias frágeis como a nossa, tenhamos a coragem, a destreza e a sapiência de correr com os políticos mafiosos que somente se têm governado a si próprios e empurrado o bem comum para as calendas.

Trata-se dos políticos que têm sido forjados nos partidos que exercem o monopólio da governação das sociedades outrora as mais avançadas da civilização, a quem os valores da honra, da ética e da honestidade são tábula rasa.

Os políticos que distribuem benesses pelos amigos, oferecendo-lhes lugares na administração pública, para os quais estes provam uma absoluta incompetência para a tomada de decisões que mexem com a vida das pessoas.

Os políticos que são obrigados à adopção de contrapartidas para a satisfação de promessas a quem lhes financiou as campanhas eleitorais, hipotecando o erário em obras públicas inúteis e altamente ruinosas para a economia do país, cujos custos serão suportados pelas gerações vindouras.

Os políticos que para alimentar a gigantesca e dispendiosa máquina em que transformaram o Estado, secam os contribuintes com violentos impostos, sacando-lhes quase metade dos dividendos obtidos através do seu trabalho destinado a proporcionar o indispensável bem-estar das suas famílias.

Numa simples frase, os políticos que se enriquecem ao mesmo tempo que empobrecem os seus semelhantes.

A segunda opção é precisamente aquela a que a nossa apatia nos tem levado: não fazer absolutamente nada!

Permitir que estes políticos de terceira categoria continuem a desbaratar as poucas riquezas nacionais de que ainda dispomos, mantendo-os, com total inimputabilidade, nos poleiros de que se apropriaram.

E, sobretudo, nada de seguir o exemplo dos franceses, que se insurgiram contra as mãos que insistem em entrar nos seus bolsos, conseguindo, para já, uma primeira vitória, com o retrocesso governamental em relação ao aumento dos preços dos combustíveis.

Há, sim, que continuar a consumir e deliciarmo-nos com a imprensa que abre as primeiras páginas, dias a findo, com as aventuras e desventuras de um tal Bruno de Carvalho, focando-nos nessas historietas e abstraindo-nos da realidade que consiste na pesada caminhada em direção ao abismo para o qual, cegamente, somos conduzidos.

Se insistirmos em dar voz à nossa indignação, então concentremo-nos na revolta generalizada contra o facto de uns pobres recrutas de tropas de elite sofrerem uns abanões durante a formação a que voluntariamente se submeteram e não arredemos pé enquanto a justiça não acabar com as toupeiras que inundam o nosso futebol.

Se quisermos confrontar quem nos governa com um xeque não letal, mantenham-se então as greves e manifestações sectoriais, em que cada classe laborar se preocupa apenas com os seus interesses particulares e cujas consequências não beliscam em nada os alvos que supostamente visam, resultando, sim e somente, num prejuízo para a qualidade de vida de todos os outros a quem essa luta não diz respeito.

Nada de nos revoltarmos por uma causa a todos comum.

Saibamos, assim, preservar os vários Costas que se têm sucedido na desgovernação desta Nação!