Sociedade

Polémica do Sexta às 9 tem novo capítulo com carta aberta de Costa Oliveira a Sandra Felgueiras

Jorge Costa Oliveira escreve carta aberta a Sandra Felgueiras, onde diz não ter conhecimento de qualquer inquérito do MP à Lusorecursos, que tem a concessão de exploração de lítio em Montalegre, e nega ter tido qualquer influência na aprovação do contrato com o Governo. O ex-membro do executivo, agora consultor da empresa, faz ainda questão de sublinhar que conhece António Costa há 20 anos, mas que hoje nem são muito próximos.

O antigo secretário de Estado da Internacionalização, Jorge Costa Oliveira, que entretanto se tornou consultor da Lusorecursos – empresa envolvida na polémica do programa da RTP Sexta às 9 – escreveu uma carta aberta a Sandra Felgueiras.

O ex-governante começa por sublinhar, na carta a que o SOL teve acesso, que não tem conhecimento da existência de qualquer inquérito do MP à empresa Lusorecursos pela exploração de lítio em Montalegre.

“Mais um daqueles inquéritos que, ainda antes de existir ou ser anunciado, caem inadvertidamente na comunicação social, denegrindo pessoas e empresas antes de estas saberem ou haverem sequer sido ouvidas”, escreveu Costa Oliveira.

“E se o MP ou outra entidade pública entender que necessita do meu depoimento para esclarecer o que quer que seja, estou inteiramente disponível, como sempre foi meu timbre ao longo de uma vida dedicada essencialmente a servir a causa pública”, sublinhou, acrescentando o link para o seu perfil de Linkedin.

Para o ex-governante “a senhora jornalista Sandra Felgueiras, a coberto de apenas referir factos, omitiu imensos factos e informação relevante, desta forma transformando o que podia e devia ter sido uma peça séria numa peça no mínimo sensacionalista”.

Costa Oliveira elencou depois alguns dos passos pelos quais a Lusorecursos terá passado antes de conseguir a concessão de prospeção de lítio em Montalegre, garantindo que se cumpriram todos os trâmites legais e negou ter tido qualquer influência [devido à sua proximidade com o Executivo] na aprovação da concessão da empresa da qual era e é consultor.

Na carta, o antigo secretário de Estado fez ainda questão de explicar o seu percurso profissional, justificando assim por que foi contratado pela Lusorecursos.

“Noto que vivo e trabalho há mais de 25 anos no Extremo-Oriente, tendo sido contactado pela empresa para o fim indicado porque justamente alguns dos maiores operadores mundiais em refinação de lítio, armazenamento de energia e mobilidade elétrica se encontram na China, no Japão e na Coreia do Sul, países onde possuo vastos contactos fruto da minha longa atividade profissional na região (e não por ter sido Secretário de Estado da Internacionalização)”, sublinhou no longo texto.

“Para que não subsistam dúvidas, não falei com qualquer membro do Governo sobre o contrato de concessão. Em especial com o Secretário de Estado da Energia do anterior Governo [João Galamba] (…) que só conheci numa reunião em abril. E disse-o claramente à senhora jornalista”, garantiu ainda.

Costa Oliveira aproveitou a ocasião para se referir às questões ambientais, também levantadas durante o programa da RTP coordenado por Sandra Felgueiras, dizendo: “Foi explicado e reexplicado inúmeras vezes que o contrato de concessão sujeita o início de exploração à aprovação de um estudo de impacto ambiental (EIA); se este não for aprovado a concessão cai”.

O ex-governante sublinhou ainda que se “a senhora jornalista” o tivesse consultado “teria compreendido duas coisas importantes: (i) que nada de ilegal ocorreu neste processo e que a empresa tinha e tem direito à concessão porque cumpriu todos os requisitos legalmente previstos; (ii) que a única decisão que o Governo poderia ter tomado era a de atribuição da concessão”.

Por último, o antigo secretário de Estado fez também questão de se referir à expressão ‘grupo de amigos de António Costa’, usada para descrever a relação de Costa Oliveira com o primeiro-ministro.

“Sou amigo de António Costa desde os 20 anos, do tempo da Faculdade de Direito de Lisboa e das lutas académicas de então”, começou por explicar. “Apesar de as relações de amizade se manterem, a distância teve relevância e a minha vida levou um rumo que fez com que eu não tenha mantido qualquer especial relação nem com ele nem com os outros colegas do tempo da faculdade”, garantiu.

“Nunca fui sócio nem parceiro nem tive escritório conjunto com qualquer das pessoas que normalmente aparecem referidas como sendo do dito grupo [de António Costa]”, acrescentou, deixando ainda um recado a Sandra Felgueiras: “Percebendo que ajude a fazer peças sensacionalistas, convinha que a seriedade e a leitura da realidade a partir dos factos fosse feita sem ser só da boca para fora... Não é por a senhora jornalista gritar aos sete ventos que “o seu trabalho é sério” que o é. Só o será quando deixar de omitir factos relevantes, ouvir todas as entidades interessadas e fizer reportagens sem preconceitos”.

Sublinhe-se que o Sexta às 9 já estava envolto em polémica, mesmo antes da sua estreia na sexta-feira passada – após um período de férias que acabou por prolongar-se, o que também contribuiu para a controvérsia.

O arranque da nova ‘temporada’ do programa Sexta às 9 na RTP só aconteceu um mês depois do que estava inicialmente previsto, não tendo havido transmissão durante a campanha eleitoral que antecedeu as eleições legislativas. Mas nem por isso, ou talvez sobretudo por isso, a sua estreia no final da semana passada não fez esquecer a polémica em torno do programa nos últimos tempos, quando muito adensou-a.

No sábado, dia a seguir à transmissão do programa que voltou a pegar no tema da prospeção e exploração de lítio em Montalegre pela empresa Lusorecursos, o até agora secretário de Estado da Energia, João Galamba, também visado na peça do Sexta às 9, publicou um longo texto com várias e graves acusações ao programa da estação pública, a que Sandra Felgueiras veio depois responder.