Sociedade

Constantino Sakellarides: ‘Não se pode governar com este primitivismo. Nem uma mercearia se consegue gerir assim’

Demitiu-se há oito meses das funções de consultor do ministro da Saúde, quando estava responsável por um projeto de reforma do SNS para resolver problemas como o congestionamento das urgências. Lamenta que o projeto esteja ‘moribundo’ e deixa um aviso: ‘Se o SNS não se transforma, vai ser inverno todo o ano nos serviços de urgência’.

Costuma dizer que é preciso manter o ouvido no chão. Que relatos lhe chegam sobre o estado do SNS?

O terreno diz duas coisas aparentemente contraditórias. Por um lado, o SNS está aberto todos os dias, a todas as horas. Todos os dias acontecem coisas magníficas no SNS. Depois há o ruído, o que não funciona. Sobrepõe-se à bondade das coisas. Quando digo para pormos o ouvido no chão é para ouvir tudo e não para gerir o que queremos ouvir como se faz com aqueles aparelhos auditivos. O ruído é fortíssimo.

É preocupante?

Sim. Mas esse ruído, ao mesmo tempo, distrai de coisas que deviam acontecer e desanima. Só ouvir falar dos problemas faz mal à imagem do SNS. Esse desequilíbrio é próprio do espaço mediático, mas temos de fazer um esforço para ler as coisas no geral. E, no cômputo geral, há muito mais coisas boas do que más. Dito isto, a principal preocupação são os sinais consistentes de degradação.

Esta semana foi conhecido um manifesto de diretores clínicos de hospitais de Lisboa que dizem que o dia-a-dia se tornou a gestão de crises por falta de meios e receiam pela segurança. É um sinal?

Sim. Mas diz-nos outra coisa: o pior que devemos criticar aos sistemas políticos é a sua incapacidade de prever o previsível. Na primeira metade desta década houve um grande desinvestimento nos serviços públicos. Foi assim vários anos e teve um efeito cumulativo. Era altamente previsível que, na segunda metade da década, os sinais de degradação seriam alarmantes.

Houve negligência?

Prefiro falar de falta de capacidade de prever o que era óbvio. Uma segunda parte previsível está descrita em todo o lado: quando as coisas começam a melhorar, as pessoas que estavam na anemia da crise começam a perguntar-se «quando é que eu beneficio do sol?». Se isto tudo é previsível, o sistema político tem de ter energia suficiente para estabelecer plataformas consensuais e claras sobre como distribuir os benefícios de uma forma justa por todos. A falta de capacidade de prever e acautelar tudo isto faz com que hoje a situação na Saúde seja pôr paninhos quentes quando precisávamos de uma estratégia de desenvolvimento do SNS.

Para substituir equipamentos obsoletos são necessários mil milhões de euros. Isto é recuperável em tempo útil?

É para responder a isso que tem de haver um plano de estratégico, para se saber em quanto tempo e com que prioridade é recuperável. A ministra Marta Temido entra num período terrível, acha que tem capacidade de deixar de lado as pressões hora a hora que tem para fazer um plano estratégico? Isto faz-se antes de os Governos entrarem. O que devia acontecer agora era cada partido com ambição de Governo preparar o seu plano estratégico – não é possível fazer isto com o jogo a decorrer. Para fazer o plano é preciso, antes de tudo, reconhecer os problemas. Qual é o principal? A população portuguesa é das mais envelhecidas da Europa e esse envelhecimento não é de boa qualidade.

Somos os europeus que envelhecem pior.

Num país como a Suécia, um país rico, dois terços da esperança de vida depois dos 65 anos é com saúde. Nós não chegamos a um terço. Um país com grande capacidade económica tem um peso de doença a que têm de responder muito mais baixo do que nós que não temos aquela capacidade económica. Os portugueses, além disso, têm uma carga de mortalidade por doenças respiratórias muito grande, uma prevalência de diabetes que é a mais elevada da Europa. Têm uma saúde mental com indicadores preocupantes, principalmente a depressão crónica nas mulheres de idade mais avançada. Para não falar do isolamento social e nos processos de afeto e violência.

