Viver para Contar

Mariana e a PIDE

Mariana Mortágua parece um desses ‘democratas’ que de democratas tinham pouco. Quando a vejo nos interrogatórios das comissões parlamentares, parece que voltámos aos tempos da PIDE.

Há quem goste muito desses espetáculos, eu acho-os deprimentes. Há quem os considere símbolos de um país civilizado, eu considero-os indignos de um país civilizado.

Refiro-me às comissões de inquérito na Assembleia da República e às respectivas transmissões televisivas. As pessoas que lá vão são colocadas em situações degradantes, vexatórias. Sofrem verdadeiros exercícios de humilhação pública. Que os humoristas de serviço ainda potenciam, colocando repetidamente no ar as suas imagens e ridicularizando-as de forma patética.

Quando foi ao Parlamento, Joe Berardo respondeu aos deputados de uma forma considerada arrogante, displicente ou mesmo de escárnio. As suas declarações provocaram escândalo e praticamente toda a gente lhe caiu em cima. Pois eu acho que, no lugar dele, talvez tivesse feito pior.

Certo dia fui ouvido numa dessas comissões. Uma comissão criada para esclarecer o processo Face Oculta. Julgo que a sessão (televisionada em directo) correu de um modo geral bem. Mas a dado passo, enquanto eu falava, um deputado começou a fazer comentários a meia voz. Parei de falar e olhei para o deputado. Ele calou-se mas, quando recomecei a falar, os comentários regressaram. Calei-me outra vez. O moderador da sessão – o deputado Marques Guedes, uma pessoa corretíssima – interpelou o colega, explicando-lhe que estava a perturbar o orador. Mas ele respondeu que eram ‘apartes’ e, como tal, tinha todo o direito de os fazer.

A sessão continuou. Quando ele voltou aos ‘apartes’, suspendi as declarações. Disse-lhe que, se ele continuasse a falar, eu não prosseguiria. Perante isso, o homem calou-se.

Admito que, se eu estivesse no papel de Berardo, a partir de certa altura tinha-me recusado a continuar a responder às perguntas.  Não estão em causa as culpas do empresário madeirense, que são enormes. A questão é que, a partir de certa altura,  o interrogatório começou a assumir inquietantes contornos pidescos. Alguns deputados – entre os quais se distinguiam Cecília Meireles e Mariana Mortágua – faziam as perguntas de uma forma intimidatória, como se estivessem a tentar arrancar à força uma confissão a um criminoso.

Mariana Mortágua é filha de um revolucionário – Camilo Mortágua – que conheci no fim dos anos 70, quando eu estava a fazer para a RTP uma série chamada Os Anos do Século. A entrevista foi muito civilizada, eu fazia-lhe as perguntas delicadamente, ele respondia pausada e vagarosamente. É esta a ideia que conservei desses momentos. 

Dizia-se que o homem, no exercício da sua ação política como militante da LUAR, praticara alguns crimes do foro comum – mas tudo isso era ‘desculpado’ por se enquadrar na chamada ‘luta antifascista’.

Nessa altura, todos os lutadores contra o Estado Novo, para além de ‘antifascistas’, eram rotulados de ‘democratas’. Ora, de democratas, alguns não tinham nada. Os militantes comunistas, por exemplo, eram tudo menos democratas: celebravam a Rússia soviética e totalitária, e conservavam uma enorme devoção por Estaline. Cunhal era conhecido pela sua total fidelidade a Moscovo – da qual, aliás, nunca se curaria.

Mariana Mortágua parece um desses ‘democratas’ que de democratas tinham pouco. Quando a vejo nos interrogatórios das comissões parlamentares, parece que voltámos aos tempos da PIDE – em que os algozes de hoje são as vítimas do passado.

Há quem a ache muito boa, muito bem preparada, muito incisiva.

Também alguns agentes da PIDE que faziam os interrogatórios estavam muito bem preparados e eram muito incisivos – mas o seu trabalho era abominável. E é assim que eu vejo Mariana Mortágua. Se pudesse, torcia a cabeça aos que interroga – passe a imagem. Com uma expressão aparentemente calma mas feroz, sujeita as vítimas a interrogatórios onde as perguntas soam a acusações. Humilha-os, menoriza-os, encosta-os à parede.

Faz-me pena ver pessoas que em muitos casos poderiam ser seus pais naquela situação vexatória.

Mariana Mortágua é ainda muito jovem – mas parece ter acumulado dentro dela uma dose de raiva que vem à tona naqueles momentos. 

Há quem nasça para viver a sua vida e quem venha ao mundo para vigiar os outros e os interrogar – caso esteja numa posição de vantagem e o regime lhes dê cobertura. O regime dá cobertura a Mariana Mortágua e ela mostra a sua verdadeira natureza.