Biblioteca Pessoal

As cartas muito pouco escandalosas de Henry Miller

Conhecido sobretudo como o autor da trilogia Sexus, Plexus e Nexus, o nome de Henry Miller (1891-1980) tornou-se praticamente sinónimo de escritos pornográficos.

Com Anaïs Nin (1903-1977), autora do famoso O Delta de Vénus, um conjunto de histórias sexualmente explícitas, passa-se algo de parecido – é vista como o expoente máximo da literatura erótica feminina. Miller e Nin conheceram-se quando ele foi viver para Paris, numa festa para a qual foi convidado pelo marido dela. E acabaram por tornar-se amantes.

Dados os respetivos currículos (por exemplo, o primeiro livro de Miller, Trópico de Câncer, foi banido dos EUA), poderia esperar-se que as cartas de Miller para Nin – publicadas entre nós pela extinta Difel em 1984 – estivessem cheias de revelações íntimas e de obscenidades. Nada disso.

Na realidade, nada há de escandaloso nestas missivas, que falam acima de tudo de sobrevivência e de trabalho. De sobrevivência – ou seja, de problemas de dinheiro, de pagamentos, de despesas, de dívidas, do preços das coisas – porque Miller tinha de fazer pela vida. Há muitas passagens reveladoras sobre as dificuldades que o afligiam e que tinha de ultrapassar, mas talvez nenhuma tão eloquente como a descrição de um périplo por vários canis em Hollywood, à procura de um cão para um amigo:_«Vi toda uma série de cães bonitos, optimamente tratados, muito mais bem tratados, evidentemente, do que os seres humanos. Um canil onde até eu poderia viver:_arrumado, quente, imaculado. Disse isso ao dono. Quase tive inveja
do cão!».

Quanto a trabalho, Miller descrevia nas cartas o que estava a ler e a escrever, quais os autores que o entusiasmavam, como ia evoluindo a feitura deste ou daquele romance.

«Vai tudo bem. O segundo livro [Primavera Negra] vai tomando forma. Apetece-me atirar-me a ele e assassiná-lo. Mas já gastei tanto tempo com ele. Ambiente dostoievkiano, não é? Comprámos uma panela e fizemos um cozido maravilhoso que deu para dois dias. Mesmo ao teu gosto».

Datadas dos anos 1931-1946, as cartas foram remetidas dos mais diferentes locais: Clichy (no Norte de Paris), Corfu (a ilha onde Miller esteve de visita ao seu amigo Lawrence Durrel) e várias cidades dos Estados Unidos, onde Miller regressou em 1940. «Só tenho ouvido imbecilidades desde que cheguei à América. E o facto de toda a gente ser boa, gentil, amável, decente, torna tudo ainda pior. Faz-me desesperar», escreve ele a Anaïs Nin.

Algumas das passagens mais interessantes destas cartas são sobre música e astronomia. Quanto a amor e paixão... só pela literatura.