Isso não tem a ver precisamente com sermos um país onde a maioria das famílias tem poucos recursos?

Tem também a ver com um percurso de vida ativa deficiente, no sentido de físico, intelectual e emocional, e com a falta de resposta a isso. Veja-se o isolamento afetivo: há uma investigação em Harvard que diz, há muito tempo, que o isolamento contribui para a saúde como fumar 15 cigarros por dia. A resposta que se espera dos cuidados de saúde a este panorama pesado é que se olhe para isto de forma integrada, não é ver uma doença crónica ali e outra ali. E isto não pode ser respondido por um serviço desintegrado como o que temos, com hospitais para um lado, cuidados primários para outro e Segurança Social para outro. É preciso gerir o percurso das pessoas para garantir uma resposta adequada. E isto leva-nos a um outro problema: mesmo se começarmos a recuperar recursos no SNS, estamos a pô-los em sítios onde não vão resolver este problema. Estamos a pô-los num sistema disfuncional.

O projeto que liderou no início da legislatura, SNS+Proximidade, visava essa integração. O problema está reconhecido, ou não? Que é feito desse projeto? 

Não basta dizer que reconhecemos um problema, depois é preciso haver uma reação, apoio político... O problema é muito este: a doença cardíaca, a doença renal, etc., têm cada uma a sua base de apoio.

A integração não tem. Quem é que vem ter consigo a pressionar: ‘O que falta é a integração!’ Ninguém. Tem de haver um discurso político que faça os diferentes atores convergirem numa direção. Quando não existe base de apoio e os atores no terreno estão preocupados com os paninhos quentes que têm de pôr nos buracos que existem, não vão gastar energia suplementar numa coisa que nem aparece no discurso político.

Na altura falava-se de 35 milhões de euros para financiar projetos de integração.

Não apareceu esse dinheiro ainda.

Não houve financiamento?

Que eu saiba, não... mas isso é um pormenor. O que digo é que a mudança passa por uma posição política consistente e não passarmos o ano a discutir a ala pediátrica do S. João.

Não é preocupante as crianças estarem há anos em contentores?

Com certeza, mas isso deve ser resolvido pelo hospital e pela Administração Regional de Saúde do Norte, que devem ter autonomia para tal. O S. João é o exemplo mais chamativo, mas carências desse tipo no SNS há muitas: equipamento que já foi à vida, infraestruturas debilitadas, pessoas que foram embora. É impossível governar esperando que sejam os ministros da Saúde e das Finanças a resolver esses problemas.

Mas é o Governo que centraliza em si todas as decisões.

O modelo de governação é o mesmo que tínhamos há 40 anos e não serve. O nível político tem de dizer para onde vamos e criar condições. A gestão no terreno tem de ser autónoma, descentralizada e responsabilizada. Mas, mais uma vez, isto não se muda agora durante o jogo. Para o S. João há várias soluções possíveis, mas o caso nunca devia ter de chegar a um gabinete de um ministro. A ARS devia poder saber que recursos tem, definir as suas prioridades. Isto acaba por dar uma impressão de que pode haver situações em que, por haver umas pessoas mais importantes ou com mais influência, que consigam que os seus problemas cheguem à comunicação social, vai-se buscar dinheiro de um lado para pôr noutro à pressa.

Tem estado a acontecer?

É um círculo vicioso. Sem um plano estratégico e havendo poucos recursos, torna-se pouco racional. Pedem-se recursos, não são autorizados – que é outra forma de cativações – ninguém consegue gerir nada e chega-se a estes casos extremos. Como é que se consegue gerir alguma coisa e definir prioridades quando não há previsibilidade do que se pode gastar? Não há outro remédio se não ir sobrevivendo e tapando buracos.

E o responsável final é?

