Opiniao

Tancos: quem sabia o quê?

O roubo de tancos e a devolução das armas é uma história até hoje muito mal contada.
A versão oficial é que o armamento foi roubado durante um jogo de futebol, quando os militares estavam distraídos a ver TV, e que a devolução foi negociada com um marginal que escondeu as armas num barracão da avó – até serem enterradas na Chamusca.
Ora, esta história não tem pés nem cabeça.
Como já escrevi, quem rouba armas, algumas pesadas, de uma base militar, não é para depois as vender na feira ou numa loja de ferro velho.
Quem rouba material militar já tem, em princípio, compradores e um esquema montado para o fazer desaparecer.

Daí eu pensar que as armas roubadas desapareceram de facto – e que as armas devolvidas são outras.
Foram buscá-las a outro paiol (talvez Santa Margarida) e levaram-nas para ali, para simularem uma devolução.
A partir do momento em que as armas aparecessem, o caso ficaria encerrado.
Em apoio desta ideia, está o facto de ter aparecido uma caixa de munições a mais.
Esta caixa veio de onde?
E, donde veio esta, terá vindo todo o outro material ‘recuperado’.
Também não é crível que o roubo tenha sido feito de uma vez só.
Eram muitas caixas, pesadíssimas, faziam um grande volume e não cabiam num camião.
Teriam de ser transportadas em vários carros.
É muito mais plausível, pois, que tenham sido roubadas e transportadas ao longo de vários dias; o dia apontado para o roubo é aquele em que deram pelo seu desaparecimento.
Portanto, e em conclusão, a base de Tancos foi vítima de desvios de armas durante algum tempo – e quando se deu pelo caso e a notícia rebentou com estrondo os militares propuseram ao ministro a simulação de uma devolução, através do estratagema de irem buscar armas a outro lado.
Só que se enganaram e devolveram uma caixa de munições a mais…

Vamos agora ver quem sabia o quê.Já se sabe que o ministro Azeredo Lopes mentiu, pois aprovou a operação e disse depois que não sabia de nada.
Ora, se o ministro da Defesa mentiu, tudo o que os outros disseram pode também não ser verdade.
Por exemplo, o primeiro-ministro, António Costa.
É possível que o ministro da Defesa não tenha dito nada ao primeiro-ministro – mas é pouco crível.
Também o chefe da Casa Militar do Presidente da República sabia, e pode não ter dito nada a Marcelo Rebelo de Sousa – mas é pouco crível.

É pouco crível que um ministro assumisse a responsabilidade de dar luz verde a uma encenação de devolução de armamento militar e não falasse com o primeiro-ministro.
Como é pouco crível que o chefe da Casa Militar de Marcelo tenha sido informado e não o comunicasse ao Presidente.
De resto, ninguém percebeu a sua saída pouco depois do ‘achamento’ das armas.
Julgo, portanto, que Costa e Marcelo souberam o que se estava a passar.
A questão é outra: foram cúmplices da operação ou não?
Isto é: souberam e aprovaram a encenação ou não?

Aqui é que residem todas as dúvidas.  Olhando para as reacções de ambos, parece-me que tiveram posições diferentes no caso: António Costa terá fechado os olhos, Marcelo Rebelo de Sousa terá discordado.
Isto explica que o Presidente tenha sido desde o início quem mais se bateu para que o caso fosse esclarecido até às últimas consequências.
Enquanto Costa se esquivou, fingindo nada ter que ver com o assunto, Marcelo foi a Tancos, insistiu, não deixou esquecer o roubo, quis que se apurassem responsabilidades.
Esta diferença de atitudes explicará, também, os últimos acontecimentos.
António Costa está furioso com Belém, por achar que a Presidência o acusa de ter envolvido Marcelo no assunto.
E Marcelo Rebelo de Sousa está indignado por ligarem o seu nome ao caso, dizendo que «o Presidente da República não é um criminoso».

Resumindo, em minha opinião o que se passou foi o seguinte:
1. O roubo foi feito por várias vezes, ao longo de dias; 
2. O material roubado desapareceu e talvez tenha saído do país; 
3. Foram buscar material a outro paiol e simularam uma devolução;
4. O ministro da Defesa deu luz verde aos militares para a operação;
5. O primeiro-ministro foi informado mas disse para não o envolverem no caso;
6. O Presidente da República foi informado (talvez a posteriori) e discordou. Daqui ter-se batido depois pelo esclarecimento cabal do assunto.
Esta é a história que encaixa melhor nos elementos disponíveis.