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Montijo: um aeroporto de vistas curtas

A decisão sobre a construção de um novo aeroporto na zona de Lisboa já está tomada. Tudo foi meticulosamente montado para que a solução do Montijo se tornasse (quase) inevitável. Os argumentos, os fatores críticos considerados e o processo de decisão foram tomados ‘à medida’ de uma escolha antecipadamente feita.

Um dos argumentos utilizados para precipitar a decisão foi a urgência em responder à saturação do aeroporto Humberto Delgado. Com efeito, a procura é crescente e o atual aeroporto já esgotou a sua capacidade de resposta em condições adequadas. Mas vale a pena recuar no tempo para recordar que a intenção de construir um novo aeroporto remonta a 1969. Em 50 anos o país não foi capaz de planear, consensualizar e decidir a inevitável construção de um novo aeroporto para Lisboa.

A urgência agora referida serve para justificar uma solução apressada, mas que está longe de corresponder a uma solução ponderada, assente num planeamento estratégico de desenvolvimento no longo, ou sequer, médio prazo.

A solução Montijo foi apresentada como uma solução para ter uma longevidade de cerca de 30 anos. No entanto, foram apresentados estudos que apontam para a saturação, tendo por base previsões internacionais de evolução da procura para Lisboa, no prazo de 10 a 15 anos. O que está em causa é a construção de um novo aeroporto – sem capacidade de expansão – para ficar esgotado num prazo demasiado curto.

O novo aeroporto do Montijo não terá condições para receber todo o tipo de aviões – nem aviões de grande porte de passageiros, nem aviões de carga. Será um aeroporto com a operação limitada.

A ligação do novo aeroporto a Lisboa assenta no transporte fluvial e, complementarmente, na utilização rodoviária da ponte Vasco da Gama. Não é realista pensar que o transporte fluvial seja a solução cómoda e eficaz que tem de ser assegurada e o transporte rodoviário na ponte comporta um risco de fiabilidade em virtude das características deste modo, além da degradação das condições de circulação normal na ponte e respetivos acessos.

O problema ambiental também parece ser desvalorizado. No entanto é significativo o ruído que afetará diretamente cerca de 50 mil pessoas que serão prejudicadas no descanso e na saúde, bem como o impacto na importante reserva natural do estuário do Tejo com uma concentração única no mundo de diversas espécies de aves que constituem um ecossistema que será seriamente prejudicado.

Também a questão da segurança não foi devidamente estudada e considerada face ao risco de colisão dos aviões com as aves existentes.

Por fim, o pressuposto de o aeroporto Humberto Delgado aumentar o atual número de movimentos para sustentar a viabilidade da solução Portela +Montijo. Ora, tal significa o aumento do ruído e poluição que afeta toda a população de Lisboa, bem como a degradação das já fracas condições oferecidas pelo aeroporto aos utilizadores.

Tudo isto é inevitável? Não. As alternativas estão estudadas e não se compreende como não foram comparadas de forma séria.

Deveria ter sido efetuada uma avaliação ambiental estratégica que tivesse em conta o desenvolvimento regional e que comparasse alternativas e solução a adotar deveria ter capacidade de desenvolvimento no longo prazo.

Mas, sobretudo, era necessário ter uma visão para o desenvolvimento económico do país e assentar as decisões, não na conveniência e pressão de uns, mas no estudo, planeamento e no interesse nacional.

Lisboa e Portugal precisavam de um aeroporto moderno, com boas condições, que se afirmasse no contexto internacional e deste modo não terá.