Não é um ministro, nem a ARS nem o hospital. A culpa é de um partido chegar a Governo sem um plano estratégico. Preparam programas de Governo que são primitivíssimos, para ser simpático. É uma lista vertical de medidas. Simplesmente aquilo que se enumera não se pode implementar assim, e é para isso que é preciso uma estratégia, para se dizer como se vai fazer e quanto vai custar. A conceção estratégica devia estar subjacente a qualquer programa de Governo e não está. E depois dizem: «Já cumprimos 90% das medidas do programa do governo». E não aconteceu nada, não têm profundidade, não há articulação.

Isso seria um trabalho de preparação gigante.

Mas o desafio é gigante. Não se pode governar o mais sensível e complexo sistema social de um país com este primitivismo. Nem uma mercearia se consegue gerir desta forma. Nas coisas mais básicas: o bem mais precioso do SNS são as pessoas que lá trabalham. Vão-se embora e não há uma tentativa de os reter? Saem quatro ou cinco e ninguém se senta para dizer «não pode sair mais ninguém»?. Não são substituídos. O SNS não tem nenhuma estratégia, nem visível nem invisível, sobre como reter os seus profissionais.

Porque implicaria mais financiamento?

Vamos aí então. É preciso saber o que é preciso fazer, ter um
plano e depois é preciso uma mão na estratégia orçamental. Há uma estratégia orçamental plurianual para o país que é mandada para Bruxelas. Essa estratégia tem de incluir objetivos de bem-estar e saúde, não só défice e dívida. A gritaria tem de ser quando a estratégia está a ser discutida. Quando se discute o défice, a forma como evolui, tem de se pôr objetivos sociais. Essa discussão não existe e quem tem de a provocar é a Saúde. Se não arriscam-se a ter o que vemos hoje: gritam e recebem paninhos quentes. Quando se lembram que falta dinheiro, há pouca margem de manobra.

É preciso dizer isso a um ministro das Finanças? Não é bom senso?

É preciso dizer numa linguagem detalhada. Dizer qual é a meta para a resposta ao envelhecimento, para a resposta à multimorbilidade. Não podemos aceitar pacificamente uma hierarquia de políticas em que primeiro vem a parte financeira, depois a económica e a social não conta, é o resto. Estamos a pedir que as únicas soluções que existam quando gritamos são remendinhos. É natural que as pessoas não percebam quando é que têm de fazer barulho, mas os quadros políticos têm de perceber e exigir que se compatibilizem os orçamentos e a estratégia para a saúde com os objetivos económicos e financeiros do país.

Um ministro da Saúde não devia aceitar uma meta de défice zero?

Não é o ministro, é o Governo em si, as direções-gerais, a academia. Claro que é preciso negociar, mas nem há ainda uma discussão. Isto é um problema em vários países europeus mas cá o impacto é especialmente sentido: temos mais necessidades e menos dinheiro. E depois o dinheiro é canalizado para outras prioridades.

Fala-se agora do objetivo de eliminar as propinas. Faz sentido?

É mais uma coisa que tem de ser definida em termos de estratégia orçamental. É preciso perceber até que ponto as propinas são obstáculo a que todos os portugueses tenham oportunidade de estudar no Ensino Superior. É uma questão séria que tem de ser equacionada no modelo de financiamento das universidades. Aliás coloca-se na Saúde com as taxas moderadoras.

Defende há muitos anos que são copagamentos.

São um embuste intelectual. Não há coisa mais irritante. Há duas coisas distintas: moderar e pagar. O seguro que está subjacente ao SNS é que nós pré-pagamos para não termos de pagar quando estamos doentes e precisamos.
A taxa moderadora é um mecanismo que deve fazer parte da moderação, implica eu conseguir induzir menor utilização desnecessária sem criar um obstáculo à utilização necessária. O que temos hoje? Uma pessoa vai ao médico de família, a primeira coisa que faz é pagar a taxa moderadora. Está a moderar-se o quê? O médico manda fazer análises e pede para voltar lá para ver os resultados. Paga outra vez consulta. Isto faz algum sentido?

Mas há pessoas afastadas do SNS por causa das taxas quando há isenções? As listas de espera não são um obstáculo maior?

