Viver para Contar

O tamanho dos carros

Os carros estão a aumentar de tamanho: os velhos Minis, quando postos ao lado dos novos, parecem miniaturas, caixinhas de fósforos...

Na segunda circular, um enorme jipe de cor negra, baça, de aspeto sinistro, ultrapassa-me. Os jipes enormes estão na moda, e as pinturas sem brilho também. Antes, estas eram reservadas aos carros militares, por razões óbvias: para não refletirem a luz, que os tornaria alvos mais fáceis para os inimigos. Mas nos carros particulares a pintura sem brilho não faz qualquer sentido – até porque absorve o calor, tornando os carros mais quentes. Nos dias de Verão, aquele jipe escuro e baço é certamente um verdadeiro forno. Deve ser possível cozer bolos lá dentro.

Uns quilómetros à frente, o jipe estava parado numa fila e ultrapassei-o. Vi quem o conduzia: uma jovem de cara miúda e aspeto frágil. Aquilo a que vulgarmente se chama uma ‘fraca figura’. Pensei no absurdo que a situação representava: uma rapariga que não deveria pesar mais de 50 Kg fazia-se transportar num carro de, para aí, duas toneladas. Dito de outra forma, para transportar um peso de 50 Kg deslocava-se um monstro de 2.000 quilos.

Criticam-se cada vez mais as pessoas que só sabem usar o carro, que nunca utilizam os transportes públicos. Multiplicam-se os apelos para as pessoas se juntarem nas idas para os empregos, rentabilizando o automóvel. Mas, paradoxalmente, cada vez há mais carros, mais pessoas a transportarem-se nos carros sozinhas e – vá lá perceber-se porquê – os carros são cada vez maiores!

Há muito anos, ‘encomendei’ a um jornalista um trabalho sobre a razão de ser do aumento do tamanho dos automóveis. Ao fim de uns dias, ele comunicou-me que a ideia era falsa: os carros não estavam a aumentar de tamanho, segundo lhe diziam pessoas do setor. Ora, ou o jornalista era pouco observador, ou os indivíduos com quem falara tinham-lhe dado informações erradas. Na altura isso já era para mim evidente. Hoje, basta olhar à volta para o percebermos.

A comparação entre os modelos do Volkswagen carocha antigo e do novo, ou do Austin Mini antigo e do novo, ou mesmo entre os Fiat 500 e 600 antigos e novos, chega a ser chocante: os velhos Minis, por exemplo, quando postos ao lado dos novos, parecem miniaturas, caixinhas de fósforos.

Acontece que este fenómeno do ‘crescimento’ dos carros foi recentemente agravado com a invenção de um novo ‘conceito’: os SUV – Sport Utility Vehicle.

E isto para mim é um mistério. 

Como entender que, numa época em que se quer reduzir o consumo de gasolina e gasóleo, se tenham lançado estes carros grandalhões, cujo peso – e, portanto, o consumo de combustível – é muito maior? Como entender que se tenham tornado moda uns carros que, em volume, são praticamente o dobro dos atuais carros utilitários?

Para quê aquela lata toda – lembrando enormes carapaças de insetos – para fazer o mesmo que os carros ‘normais’ fazem?

De facto, ainda se pode dizer que os jipes fazem coisas diferentes, podendo andar em terrenos inacessíveis aos outros veículos; ainda se pode dizer que os monovolumes de 7 ou 8 lugares são diferentes, porque podem transportar famílias grandes ou são ideais para passeios com famílias amigas. Mas os SUV fazem o quê de diferente? Andam em todos os terrenos? Levam mais gente? Transportam mais carga?

Confesso que não percebo. É certo que não sou um expert em matéria de carros, longe disso, mas parece-me que esta invasão de SUV é tão absurda como os jeans rotos: trata-se de um fenómeno de imitação, de moda, destituído de sentido. As pessoas veem as outras com aqueles monstros e querem ser como elas. E depois são capazes de fazer grandes discursos sobre o ambiente e a poupança de energia…

Repito: como ligo pouco a carros, não vejo as vantagens dos SUV. E lembro-me sempre do que me perguntou um amigo mais velho quando um dia lhe apareci com um carro novo: «E o que faz este mais do que o outro?».

Fiquei sem resposta. O meu carro novo fazia exatamente o mesmo que o antigo. E a minha satisfação em tê-lo era apenas uma questão de vaidade. Era um objeto mais destinado a mostrar aos outros do que para meu uso próprio – no sentido em que, no que me dizia respeito, o que eu fazia com o novo era o mesmo que fazia com o velho.

Claro que, se pensassem todos assim, a indústria automóvel entraria em crise. Mas o planeta sofreria menos.