Sociedade

Incêndios. O que se espera para o verão?

Há 98 novas freguesias no mapa prioritário do ICNF e só cinco saíram. As que no ano passado eram consideradas muito urgentes, continuam. O inverno seco não é bom sinal e o Governo já está a preparar o próximo verão.

A época de incêndios começa oficialmente no próximo mês de julho, podendo ser entretanto alterada em função das alterações do clima. Nesta matéria, a memória recua aos meses de junho e outubro de 2017 pelas tragédias causadas pelo fogo e, tanto antes, como depois dos incêndios, fala-se de números e estratégias de prevenção, sempre para melhorar o que correu mal nos anos anteriores - e a verdade é que há sempre pontos que não correram bem. 

O mapa elaborado pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) dá conta de mais 93 freguesias em risco de incêndio, comparativamente ao ano passado. Em pormenor, houve 98 freguesias que não constavam no mapa de 2018, o que significa que apenas cinco freguesias saíram do mapa das freguesias prioritárias - classificadas entre primeira e segunda prioridade. Em matéria de prioridades, os dois níveis dividem-se entre muito urgente e menos urgente. No total, há 703 freguesias classificadas com nível um - muito urgente - e 439 com nível dois. 

De acordo com o ICNF, tanto a classificação da prioridade como a entrada e saída da lista dependem sobretudo da dimensão da área ardida em anos anteriores. Ou seja, as localidades que registaram mais incêndios em 2017 e 2018, à partida vão sofrer menos com os incêndios, por razões óbvias. Recordando os fogos de junho e outubro de 2017, os concelhos mais afetados nesse ano - Pedrógão Grande e Oliveira do Hospital - não constam da lista de prioridades para a próxima época de incêndios. Além disso, todas as freguesias referenciadas em 2018 mantiveram as classificações de prioridade e, das novas entradas, apenas a freguesia de Glória, no distrito de Évora é considerada de muito urgente - as restantes 97 são pouco urgentes. 

Como mostra o mapa ao lado, Bragança é o distrito que regista o maior número de entradas em 2019. Só neste distrito, foram classificadas como prioritárias mais 38 freguesias - todas designadas de segunda prioridade. Ao contrário, os distritos de Lisboa, Setúbal e Santarém não registaram qualquer entrada, mantendo os números baixos quando comparados com os restantes distritos - 12 freguesias em Lisboa, quatro em Setúbal e 42 em Leiria. 

Está tudo preparado?

Comparando com a média anual dos últimos dez anos, Portugal conseguiu reduzir o número de incêndios rurais em 44% e da área ardida em 68% - segundo dados do Ministério da Administração Interna (MAI). Mas o inverno pouco chuvoso que se vive neste momento pode ter consequências para o próximo verão, o que justifica - além da grande mancha no mapa - o reforço de meios para a próxima época de incêndios. Por isso, o Dispositivo de Prevenção e Combate «vai ser incrementado com 83 novas Equipas de Intervenção Permanente dos Corpos de Bombeiros - 43 criadas em dezembro de 2018 e mais 40 a criar no primeiro trimestre de 2019», indicou o MAI ao SOL. 

O Ministério destaca ainda o «forte investimento em equipamentos e viaturas de combate a incêndios» referente a 2018, ano em que financiou a aquisição de 78 veículos para os Corpos de Bombeiros. No entanto, sobre esta questão, Jaime Marta Soares, presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP) refere que o número de veículos adquiridos é muito inferior ao que os bombeiros precisam. «Sabe quantas associações há no país? Há 456 e há viaturas que andam no terreno com 30 e 25 anos», refere Jaime Marta Soares que se reúne hoje com o Governo para discutir a proposta da tutela sobre a Lei Orgânica. 

O presidente da LBP explicou ao SOL que «com acordos ou sem acordos com o Governo, os bombeiros estarão sempre na primeira linha de defesa no combate aos incêndios florestais». No entanto, destaca que «poderá haver decisões que atrasem a disponibilidade para o dispositivo» e espera, por isso, «que haja da parte do Governo uma abertura para que tudo decorra sem conflitos». Quanto aos meios aéreos - uma questão falada não só em época de incêndios - o Dispositivo de Prevenção e Combate vai também contar com mais cinco aeronaves, o que faz um total de 60 aeronaves, refere o MAI - ao contrário do que tinha indicado Eduardo Cabrita, ministro da Administração Interna, em meados de janeiro, quando disse que estariam disponíveis 61 meios. Assim, há um dos meios que não estará disponível. 

O reforço de meios aéreos segue a linha da explicação de Tiago Oliveira, presidente da Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF), em janeiro deste ano. «Há mais meios aéreos na campanha deste ano, porque estamos este ano com um inverno pouco chuvoso e já sabemos que quando há um inverno pouco chuvoso temos de estar mais atentos», disse Tiago Oliveira em conferência de imprensa na Presidência do Conselho de Ministros. 

A AGIF, entidade que coordena o sistema de prevenção e combate aos fogos rurais, criou este ano a campanha de informação Portugal Chama que está neste momento a divulgar informação sobre a obrigatoriedade de limpeza dos terrenos. Além desta campanha, Eduardo Cabrita referiu no início de janeiro que a partir da segunda metade de janeiro iria reunir com «todas as comunidades intermunicipais do país e com as duas áreas metropolitanas (…) para que os resultados positivos de 2018 não sejam apenas resultados que se verificam num ano». 

Sobre esta questão, o Ministério da Administração Interna referiu que «já foram realizadas intensas reuniões de trabalhos nas Comunidades Intermunicipais da Lezíria do Tejo, Médio Tejo, Algarve, Alentejo Litoral e Alentejo Central», sendo que até ao início de abril, o MAI vai percorrer o restante território. Olhando novamente para o mapa ao lado, faltam as zonas onde há mais freguesias consideradas urgentes.