Claro que são, mas a questão fundamental é não aldrabar. Quando queremos educar as pessoas a perceber o sistema em que vivem, o circuito que é suposto seguirem, temos de ser claros e não dar sinais confusos. O principal mecanismo de moderação não deve ser a taxa moderadora, mas percebermos quem são os grandes utilizadores e levá-los a ter uma utilização o mais racional possível. O que é que sabemos hoje: muitos destes grandes utilizadores são pessoas com várias doenças que agudizam e vão parar à urgência. Deviam ser mais acompanhadas pelos cuidados de saúde primários, ter um plano individual de cuidados.

Esse era o instrumento do projeto SNS+Proximidade. Avançou?

Não tenho notícias dele, o que não é boa notícia. Criou-se um protótipo e havia projetos a decorrer.

O que lhe dizem as pessoas?

Que está moribundo. Esta integração de cuidados é o que está a acontecer lá fora em todos os países. O último orçamento de Theresa May, no meio das suas desgraças todas, responde a isto, mete dinheiro onde a resposta é necessária.

Que mudança implica na prática?

O médico de família conversa com o doente e estabelece um plano individual de cuidados. Tem diabetes, dói-lhe a coluna e dorme mal. Estabelece as expectativas, se é preciso a intervenção de um médico especialista, traça-se um plano e marcam-se consultas. Gere-se o percurso da pessoa no sistema.

Onde entra a vertente social?

Por exemplo, para perceber se a pessoa tem algum problema de mobilidade e não tem quem a ajude em casa. A parte interessante era que não prescrevíamos o que as pessoas tinham de fazer a nível local, dávamos um enquadramento. Se não há um sinal político forte de que o caminho é por aqui, as pessoas ficam na dúvida e não fazem. Há sempre gente disponível, mas a maioria olha com desconfiança porque estão habituadas a que as coisas sejam assim. E vão aceitando cada vez pior a transformação, até porque vão ficando cada vez mais sobrecarregadas.

Parece uma missão impossível.

A pergunta tem de ser essa: temos ou não capacidade de transformar um SNS em degradação num SNS de futuro?

Tornava a aceitar um convite para o Governo?

Com outras condições. Ando nisto há 50 anos. Perdemos mais vezes do que ganhamos e não conseguimos ganhar se não perdermos. Se nos dão uma oportunidade, tentamos outra vez, mas incorporando o que aprendemos.

Em que é que errou?

É difícil dizer em poucas palavras. Temos de ser mais rigorosos com os nossos parceiros políticos. Sou amigo do dr. Adalberto e tenho grande apreço pela dra. Marta Temido, mas o rigor e as condições necessárias para desenvolver um projeto têm de ultrapassar as questões pessoais. Quem trabalha com ministros nunca quer ser ministro, é uma vida impossível. Temos a obrigação de compreender as circunstâncias do político, as dificuldades, principalmente porque era algo que não vinha da bagagem do Governo e devia ter sido acautelado antes, mas tem de haver apoio político ao projeto.

Foi uma legislatura perdida para a reforma do SNS?

Em grande parte sim. Houve progressos mas faltou o impulso transformador e um plano que permitisse aproveitar bem os quatro anos. O discurso continua a ser reativo. Todos os dias há uma greve, ameaça de greve, alguém se demite, chega o inverno. O registo reativo predomina sobre o construtivo. É importante que esta aprendizagem leve a que o próximo Governo, seja a continuidade deste como parece provável ou outro, que tenha uma maior preparação estratégica.

Estão em cima da mesa cinco projetos para rever a Lei de Bases da Saúde. Como vê esta clivagem entre a ideia da esquerda de um SNS autossuficiente e a da direita de aproveitar a capacidade instalada no privado e social?

