Política a Sério

Tempo de ‘causas’

O que estas pessoas não percebem é que estas ‘causas’ vão todas no mesmo sentido: a desresponsabilização individual. Os migrantes, os toxicodependentes, as mulheres que abandonam ou matam os filhos, são todos vítimas, não são responsáveis por nada. No limite, não há responsáveis – porque os próprios criminosos comuns também não têm culpa de o ser, pois nasceram na ‘pele’ errada ou a sociedade atirou-os para a marginalidade e o crime.

Um leitor, José Alberto Allen Lima, enviou-me por estes dias um curioso e-mail sobre uma apresentação a que assistiu, onde se defendia a tese de que cada época tem a sua ‘mania’.

Resumo a ideia, com algumas alterações.

Nos anos 50, a afirmação social fazia-se muito através do ‘emprego’ – e havia uma profissão em ascensão, a dos empregados bancários, gozando de boa situação financeira, vários privilégios (como uma cooperativa exclusiva) e um certo prestígio social.

Nos anos 80, a diferenciação fazia-se pelo ‘local’ de habitação. Viver no Restelo ou no Areeiro, por exemplo, era sinal de estatuto. Mas viver na Amadora ou na Margem Sul tinha o sentido oposto.

No ano 2000, as pessoas passaram a distinguir-se pelo ‘consumo’, e surgiu a obsessão pela roupa de marca. Todos, a começar pelas crianças, queriam usar roupa de marca. A coisa começou a declinar com a proliferação das contrafações: as falsificações eram tantas, que a maior parte da roupa de marca era falsa e o seu uso passou a ser sinal de ‘parolice’.

Em 2018 entrámos no tempo das ‘causas’.  As pessoas distinguem-se por terem ‘causas’. Causas ideológicas e causas ambientais.

Tudo hoje se transforma em ‘causa’. É a causa dos sem-abrigo, a causa dos toxicodependentes, a causa dos transexuais, a causa do aborto, a causa da eutanásia, a causa dos migrantes, a causa do chumbo escolar, etc.

Os sem-abrigo, os toxicodependentes, as mulheres que querem abortar, os migrantes são vistos como vítimas da sociedade – pelo que a sociedade tem a obrigação de as ajudar.

Aos sem-abrigo é preciso oferecer casas e emprego; aos toxicodependentes é preciso fornecer seringas e disponibilizar salas de chuto; aos que nasceram no corpo errado a lei tem de permitir a mudança de sexo cada vez mais cedo e o Estado tem de pagar a operação; às mulheres que querem abortar o Estado tem de oferecer condições condignas; aos doentes que querem morrer é preciso proporcionar uma morte suave; aos migrantes que são apanhados no mar é preciso dar acolhimento e condições de vida; às crianças que chumbam na escola e ficam traumatizadas é preciso deitar a mão e acabar com os chumbos.

E depois são as causas individuais, como a causa de Vuvu Grace, a causa de Joacine Katar Moreira, até a causa da mulher que deitou o bebé no lixo.

Algumas destas causas parecem ‘boas causas’. E muita gente bem-intencionada torna-se sua apoiante ou mesmo militante.

O que estas pessoas não percebem é que estas ‘causas’ vão todas no mesmo sentido: a desresponsabilização individual. Os migrantes, os toxicodependentes, as mulheres que abandonam ou matam os filhos, são todos vítimas, não são responsáveis por nada. No limite, não há responsáveis – porque os próprios criminosos comuns também não têm culpa de o ser, pois nasceram na ‘pele’ errada ou a sociedade atirou-os para a marginalidade e o crime.

E a par destas causas ideológicas vêm as causas ambientais. Que também têm tendência a tornar-se ideológicas. Porquê? Sobretudo porque Trump e os seus mentores contestam algumas das suas premissas e os EUA abandonaram o Acordo de Paris.

E também porque Bolsonaro ‘deixou arder’ a Amazónia.

Mas, ao mesmo tempo que os militantes das causas ambientais participam em manifestações contra o ‘desleixo’ climático, ou a favor da Amazónia, ou contra Trump, colaboram muito mais ativamente do que as gerações anteriores na destruição do planeta.

Porquê?

Porque os jovens de hoje poluem dez vezes mais do que os jovens de há 20 ou 30 anos. Além de consumirem muito mais, viajam muito mais. Não se contentam com umas férias na Costa da Caparica ou mesmo na Ericeira, em Sesimbra, na Nazaré ou em Moledo – fazem férias em destinos longínquos e exóticos: o Bali, o Vietname, o Cambodja, as Maldivas, a Austrália. Muitos jovens, mesmo de estratos baixos, procuram estes destinos – sem se preocuparem com os custos ambientais de viagens de avião para longas distâncias, com descolagens, aterragens e gastos tremendos de combustível.

Esses jovens ficam escandalizados se um fulano deitar no lixo uma garrafa de plástico em vez de a deitar no respetivo contentor. Mas depois consomem brutalmente e viajam loucamente, com os correspondentes custos para o ambiente.

Vivemos numa época cheia de mitos, fantasias e contradições.

Mas ai de quem os denuncie.

Porque os novos inquisidores estão atentos, apontam o dedo aos heterodoxos, aos politicamente incorretos, aos que revelam as contradições, as confusões de valores. Quais bispos fundamentalistas de um novo credo, perseguem os infiéis, os que não seguem a doutrina. É assim, em todas as épocas, com todos os detentores da ‘verdade’.

E são persistentes. Invadem as redações dos jornais e das TVs, batem-se pelas suas ideias. Mesmo comentadores encartados, com medo deles, evitam dizer abertamente o que pensam.

E vão ganhando posições. Veja-se o que Bloco de Esquerda já ‘ganhou’ desde que surgiu. E atrás de uma causa vem sempre outra, para manter a pressão.

Claro que chegará a altura em que uma gota fará transbordar o copo.

Vejo muita gente revoltada, indignada, inconformada. O fascismo surgiu como e porquê? Como reação ao comunismo e às ideias internacionalistas da revolução russa.

E esta onda de extrema-direita que cresce na Europa é devida a quê? É uma reação contra a ofensiva da extrema-esquerda nos últimos tempos, com a política de ‘causas’.

Isto não vai acabar bem.