Internacional

Pyongyang: purgas e intrigas

A diplomacia não é uma ocupação segura na Coreia do Norte. Que o digam os negociadores nucleares de Kim Jong-un, que terão sido fuzilados por não conseguirem um acordo com os EUA.

As negociações entre o líder norte-coreano, Kim Jong-un, e o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, podem ter sofrido mais um golpe, com a alegada execução de pelo menos cinco dos principais negociadores nucleares da Coreia do Norte, segundo fontes anónimas do jornal sul-coreano Chosun Ilbo. Os diplomatas terão sido mortos em março - pouco depois do fracasso da cimeira entre Kim e Trump, em Hanói -, sendo fuzilados no aeroporto de Mirim, em Pyongyang, sob acusação de terem sido «persuadidos pelos imperialistas americanos a trair o Supremo Líder».

Além dos cinco diplomatas executados, também terão caído em desgraça o vice-presidente do Partido dos Trabalhadores da Coreia, Kim Yong-chol - que chegou a visitar a Casa Branca durante as negociações -, bem como a diplomata Kim Song-hye. Estes dois altos dirigentes terão sido condenados a trabalhos forçados, numa província remota do norte do país, por não conseguirem o pretendido por Kim: o fim das sanções contra Pyongyang. Até um dos tradutores da cimeira entre o líder da Coreia do Norte e o Presidente dos EUA terá sido enviado para os campos de trabalho, por causa de um erro de tradução, segundo a imprensa sul-coreana.

Contudo, a veracidade destes relatos de uma purga sangrenta ainda estão por verificar. «Estas notícias foram avançadas pelos sul-coreanos, que divulgam frequentemente histórias ligeiramente sensacionalistas que nem sempre se revelam verdadeiras», explica ao SOL Paul French, autor do livro Coreia do Norte: Estado de paranoia. O especialista nota que «os sul-coreanos não estão muito satisfeitos com os norte-americanos», devido à aproximação entre Trump e Kim, notando que «eles [sul-coreanos] gostam sempre de agitar um pouco as coisas no norte».

De facto, as autoridades sul-coreanas não confirmaram os relatos do Chosun Ilbo, tendo considerado «inapropriado tirar conclusões apressadas» - uma posição semelhante à das autoridades norte-americanas. Uma fonte diplomática afirmou à Reuters que há sinais que vários diplomatas terão sido condenados a trabalhos forçados, mas não executados. Já a Coreia do Norte não noticiou nenhuma execução de dirigentes políticos de alto nível - algo que não hesitou fazer em purgas anteriores. Aliás, como aconteceu após execução do número dois do regime, o próprio tio por afinidade de Kim Jong-un, Jang Song-thaek, acusado de traição e corrupção.

Dentro da cúpula Os rumores surgiram depois do desaparecimento de Kim Yong-chol nos meios de comunicação norte-coreanos, bem como da sua ausência e dos diplomatas condenados na delegação da Coreia do Norte à Rússia, para o encontro entre o Presidente russo, Vladimir Putin, e Kim Jong-un. No seu lugar estiveram nomes como Lee Yong-ho, o ministro dos Negócios Estrangeiros, ou a diplomata Choe Son-hui - que emergiram como os novos rostos diplomáticos de Pyongyang. Paul French refere que os diplomatas estão sob grande escrutínio e desconfiança na Coreia do Norte dado «entrarem em contacto com estrangeiros». Logo, «provavelmente estão poluídos ideologicamente». O especialista vê um paralelo com o passado: «Estaline, nos anos 30, já achava o mesmo dos seus diplomatas».

A confirmarem-se, estas purgas demonstram a urgência desesperada de Pyongyang em pôr fim às sanções que paralisam o país. «Kim tem muita gente com fome no seu país, enfrenta uma seca, sanções das Nações Unidas, precisa de um acordo», assegura French, que relembrou que Trump se afirmou frequentemente como o grande negociador capaz de convencer o líder norte-coreano a aceitar a completa desnuclearização da península coreana. Contudo, a notícia das execuções arrisca «fazer Trump parecer ridículo, ao dizer [de Kim]: ‘Este é um tipo porreiro, eu dou-me bem com ele, é um amigo’, quando ele literalmente abateu os seus dois mais altos conselheiros».