Ao contrário do que às vezes oiço, a Lei de Bases é importante. Parece-me que devia incluir a ideia de ter de haver objetivos de saúde na estratégia orçamental do país e articulação entre saúde e segurança social. As propostas sobre taxas moderadoras são de fugir: se é suposto moderar, para que é que se mete um teto financeiro? Mas indo ao grande busílis político que é a articulação entre setores: todos são importantes e ninguém quer acabar com nenhum deles, em princípio. Têm de cooperar uns com os outros, é inevitável. Mas não estou a dizer que a cooperação seja obrigatória, o que é a visão de alguns projetos, deve depender das necessidades existentes. Se existe uma política pública de saúde chamada SNS, tem de ser o melhor possível. Não pode dizer-se: ‘O SNS não pode ser tão bom porque vamos pôr dinheiro no privado ou no social’. Mas, mesmo tendo um SNS o melhor possível, o país não dispensa o setor privado e social.

Porquê?

O setor social tem uma flexibilidade e uma experiência a nível local e com as pessoas mais necessitadas que o setor público não tem. Em relação ao privado, em todos os sistemas do mundo, há sempre possibilidade de conseguir no privado certas comodidades que o público não dá ou o acesso mais fácil a tratamentos que não têm custo-efetividade para serem implementados no público.

Mas isso é à margem do SNS.

Essas pessoas aliviam o SNS. Mas pensando na cooperação: por exemplo, respostas que estejam a evoluir com grande rapidez, poderiam ser primeiro testadas e contratadas no privado pelo SNS antes de serem incorporadas no sistema público. Há várias formas inteligentes que permitem articular público, privado e social. Não me parece inteligente dizer que não vamos investir num serviço público de qualidade para os portugueses.

Nenhum projeto diz isso.

Dizem indiretamente. Se tenho uma política pública, não é para a perder na concorrência de mercado.

A ideia surge nas propostas do PSD e CDS. Porque é que diz que é um mau caminho?

Temos de pensar a alternativa. A alternativa é que o Estado financia um mercado onde as pessoas escolhem onde podem ir.
O Estado marreta que, na opinião de alguns, não é capaz de gerir um serviço público, é capaz de gerir um mercado concorrencial desta complexidade sem cair na forma como geralmente a concorrência funciona, segmentando o mercado? O que é que os operadores vão querer? Não é melhorar a saúde das pessoas, mas naturalmente investir no que tem mais margem de lucro para maximizarem o investimento. Estaríamos a regular o financiamento público num sistema em que os atores teriam este objetivo, o que é extremamente difícil mesmo em países que têm um PIB três vezes superior ao nosso.

Qual era o risco?

Ter um sistema dual. Um sistema público mirrado de má qualidade para os pobres e um sistema financiado parcialmente pelo Estado para os outros. O Estado deve financiar a sua política pública para funcionar bem e deve financiar social e privado em circunstâncias que se revelem vantajosas para as pessoas.

Uma pessoa até pode concordar com o SNS, mas quando hoje espera anos por uma consulta, como não questionar se o caminho é por aqui?

A discussão é se podemos melhorar isso e como. Se é para continuar assim também digo isso: não tenho grandes esperanças de que o SNS seja capaz de sobreviver. Sem integração, um novo modelo de governação política. Agora o que digo é que é necessário e possível investir no SNS enquanto política porque a alternativa não é boa. Desistir já é ignorar os inconvenientes. Uma coisa é haver financiamento público no social e no privado. Outra coisa é o privado receber pessoas de um seguro público e do privado sem haver SNS. Seria uma espécie de ADSE. Quem é que julga que é atendido primeiro?

Isso já acontece hoje.

Acontece com SNS, agora imagine sem. Aconteceu comigo noutro dia. Vou ver a pele uma vez por ano pela ADSE. Telefonei para tornar a ir ao mesmo sítio. Disseram-me que já não tinham consulta pela ADSE. Marcavam para dali a três dias e eram 80 euros. Mas, diz a senhora, ‘a 5 km daqui temos outra clínica. Veem-no daqui a duas semanas e paga 30’. E os cinco euritos da ADSE?, perguntei eu. ‘Vamos abrir para marcações mas não sabemos quando.’ Desistir do SNS é aceitar isto. Quando se diz que devem concorrer entre si, é este o caminho que se abre.

