Cultura

Espaço para ler, brincar, sonhar

É uma das raras livrarias de bairro que vão resistindo à ofensiva das grandes cadeias livreiras e dos hipermercados. Aberta desde 1964, a livraria e papelaria Espaço, em Algés, está cheia de história, de sonhos e de brincadeiras para contar.

Quem cruza a porta estreita de vidro junto à montra e se depara com as estantes apinhadas de bonecos de peluche, jogos, brindes, mochilas, cadernos escolares e canetas só dificilmente poderá presumir que por aqui já passaram escritores como José Cardoso Pires, Alves Redol, João Gaspar Simões ou o espanhol Jorge Semprún. «O Mário Dionísio e o José Cardoso Pires quando aqui vinham sentiam uma alegria enorme, eram umas conversas entusiásticas», recorda Armando Ferreira Rodrigues, fundador da Livraria Espaço, em Algés. O nome da livraria, explica-nos, tem qualquer coisa de utopia: significa ‘espaço para sonhar’. «O pilar principal foi sempre o cultural, os inúmeros acontecimentos que aqui fazíamos eram sempre com intenção cultural - e vinham cá pessoas do melhor que havia na altura».

Atrás do balcão, Elsa, uma das quatro filhas do fundador, gere a área de papelaria e dá as boas-vindas aos clientes. Nem todos se ficam por ali. Ao canto da loja, uma escada discreta conduz a uma espécie de porão - a zona da livraria. O espaço é contido e não recebe luz natural, mas as capas das obras abrem portas para outros mundos. E depois há uma grande seleção de livros infantis que emprestam uma animação e um colorido próprios ao ambiente.

«Não temos tudo, nem queremos ter tudo», resume Liliana Cordeiro, a irmã que negoceia com as editoras e distribuidoras o que entra e o que fica de fora. «Preferimos selecionar muito bem aquilo que entra na loja. Por exemplo, gostamos muito da área infantil e juvenil e aí tentamos pedir aquilo que achamos que é bom, não só o que vende. Deixamos os livros muito comerciais para a massificação, como costumo dizer». 

Esta escolha é feita segundo uma equação que tem em conta a saída dos livros, a intuição das proprietárias e as reações que vão obtendo de outras pessoas. Para poderem aconselhar os clientes, Liliana e a sua irmã Marisa, que atende na livraria, também fazem o trabalho de casa e leem os livros para perceberem o que pode interessar aos seus fregueses. «As pessoas dizem-nos muito que vão a outras livrarias e quem as atende não sabe nada, só sabe ir ao computador. É preciso conhecer quem temos à frente, o que a pessoa quer. Muitos clientes pedem-nos: ‘Ajude-me a escolher um livro’. Para crianças, é o pão nosso de cada dia», confidencia. «A gente tenta ir ao encontro da idade da criança, saber se está ou não habituada a que lhe contem histórias, se precisa de uma coisa mais ou menos criativa, para lhe dar espaço à imaginação», explica Marisa.

Mas os próprios adultos também pedem conselhos. Liliana dá um exemplo: «Há quem diga: ‘Agora apetecia-me uma coisa para me distrair’. É aquela coisa da biblioterapia, porque há livros para todos os temas e todas as áreas, e às vezes em vez de irmos à farmácia vamos à livraria. E se calhar tem um efeito melhor», conclui.

 

‘Se é um supermercado, não vai funcionar’

Até aqui a estratégia tem resultado. Enquanto por todo o país se vai assistindo à decadência e encerramento de antigas livrarias de bairro e até mesmo de algumas históricas, a Espaço continua a resistir obstinadamente. «A livraria tem de ser um local de convívio, de conversas. Se é um mero supermercado, não vai funcionar - as pessoas vão ao supermercado em vez de irem à livraria», continua Liliana. «Ainda agora me apareceu uma pessoa que não sabia escrever», confidencia-nos Marisa. «Comprou um postal e dois livros e pediu-me para lhe escrever o postal. Perguntei-lhe o que queria dizer e escrevi».

