Opiniao

Da proa à popa dos moliceiros

Exploram a ria os mercantéis, que fazem o tráfego da sardinha, os barqueiros que fazem os fretes marítimos, os rendeiros das praias que lhe aproveitam os juncais, os marnotos, que se empregam no fabrico do sal, os moliceiros, que apanham as algas, e finalmente os pescadores da Murtosa, que são os únicos a quem se pode aplicar este nome, e que entre outras redes usam a solheira, a rede de salto, a murgeira e a branqueira. Assim contava Raul Brandão, n’ Os Pescadores.

Já não é bem assim, mas pescadores ainda os há na Murtosa da escrita de Brandão, com suas bateiras de um homem só, ou de dois ou de três, ou chichorros, que levam bem mais, até aos oito ou nove, quase em número das companhas que se fazem ao mar e sobrevivem na arte da xávega em que os bois deram lugar aos tratores, até à rede e o pescado se darem à vista na rebentação, passando aí para a recolha pela força braçal de pescadores, varinas e crianças e quem mais houver no areal.

Mercantéis e, sobretudo, moliceiros também voltaram a haver, em número agora cada vez maior, na ria de Aveiro.
Nos canais da capital da beira litoral, desmastrados para deambularem por baixo das pontes aveirenses, mas também pelos braços da ria que vão até Ovar, pelo Bico da Murtosa, pela Cambeia, por Pardelhas, pelo Bunheiro. Estes são à moda antiga, com mastro e vela, mas agora acrescidos de motor, que os turistas não têm tempo para andar ao sabor do vento nem deixam espaço para se passar do castelo no topo da proa, pela amurada, até quase à popa, para dar à vara e fazer o moliceiro planar na água.

À conta do turismo e de Aveiro ter ganho fama de Veneza de Portugal, mestre António Esteves já voltou a não dar vazão às encomendas no seu estaleiro lá do sítio de Pardilhó, onde nasceu o poeta José Bento, que partiu faz semanas, e que Assis Pacheco também adotou.

E não faltam os ‘bota-abaixo’ no deslumbrante cais do Bico, que é como quem diz os ‘batismos’ dos moliceiros entregues às águas da ria, dando-lhes novo colorido com as proas e popas pintadas, com a arte e a criatividade brejeira do mestre murtoseiro José Oliveira e de outros seguidores ainda com nome por fazer.

Um dos últimos foi ‘O Presidente’ – numa homenagem ao atual inquilino de Belém e aos seus afetos – e lá está o Presidente num dos desenhos da proa, com um mapa de Portugal com as suas antigas províncias pintadas às cores e Marcelo a beijá-lo na zona em que a ria tem o seu máximo esplendor: na Murtosa.

E se vale a pena perder tempo, e ganhar alma, a contemplar aquela ria por onde navegam esses moliceiros. Que ria!