Opiniao

Cuidado com os autocolantes

Por razões várias que não serão difíceis de adivinhar, sempre tive uma propensão especial para adquirir livros em promoção. Acontece que esses livros trazem frequentemente na capa autocolantes vistosos que chamam a atenção para a baixa de preço. Durante alguns anos, assim que chegava a casa tirava de imediato esses autocolantes, porque achava que todo aquele espetáculo retirava ao volume em causa alguma dignidade. Depois, comecei a deixá-los ficar, mais não fosse para lembrar a mim próprio o belo negócio que tinha feito.

Há dias peguei numa dessas pechinchas que estava guardada há uns bons oito anos, à espera do momento certo. Um clássico americano – O Imenso Adeus, de Raymond Chandler. Olhando para a capa, achei que o autocolante redondo com o preço escarrapachado era um corpo estranho e fazia o livro parecer um produto de refugo comprado a preço de saldo. Comecei a retirá-lo cuidadosamente com a ponta da unha – a extremidade levantou, mas pouco consegui avançar. Com o passar dos anos o autocolante tinha-se agarrado como uma lapa ao hospedeiro e o papel desfazia-se com demasiada facilidade. Voltei a tentar com o maior cuidado, mas a cada tentativa retirava menos do que na anterior. Àquele ritmo eu iria demorar quase tanto tempo a remover o autocolante como a ler o livro. Além disso, a cola estava tão agarrada que, ao sair, iria inevitavelmente levar consigo qualquer coisa da capa. O que fazer?

Fui consultar o Google para perceber se havia alguma maneira de resolver o problema. A pesquisa remeteu-me para um vídeo no Youtube: uma jovem brasileira – que não tinha propriamente aspeto de intelectual – mostrava como separar os autocolantes dos livros com a ajuda de um secador de cabelo. Parecia fácil. Embora fosse bastante tarde, fui buscar o secador. Liguei-o no máximo durante um minuto. Obviamente não resultou. Temendo estragar o livro irremediavelmente, voltei a recorrer ao método milenar da raspagem com a unha do indicador. Os resultados eram limitados, mas seguros.

Quando me fartei – ou percebi que não conseguia avançar mais - peguei num esfregão da loiça húmido. Era um risco, mas já tinha resultado noutros casos.

E foi assim que consegui remover na totalidade o autocolante incómodo e resiliente que estava a desfigurar a capa d’O Imenso Adeus e a deixar-me vagamente nervoso. Mas já não me livrei de uma marca irritante que lá ficou a recordar-me que o livro foi comprado a preço de saldo. A cola estava tão agarrada que, no limite superior do autocolante, levou consigo a fina película de plástico que protege a capa e lhe dá um acabamento acetinado.

Terminada a operação, de cada vez que pego no livro para o ler sinto crescer em mim a vaga esperança de que seja apenas um pedaço de cola que ainda ali ficou preso e acabará por sair. Sinto-me tentado a raspar mais um pouco e ainda passo lá com o dedo. Mas sei por experiência que tudo o que fizer daqui em diante só vai aumentar os estragos. Às vezes é melhor ficar quieto.