O PS está numa encruzilhada para aprovar a lei. É mais expectável um acordo à esquerda ou à direita?

O que o Estado tem obrigação de fazer é estabelecer um equilíbrio favorável às pessoas entre aquilo que os interesses económicos desejariam e o que é mais vantajoso em termos de saúde.

Sente movimentações de interesses económicos?

Sempre, é óbvio. Mas era absolutamente inocente esperar que não houvesse interesses ideológicos, económicos, profissionais. Todos os interesses estão sempre ativamente em jogo.

Marcelo está a condicionar o debate como já disseram os partidos à esquerda?

Intervém muito, faz parte do seu feitio. Habitualmente o que ele diz faz sentido. Quando fala de um assunto está informado e dá gosto ver, tem um papel pedagógico importante. Neste caso acho que se distraiu um bocado, antecipou a sua preferência. E acho que um Presidente não pode fazer isso, não pode dizer a opção que prefere antes de haver uma discussão no Parlamento, isso tira-lhe a reserva necessária para apreciar a lei que lhe chega.

O Presidente disse que era favorável à proposta de lei de Maria de Belém Roseira, que o Governo não utilizou na íntegra e que CDS e PSD entretanto recuperaram. Este episódio não torna a revisão da lei um processo um pouco confuso?

Muito confuso. Houve pouco rigor na minha perspetiva. O Governo tinha três alternativas: a primeira era nomear um grupo de trabalho para preparar o diploma seguindo as orientações do ministro. A segunda era não se meter: era com o Parlamento e o PS que fizesse uma proposta. Terceira opção, que foi a que seguiu: criar uma comissão independente liderada por uma pessoa muito conhecida e de prestígio para fazer uma pré-proposta. Quando faz isto, tinha a obrigação de aceitar a proposta. Se nomeia uma comissão que se dedica meses a fio a fazer um trabalho em nome do Governo, é porque confia naquela comissão e no seu trabalho. O problema não foi agora, foi a ambiguidade inicial. O sistema político tem de ter rigor nestas coisas.

Rigor e estratégia são as suas grandes causas neste momento?

É o que o mundo académico pode oferecer. Não fazer política no sentido partidário/ideológico, analisar as soluções e insistir para que haja planeamento estratégico e fundamentado. Sabendo que o mundo da política é tumultuoso, o país tem inteligência para ter um plano de recuperação do SNS mas ainda não o tem e já o devia ter tido, há oito anos, há seis anos, há quatro. O risco é o SNS não sobreviver. E como é que não vai sobreviver? Vai perder os profissionais. Não desaparece de todo, ficará sempre qualquer coisinha para os pobres.

Como vê a greve dos enfermeiros nos blocos operatórios?

Como disse, era previsível. Todos os que sofreram restrições, professores, técnicos, enfermeiros, havendo recuperação, querem beneficiar disso. Os enfermeiros têm muitas razões de queixa há muitos anos e é o momento de falar. À medida que se aproximam as eleições, com os partidos mais sensíveis a perder votos, a ameaça de ruído será cada vez maior.

É uma greve mais radical do que outras?

Esse é um terreno das ciências políticas que domino pior mas que tem a ver com a legitimidade das greves. Os argumentos são vários. A lógica da greve era que o limite é o desaparecimento do meu trabalho. O travão é que a fábrica fecha e perco o emprego. O Estado é indefeso em relação a isto porque não fecha. Quando uma greve é financiada por mecanismos que não são transparentes…

Os enfermeiros angariaram 360 mil euros para uma primeira greve e já vão em mais de 350 mil para uma segunda a ter lugar este ano.

Sim, nesta altura pode pensar-se que os mecanismos de equilíbrio do direito à greve estão prejudicados. Pessoas financiadas podem prolongar a greve indefinidamente, especialmente se o financiamento pode estar associado a degradação do serviço...

Foram levantadas dúvidas sobre se o setor privado poderia estar a fazer donativos mas não há nenhum dado concreto sobre isso.