A proximidade é fundamental. Helena Abreu, jornalista e cliente da livraria há décadas - viveu em Inglaterra, Itália e Espanha, mas regressa sempre a Algés -, entra na conversa: «Lembro-me de que nos anos 80 eu tinha a mania dos romances policiais da Vampiro, mas nunca conseguia decorar os nomes dos autores. Às vezes comprava um livro na Baixa ou no Cais do Sodré e chegava a casa e via que já o tinha. Então vinha aqui e pedia: ‘Marisa, troca-me o livro que eu já tenho este’». Marisa confirma com um sorriso: «Facilita-se...».

Ao mesmo tempo, a Espaço proporciona uma agenda regular de atividades para manter a loja com vitalidade. Em 2017 funcionou um clube de tricô, só com senhoras - «Ainda não apareceu nenhum tricoteiro», graceja Liliana. Depois, há o clube de leitura, coordenado por Helena Abreu: «Queria fazer como em Inglaterra, com chá e scones», mas não foi possível. Ao longo de 2018 funcionou com um convidado que cada mês escolhia um livro e o debatia com os leitores. «Como fui mantendo um nível elevado (tento manter-me naquele nível do cânone ocidental do Harold Bloom)», continua a coordenadora, «criou-se um grupo uniforme, muita gente licenciada em românicas, em germânicas, em filosofia. E a discussão é sempre bastante rica».

 

Jogar às escondidas no meio dos livros

Aos sábados, para os mais novos, realiza-se às 11h30 a Hora do Conto, «com contadoras diferentes e com dinâmicas e criatividades diferentes», refere Liliana. Todos ficam satisfeitos - «os miúdos, nós e os pais». Mesmo quando as crianças usam a livraria de uma forma inesperada. Quando o livro escolhido foi Escondidas, a contadora «fez umas cabanas com materiais da floresta, paus, canas, folhas, e no fim estiveram todos a jogar às escondidas, aqui atrás do balcão, ali debaixo e atrás do móvel. Os clientes riam-se e os miúdos andavam por aí fora a correr de um lado para o outro. Eu adorei», garante Liliana.

Ao contrário do que se possa pensar, esse tipo de ambiente não anda muito distante das origens da própria livraria. «Quando isto abriu, os miúdos que havia aqui em Algés sentavam-se no chão, tiravam livros, liam e voltavam a pô-los no lugar», recorda Armando Ferreira Rodrigues. Já lá vão mais de 54 anos.

 

Desporto e cidadania de mãos dadas

A Espaço inaugurou no dia 6 de junho de 1964. «O Alves Redol e o Mário Castrim vieram cá», diz o fundador. A ideia de abrir uma livraria surgiu «em conversas em casa do Rogério Paulo», ator e encenador que também desenvolveu atividades políticas. Armando Rodrigues e o seu amigo Armando Caldas, um dos fundadores do Teatro Moderno de Lisboa e hoje diretor do grupo de teatro Intervalo, questionaram-se «se não seria útil despertar nos cidadãos o desejo de ler...».

E foram para a frente com o projeto. «A livraria Espaço, humildemente falando, foi uma espécie de pequeno levantamento cultural em Algés. Não havia nada», refere Armando Rodrigues, que depois acabou por comprar a quota do seu sócio e «querido amigo». Algés era então frequentada sobretudo pelos seus cafés, a Tamar, o Catavento, o Ribamar e o Caravela, onde os estudantes passavam a tarde à conversa, a namoriscar ou a jogar bilhar nas caves.

E depois havia o Sport Algés e Dafundo, que tinha nas traseiras uma biblioteca bem recheada. Essa biblioteca «influenciou centenas de jovens atletas a tomarem a consciência da cidadania pela leitura». Armando Rodrigues foi um deles: «O primeiro livro que levei para ler foi A Cabana do Pai Tomás», o clássico de Harriet Beecher Stowe sobre as injustiças da escravatura.

 

O fascínio dos Cruzeiros

Hoje com 89 anos, o fundador da Espaço e pai de quatro filhas conta-nos a sua história de vida.

«Nasci em meio rural, numa quinta na Beira Baixa, e sou de origem bastante humilde. A minha mãe era camponesa e o meu pai operário da Carris. Tive a sorte de, com seis ou sete anos de idade, vir para Algés com os pais e irmã e filiei-me no Sport Algés e Dafundo. Fui atleta, especializei-me em saltos artísticos para a água. Foi uma época em que os hotéis de luxo - o Luso, o Buçaco, a Curia, por aí fora - começaram a fazer piscinas e, com os meus colegas da natação, do polo aquático, do ballet e os outros saltadores éramos convidados para ir lá fazer exibições».

