Opiniao

Elefante em loja de porcelana

Com a suavidade de um ‘elefante em loja de porcelana’, o ministro do Ambiente, Matos Fernandes, abriu as hostilidades sobre o tema/problema dos veículos a gasóleo e os veículos elétricos. A seco, proclamou: «Dentro de 4 anos os veículos a gasóleo irão ter perda significativa de valor!». E passados dias reforçou estas afirmações, sustentando-as com declarações de fabricantes de automóveis, que tencionam reduzir – ou mesmo deixar de fabricar – os malfadados veículos a gasóleo.

Poderia ter-se expressado de outra forma? Se calhar, deveria! Nem sequer falo da pressão do setor automóvel, poderoso pelos empregos que gera, pela enorme relevância na economia. Falo de outras questões. Por exemplo: daqui por 4 anos como será a realidade? Isto gira tão rápido que desconhecemos o que se vai passar amanhã ou daqui a 6 meses quanto mais daqui a 4 anos!

Falemos de problemas comezinhos a resolver. Em primeiro lugar, a atual realidade de produção dos veículos elétricos tem ainda demasiadas carências por suprir, a começar por inibir viagens de médio curso. Nem falo de longas distâncias, porque os atuais modelos implicam paragens de 1h30 a cada 200 ou 300 Km.

Em segundo lugar, como resolver o problema dos carregamentos? Hoje já se veem diversos postos urbanos, mas muitos estão avariados. Ora, a maioria das pessoas vive em prédios sem garagem privativa, necessitando dos postos públicos para fazer o carregamento. E nos prédios com garagem, nomeadamente condomínios, como aguentar o carregamento noturno de muitos carros elétricos? Terão capacidade instalada? Ou haverá investimentos a fazer (sendo que nestas coisas de repartição de custos de infraestruturas habitualmente ninguém se entende)?

Acho muito bem que o ministro do Ambiente se preocupe com estas matérias. Mas por que não falar pela positiva, ou seja, ousar propor incentivos fiscais aos respetivos compradores? Refira-se que em Portugal, em 2018, o número de carros elétricos vendidos foi absolutamente marginal: 4.330 unidades, num total de 267.600. Ou seja, cerca de 1,6%.

Para inverter esta situação, por que não oferecer aos compradores individuais vantagens no IRS por via das amortizações ou por deduções à coleta? Ou às pessoas coletivas benefícios visíveis no IRC?

Estas ideias são positivas porque incentivam a compra. As expostas pelo senhor ministro são profundamente negativas porque desvalorizam brutalmente os ativos das pessoas, como são os automóveis que possuem. Tratou-se de um exemplo flagrante de como não se deve comunicar uma ideia.

Em ano de eleições, veremos os impactos desta frase que dificilmente será esquecida pelo eleitorado e que poderá marcar negativamente o Governo, em particular o PS. Aliás, as campainhas devem ter tocado, pela forma pressurosa como o ministro já anda a tentar suavizar as declarações iniciais, garantindo que o Governo não vai proibir os carros a gasóleo.

 

P.S. – A saga das greves continua. Enfermeiros e professores, por razões diferentes, iniciam 2019 determinados a fazer a vida negra a Costa. As distribuições tocam a todos – e, quando se trata de reivindicar devoluções de rendimentos com exemplos de cedência noutros setores, fica mais fácil a agregação da classe. Enfermeiros financiados em crowdfunding nem sequer perdem dinheiro com as paragens. Professores legitimados por resoluções da Assembleia da República e pelo veto de Marcelo esperam a mesa das negociações, enquanto Costa refere que só se senta com novas propostas. Em suma: ‘Casa onde não há pão...’ e ‘quem se lixa é o mexilhão!’.