Olhar ao Centro

A (in)gratidão em política

Normalmente, muitos daqueles que mais usam e praticam a ingratidão em política são os menos dados a grandes ‘feitos’ na coisa pública, sobretudo em relação aos projetos, às propostas e relações pessoais estáveis

«Hoje em dia a internet é uma representação da nossa sociedade, tem tudo o que é de bom e tudo o que é de mau».

António Miguel Ferreira

A política é um exercício de uma ingratidão profunda? Talvez. Depende dos casos concretos em que tal pode ser considerado. Há casos e casos em que não deve deixar de ser assim qualificado, quando de forma baixa, torpe, canalha, velhaca, mentirosa se põe em causa quem de forma coerente e abnegada tem resultados e provas dadas no trabalho em prol da coisa pública. Onde, através da sua ação governativa, parlamentar, autárquica, cívica, associativa, o impacto do seu trabalho é esmagadoramente reconhecido como positivo, a nível nacional, distrital, regional e local.

Noutros casos tal assim não é considerado, sobretudo, pelos nulos ou fracos resultados e provas dadas no exercício de funções de carácter público e/ou partidário. ‘Em política não há gratidão’ - esta expressão de forte carga política tem servido para quase tudo durante muitos anos. Desde logo para caucionar traições, ataques no espaço partidário e mediático. Depois, para servir de desculpa para quem pratica a ingratidão como forma mais rápida para afastar colegas de partido político, de funções partidárias, políticas e públicas.

Normalmente, muitos daqueles que mais usam e praticam a ingratidão em política são os menos dados a grandes ‘feitos’ na coisa pública, sobretudo em relação aos projetos, às propostas e relações pessoais estáveis. Normalmente, o seu alimento e suporte político maiores são um discurso retirado de alguns Media, assente na falsidade de uma pertença nova moralidade e nova ética. Alguns deles convivem bem com as suas próprias contradições em relação a isso. Por exemplo, são useiros e vezeiros na prática da ‘cunha’. Sim, dessa quase instituição nacional que é a ‘cunha’. A cunha é a pressão para empregos para filhos em instituições respeitadas públicas e privadas, a cunha para autorizações especiais para colegas de partido assumirem candidaturas políticas que a serem vencedoras lhes permitem tirar proveito familiar e financeiro. Já para não referir outras coisas bem mais feias nos seus universos partidários, que são reveladoras da sua incoerência no exercício da dialética discursiva relativamente às suas qualificações muito gelatinosas em relação à ética e à moral na vida pública. Alguns deles nem merecem que se perca tempo a explicar-lhes várias noções elementares, por exemplo, do Estado de direito democrático, da separação de poderes, das relações dos Media com o poder, da anatomia do poder e da sua relação com os vários poderes fácticos, do direito penal e processual penal. Porque ou é perda de tempo - porque não têm condições para entender e valorizar tudo isso -, ou porque, estando tanto de má fé, há muito tempo que deitaram tudo isso para o caixote do lixo.

Aliás, deve ou não existir (in)gratidão na política? É impossível não existir. Porque a política é entendida por muita gente como um meio para destaque e diferenciação social. Já para não falar economicamente. E com o clima em que vivemos nas redes sociais e no espaço mediático, numa sociedade que não respeita o silêncio, que cada vez mais faz escárnio do passado (ter memória e falar do passado é cada vez mais algo que cheira a mofo) e que vive a correr (mesmo com a fadiga informativa que aumenta todos os dias), a gratidão é um bem cada vez mais escasso. Mas, atenção, já não só na política. Mas também noutro tipo de atividades e relações humanas.

Nas relações profissionais, nas relações familiares, nas relações de falsa amizade, etc. Este é um tema que normalmente os que deviam ser gratos e respeitadores não gostam que se aborde. Porque sabem que o exercício e a força da sua prática serão um dia a sua fraqueza. Isto se tiverem tempo para fazer alguma ‘coisa de jeito’ na coisa pública. Porque normalmente são bons a cacicar, são bons nos bastidores, mas péssimos na ação reflexiva, discursiva e nas relações humanas estáveis. Mas voltaremos ao tema. Com o aprofundamento do tema. Até porque vivemos tempos em que o generalismo e o estado de amnésia em relação a muitas coisas da vida coletiva, cívica e associativa é grande demais. Mesmo que nos queiram impor o politicamente correto - que é não falar deste tipo de coisas.

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