Quando chegou a altura de trabalhar a sério, entrou para a Carris, onde tirou um curso de mecanografia «no velho sistema do cartão perfurado na IBM». «Trabalhei 12 ou 13 anos na Carris, mas o meu sonho não era ser um manga de alpaca.

Quando era miúdo costumava ir para a Doca de Alcântara, ver os grandes navios de cruzeiro. Nunca me esquecerei do Caronia. Quando acabou a II Guerra Mundial os milionários judeus americanos fretaram o navio e fizeram a volta ao mundo. Eu entrei no Caronia - aquilo foi um fascínio para mim, a orquestra, as senhoras vestidas como deve ser, os homens de smoking. E pensei: ‘Tenho de trabalhar em cruzeiros’».

E assim foi. Já casado, começou a trabalhar como bibliotecário em navios de cruzeiro. «Cruzei os cinco continentes, aprendi muito. O navio de cruzeiros tem tudo - desde a prisão até à morgue».

Quanto à sua função de bibliotecário, descreve-a como «curiosa». «Estava sentadinho numa cadeira e vinham pessoas das cabines e dos vários decks pedir-me conselhos. Geralmente levavam policiais - sobretudo da Agatha Christie -, mas os mais intelectuais iam até ao Kafka. No fim eu telefonava para a cabine das pessoas para virem devolver os livros».

Embora os tripulantes estivessem proibidos de se misturar com os passageiros, Armando tentava tirar proveito da vida a bordo. «Não podia, mas arrisquei. Não podia ir aos bailes, à cabine das senhoras, mas eu, aproveitando as abertas... Os marinheiros eram todos meus amigos e a minha cabine estava sempre disposta a albergar os amorosos».

E os seus colegas da tripulação pediam-lhe livros? Nem por isso. Armando recorda um episódio a esse propósito. «Uma vez houve cinema para os tripulantes. Era um filme do Ingmar Bergman, Morangos Silvestres. A sala estava cheia de marinheiros. Mas quando começaram a ver o filme, primeiro sai um, depois sai outro, depois outro. Quando chegou ao fim quem estava no cinema era só eu e uma enfermeira brasileira. Mais ninguém. Porque os filmes que eles queriam eram aqueles» - simula que está a dar socos - «bum, bum, bum».

Os interesses dos seus colegas eram outros. «A bordo gira muito a intriga, a inveja, a pequena vingança, não há solidariedade e depois os homens do mar têm uma conceção diferente de nós. Como o navio passava em zonas com casinos - no Panamá, no México, etc. - havia indivíduos que ganhavam fortunas e chegavam ao fim de 20 ou 30 anos de trabalho endividados até à medula. Os filmes pornográficos e o jogo eram os escapes deles, porque a vida a bordo é dura».

 

Doação com amor

Nos anos em que Armando andou embarcado, era a sua mulher, Maria Odila Cordeiro Rodrigues, quem tomava conta das filhas e da livraria. «Fui um pai um bocado ausente, porque tinha de ganhar dinheiro», reconhece o patriarca. Um dia Marisa ligou-lhe com uma má notícia. «‘A mãe está muito doente, acho que é melhor o pai vir’. Então desorientei-me um bocado, fiz para lá um disparate e fui despedido. A minha mulher faltou-nos muito cedo, morreu com 41 anos». Armando recorda-a como «uma pessoa carismática, de fortes convicções, que conseguiu humanizar a troca mercantil».

A passagem do testemunho foi-se fazendo «naturalmente»: à medida que as filhas iam terminando o 12.º ano, começavam a trabalhar na livraria. «Primeiro a Marisa, depois a Elsa». Hoje só uma delas tem outra ocupação - curiosamente trabalha em cruzeiros. «Elas escolheram ficar com a livraria. Eu fiz-lhes uma doação, não quis dinheiro nem rendimento, e elas agarraram-se a isto com amor».

O resultado está à vista: ao fim de 54 anos, a Espaço continua de portas abertas a receber gerações de leitores, dos avós aos netos. Pode não ter espaço para todos os livros, ainda assim poderia gabar-se, como Fernando Pessoa: «À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo».