Viver para Contar

O poder do futebol

A vida não é possível sem ‘emoções’. Sem algo que regularmente nos toque cordas sensíveis, nos mexa com os sentimentos, nos faça vibrar. É isso que explica o poder da paixão – a forma extrema do amor –, que faz os homens esquecerem tudo, que os enlouquece, a ponto de serem levados a matar.

Numa sociedade estandardizada, onde as emoções são escassas, onde o dia a dia é rotineiro e monótono, o futebol proporciona aos adeptos emoção a rodos.

Muita gente, em todo o mundo, escreve há mais de um século sobre o poder do futebol.

Tenta explicar a capacidade de atração deste desporto, as paixões que desencadeia.

A explicação mais imediata é a comparação de um jogo de futebol a uma batalha.

Em todas as épocas da História os homens se guerrearam. Sejam guerras entre países, entre clãs, entre grupos rivais, entre famílias. E a par destas guerras a sério, também sempre houve simulações de guerras, imitações de conflitos, encenações de batalhas. Os torneios medievais mais não eram do que isso: encenações de batalhas para treino dos cavaleiros e gáudio dos espectadores. E onde às vezes até aconteciam mortes a sério, como a do pobre rei Henrique de França, marido de Catarina de Médicis.

Nos tempos modernos, esse papel passou para o futebol. Cada jogo de futebol é a simulação de uma batalha. Estão guerreiros de um lado e doutro, e cada um dos lados representa um grupo, um clube – como se fosse um país. E os cidadãos estão nas bancadas a puxar pelo clube que lhes enche o coração, como se estivessem a puxar pela pátria.

É esse facto de corresponder a algo que sempre esteve presente na História do homem que explica parcialmente a gigantesca popularidade do futebol. Simular batalhas, apurar vencedores e vencidos – e no fim definir um campeão. Às vezes diz-se: «É apenas um jogo…». Mas todos sabem que não é verdade: nesse jogo está presente muita coisa – impulsos profundos, frustrações, ambições, necessidades reprimidas...

Apesar de muito já se ter dito sobre o futebol, há uma coisa que nunca vi escrita e que é talvez o mais importante de tudo.

Todos os seres humanos, para terem motivação para viver, precisam de duas coisas: ‘emoções’ e ‘objetivos’.

A vida não é possível sem ‘emoções’. Sem algo que regularmente nos toque cordas sensíveis, nos mexa com os sentimentos, nos faça vibrar. É isso que explica o poder da paixão – a forma extrema do amor –, que faz os homens esquecerem tudo, que os enlouquece, a ponto de serem levados a matar.

Por outro lado, a vida não é possível sem ‘objetivos’. Uma pessoa sem objetivo nenhum na vida, sem nada para alcançar, sem alguma coisa por que lutar, estiola e morre. Perde a motivação para viver, para se agarrar à vida.

Ora, são exatamente estas duas coisas que o futebol oferece às pessoas: emoção e objetivos.

Numa sociedade estandardizada, onde as emoções são escassas, onde o dia a dia é rotineiro e monótono, o futebol proporciona aos adeptos emoção a rodos. Antes, durante e depois dos jogos.

Antes, é a expectativa, os nervos à flor da pele antevendo o que se vai passar no jogo; durante, são as tensões levadas ao rubro, os golos, as defesas dos guarda-redes, os falhanços clamorosos dos avançados, as entradas violentas que arrancam apupos; depois, é o saborear a alegria pela vitória ou tentar esquecer o desgosto pela derrota.

Antes, durante e depois o futebol oferece aos adeptos emoções para todos os gostos.

Por outro lado, as sociedades contemporâneas, dando tudo às pessoas, deixam pouco espaço aos objetivos. A maioria dos cidadãos tem as necessidades básicas resolvidas – a habitação, a alimentação, a saúde — e acaba por não ter muito por que lutar.

Assim, muitos cidadãos deixam de ter grandes objetivos e perdem capacidade de combate, tornam-se amorfos.

Ora, a estes, o futebol oferece objetivos domingo a domingo, quando não também a meio da semana, para competições ‘extra’ campeonato. Semana a semana, o adepto do futebol tem sempre algo a alcançar. Há sempre um adversário a vencer no campo ou a ultrapassar na classificação.

Numa sociedade onde as rotinas se instalaram e muitas emoções se perderam; numa sociedade onde as necessidades básicas estão satisfeitas e os objetivos a alcançar se reduziram, o futebol oferece aos indivíduos grandes emoções e objetivos claros e precisos.

Daí as terríveis paixões que desperta, as multidões que arrasta, os dinheiros que movimenta, sendo uma das grandes indústrias do nosso tempo.

Emoções e objetivos – é isto, muito simplesmente, que o futebol oferece a cada pessoa.

É pouco?

Para muitos seres humanos, é o necessário para os manter vivos. Sem emoções nem objetivos, andariam cá a fazer o quê?