Questionado sobre se o assunto poderá fazer descarrilar as negociações entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte, French não tem dúvidas: «Se fossem negociações entre os EUA e Kim, diria que sim. Sendo uma negociação entre Trump e Kim, diria que não». O especialista acrescenta: «[Trump] vai só dizer: ‘isso nunca aconteceu, não acredito, são só rumores’. É isso que ele faz, do mesmo modo que disse que os testes de mísseis [da Coreia do Norte] não quebravam as decisões [do Conselho de Segurança da ONU]». O autor refere-se às declarações do Presidente dos EUA sobre os testes de mísseis balísticos de curto alcance norte-coreanos - os primeiros desde 2017. Aliás, o facto do chefe de Estado norte-americano ter dito não estar «pessoalmente incomodado» com o assunto - referindo casualmente que «não há pressa» em conseguir um acordo nuclear - chegou a perturbar a sua visita ao Japão, um país dentro do alcance dos mísseis de Pyongyang.

Assalto orquestrado pela CIA O assunto dá uma reviravolta digna de uma telenovela, tendo em conta que o mais notório diplomata supostamente fuzilado tenha sido Kim Hyok-chol, o enviado especial para os Estados Unidos - considerado um dos principais arquitetos da última cimeira entre o líder norte-coreano e Trump. Hyok-chol foi apontado como o mais provável alvo do assalto à embaixada da Coreia do Norte em Madrid - menos de uma semana antes da cimeira -, que terá sido levado a cabo por operativos ligados à CIA, que terão escapado para Nova Iorque através do aeroporto de Lisboa, segundo a própria justiça espanhola.

É de notar que antes de ganhar a confiança pessoal de Kim Jong-un, no início de 2019, Hyok-chol foi embaixador em Espanha, até 2017, ano em que foi expulso do país, no rescaldo de testes de mísseis norte-coreanos. «O que torna todo este episódio interessante, porque [o assalto à embaixada de Madrid] foi um momento muito embaraçoso [para a Coreia do Norte]. Isso pode indicar que Kim Hyok-chol pode estar em apuros», considera Paul French.

Recorde-se que o assalto à embaixada de Madrid foi realizado por um comando de cerca de uma dezena de pessoas armadas com pistolas falsas, facas e barras de ferro, que imobilizaram, espancaram e interrogaram o pessoal diplomático norte-coreano. Os assaltantes revistaram as instalações, roubando documentos, computadores e telemóveis antes de escaparem, arrancando a toda a velocidade num dos carros da própria embaixada, segundo o El País. Fontes próximas da investigação revelaram ao jornal espanhol que o ataque terá sido planeado até ao mais pequeno detalhe, o que requereria «uma infraestrutura e financiamento significativo, que os indivíduos envolvidos não teriam». Já o El Confidencial avançou que os investigadores colocam a hipótese de que o objetivo dos assaltantes seria obter informação sobre Kim Hyok-chol, antes da cimeira que organizou.

‘Manobra política’ ou ‘encenação maluca’? A trama adensou-se com a revelação de que os vários operativos ligados à CIA fariam parte de uma misteriosa organização de opositores da dinastia Kim, a Cheollima Civil Defense, segundo disseram ao The Washington Post fontes próximas da operação. O grupo afirmou em comunicado que «respondeu a uma situação urgente na embaixada de Madrid», e que teria «partilhado informação de enorme valor potencial» com o FBI, «sob um acordo de confidencialidade mútuo».

Aquele que é apontado pela justiça espanhola como o principal organizador do ataque (e alegado membro da Cheollima Civil Defense), Adrian Hong Chang, foi fundador da agência de consultoria Pegasus Strategies, sendo também diretor da Liberty in North Korea, uma suposta organização não-governamental que apoia refugiados norte-coreanos. Hong Chang é alvo de um mandado de captura internacional, emitido pelo juiz José de la Mata. O advogado do opositor do regime norte-coreano, Lee Wolosky, criticou a atuação das autoridades espanholas, por publicarem o nome dos suspeitos - algo que diz colocar as suas vidas em risco. Já Pyongyang considerou o assalto à sua embaixada em Madrid, como um «grave ataque terrorista».

Questionado sobre o assunto, Paul French nota que «é difícil dizer se [o assalto à embaixada] foi uma manobra política ou uma encenação maluca». O que é certo é que a especulação sobre o impacto do assalto entre as mais altas esferas de Pyongyang não vai ficar por aqui. Afinal, «trata-se da Coreia do Norte. Estamos sempre a supor».