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O homem que provocou a maior catástrofe tecnológica do mundo

Em 1985 Viktor Briukhanov, um engenheiro especialista em turbinas então com 50 anos, tinha razões para estar satisfeito. A sua vida nunca fora fácil - passava muito tempo a trabalhar e muito pouco com a família - mas podia orgulhar-se de ter planeado e supervisionado a construção de uma central nuclear modelo, de que também era diretor. Vivia num bloco de apartamentos destinado à elite de Prypiat, uma moderna cidade ucraniana que gozava de certos privilégios especiais no universo soviético, e a central por ele dirigida não só cumpria com as metas estabelecidas como até as superava. «Não me arrependo de nada», disse então Briukhanov a um jornal.

Mas estava prestes a mudar de opinião.

Na madrugada de 26 de abril de 1986, um teste que supostamente serviria para aumentar os níveis de segurança da central ficou fora de controlo. Durou apenas 36 segundos, mas teve consequências catastróficas. «Aqueles que estavam na sala de controlo ouviram um súbito rugido», escreve Serhii Plokhy em Chernobyl - History of a Tragedy, um relato detalhado do que se passou naquele dia fatídico e nos meses subsequentes. Uma primeira explosão destruiu a caixa de betão do reator. «Dois segundos depois, os operadores ouviram outra explosão, muito mais potente. ‘O chão e as paredes abanaram com violência, poeira e detritos caíram do teto, a iluminação luminescente ligou-se, caiu uma semi-obscuridade, só a iluminação de emergência estava acesa’», descreveu uma testemunha.

Depois da explosão, quantidades gigantescas de radiação foram lançadas para o ar. A organização centralizada do sistema soviético, em que as decisões dependiam de Moscovo, a opacidade do regime e a sua incapacidade para assumir as falhas fizeram o resto.

O acidente de Chernobyl, além de uma catástrofe ambiental e humana, representou uma enorme humilhação para a União Soviética. E, quer pelos meios que consumiu, quer pelas suspeitas que lançou sobre a energia nuclear, pôs em causa todo o plano de desenvolvimento que Gorbachov tinha delineado e que se apoiava parcialmente na construção de novas centrais.

Poucos meses depois do acidente, Viktor Briukhanov foi condenado a dez anos de prisão, dos quais cumpriria cinco. «Na prisão era uma celebridade local», escreveu Serhii Plokhy no seu livro. «Quando chegou, os prisioneiros saíram todos dos seus lugares para poderem espreitar o indivíduo que era culpado de ter provocado a maior catástrofe tecnológica do mundo».

Só havia um detalhe: é que Briukhanov não tivera qualquer responsabilidade. Especialistas chegaram à conclusão de que foi um defeito na arquitetura do reator, aliado ao incumprimento dos procedimentos por quem conduziu os testes, que provocou o acidente. Mas isso pouco importava. Os chefes em Moscovo exigiam que rolassem cabeças, que se encontrassem bodes expiatórios. Quanto aos dramas pessoais - fossem do diretor da central, dos bombeiros sacrificados ou das populações afetadas - eram danos colaterais perfeitamente negligenciáveis.