Não há nenhum dado concreto sobre nada. A questão de fundo é que este tipo de financiamento, a existir, deve ser transparente.

As consequências preocupam-no? Bagão Félix alertou que as pessoas mais afetadas são os pobres.

Essa é a sensibilidade dos serviços públicos perante as greves. Quem sofre são os que dependem do serviço público, os que não têm capacidade económica.

Isso devia fazer os enfermeiros terem um protesto menos extremo?

Aos enfermeiros, de uma forma geral, o sistema não os tem tratado bem. Têm um capital de queixa acumulado, são pouco sensíveis a uma crítica sobre agora, de repente, querermos saber se o direito à greve está bem enquadrado ou não. Acho que parte da recuperação do SNS é tratar os enfermeiros de outras formas e retê-los com carreiras decentes. Mas a questão da greve nos serviços públicos é uma questão não resolvida na sociedade portuguesa e agrava-se com esta nova forma de financiamento, o crowdfunding, que não tinha esta expressão no passado. Com este novo ambiente, é muito importante esclarecer o direito à greve.

Mais uma discussão difícil, não?

Sim, mas absolutamente necessária. A fábrica fecha, o Estado não fecha mas prejudicam-se as pessoas que dependem dos serviços públicos, seja nos transportes, na escola ou na Saúde. Não pondo em causa direitos sociais como o direito à greve, em cada momento histórico têm de ser analisados para garantir que se preservam os direitos de todos e não só os direitos de alguns. É uma questão tabu, tem de ser analisada e o sistema político tem de assumir a responsabilidade e fazer opções, não se pode esconder.

Estão a aumentar os casos de gripe, mas a atividade ainda não é tão expressiva como noutros invernos. O SNS tem capacidade para dar resposta suficiente a um cenário mais agressivo?

Os sistemas são sempre sensíveis a grandes flutuações de procura. Quando mais se degrada, pior é a capacidade de resposta. Não há milagres. Um sistema em que há queixas em tempo normal é natural que responda pior em tempo difícil. Agora o que é uma resposta suficiente? Esperar cinco/seis horas é aceitável? É complexo.

Num dos piores invernos dos últimos anos houve uma sucessão de mortes nas urgências de doentes graves que não chegaram a ser observados. Perguntava sobre um cenário desses.

O que diria sobre isso é que tem havido a nível europeu uma diminuição da esperança de vida associada aos invernos. Morrem pessoas a mais e isto é sempre uma conjugação de frio, gripe e, em alguns países como Portugal, a falta de aquecimento das habitações, um problema de que não se fala. Só somos melhores do que a Bulgária no aquecimento das casas. Pessoas que vivem em casas mal aquecidas estão em alto risco. Depois o sistema dá-lhes a resposta que pode dar, um sistema com o dinheiro que tem. Mas há um artigo muito interessante publicado em Inglaterra há poucos meses que tem o título ‘Winter all year around’. Inverno todo o ano nos serviços de urgência ingleses.

A sobrecarga é todo o ano.

Aquilo que dantes só víamos no inverno tem tendência a acontecer todo o ano porque há uma população cada vez mais frágil e envelhecida, com vários problemas de saúde, e que recorre cada vez mais às urgências. Isto é uma questão muito profunda. O nosso Serviço Nacional de Saúde nasceu para a mortalidade infantil e é bom nisso, é bom para as crianças, para o desenvolvimento infantil. Mas ainda não deu a volta para ser um bom serviço para as pessoas que envelhecem e esse é o grande desafio. Tem de dar a volta, de se transformar, não é só ter mais recursos. Se não acontece isto: vai ser inverno todo o ano nos serviços de urgência. São o barómetro de que alguma coisa não está a funcionar. Não é só não haver clínicos gerais nos cuidados primários, é muito mais do que isso. É a resposta integrada, mais cuidados em casa, um conjunto de coisas que sabemos quais são mas ainda não visualizamos um SNS capaz de o fazer. Só sobrevive se o fizer.