Politica

Os desafios de recuperar e unir o PSD

Rio e Montenegro apostam na vitória à primeira volta. Mas estão preparados para uma segunda ronda. Já Pinto Luz conseguiu o objectivo. E destacados militantes adiantam quais as prioridades para o líder, seja quem for.

Os prognósticos fazem-se no fim do jogo. A frase futebolística serve para caracterizar o desfecho da noite eleitoral deste sábado nas eleições diretas no PSD. Mas há duas certezas. Primeiro, dois candidatos,  Rui Rio e Luís Montenegro, apostam numa vitória já hoje, mas se houver novo teste eleitoral,  estão preparados para uma nova ronda, prevista para dia 18. Segundo, o candidato Miguel Pinto Luz veio baralhar as contas aos seus dois adversários e já reclamou (num vídeo polémico) ser a surpresa da noite, passando para a etapa seguinte, num cenário em que nenhum dos concorrentes consegue 50% dos votos mais um e os militantes serão chamados novamente às urnas.

Ganhe quem ganhar, seja este sábado, seja no próximo, o novo presidente do PSD terá alguns desafios pela frente em dois anos de mandato. O SOL  ouviu alguns antigos dirigentes do PSD ou ex-governantes e o discurso converge no mesmo sentido: unir e recuperar o PSD, não permitir que o partido se feche em si mesmo e demonstrar que é a alternativa de poder, sendo que as  autárquicas de 2021 serão o grande teste do próximo presidente social-democrata.

Antigo ministro da Indústria de Cavaco Silva, Mira Amaral argumenta que o «desafio [para o próximo líder] tem de ser unir o partido para ter um excelente resultado nas autárquicas (...) Implica mobilizar o partido. Esse é o grande desafio desafio que o próximo líder vai ter», conforme explicou ao SOL.

Já  Silva Peneda, ex-presidente do Conselho Económico e Social, acredita que «a principal prioridade tem a ver com a análise» da atual situação do partido. «Hoje, o PSD tem uma flagrante ausência de quadros, a classe média afastou-se também do PSD e, portanto, a primeira prioridade é o PSD ser rejuvenescido e voltar a ter quadros profissionais competentes nas suas fileiras (...) e isso só pode ser feito se houver credibilidade por parte da equipa dirigente e do seu líder, sem isso vai ser difícil», advoga Silva Peneda, que dá alguma sugestões  para o novo mandato da liderança dos sociais-democratas. «O Conselho Estratégico Nacional é uma boa ideia e pode (...) ser muito mais desenvolvido, mas eu vou ao ponto de pensar (porque não) num modelo em que o líder do partido juntamente com os presidentes das distritais possam convidar personalidades profissionais, com a idoneidade pessoal consagrada, para participar nas reuniões a nível das comissões políticas distritais e nos plenários». A lista de propostas não termina por aqui. E o também membro do Conselho Estratégico Nacional (CEN) acredita ser  «vantajoso para o PSD ter um sistema em que houvesse primárias abertas a simpatizantes». Isto apesar desta solução ter de ser estudada e acautelar, por exemplo, que quem se registe como simpatizante do PS ( por exemplo) não o possa fazer no PSD.

Para Silva Peneda, este tipo de soluções serão necessárias porque «qualquer instituição que se fecha sobre si mesma, com o andar do tempo, deixa de ser útil». E faz, por fim, uma análise sobre o passado recente do partido, sem situar o problema numa liderança específica: «Julgo que o PSD, nos últimos tempos, tem-se fechado muito sobre si mesmo. A prioridade seria a de abrir o PSD a quadros, de voltar a ser o que já foi. Com certeza que ganhar as autárquicas é consequência desse trabalho», concluiu.

 

Alternativa sólida e bom senso no partido

Da Madeira, o antigo vice-presidente do Parlamento Guilherme Silva começa por dizer que é preciso «acabar com estas divergências internas que o partido tem vivido e perceber que o nosso adversário é o Partido Socialista», prometendo colaborar com o próximo presidente social-democrata. «Seja qual for o resultado estarei disponível para apoiar quem ganhou porque vamos entrar numa nova fase e é fundamental que haja uma pacificação».

Para o também antigo líder parlamentar social-democrata, «é  fundamental que exista uma alternativa ao PS. Não é desejável que tenhamos uma situação em que todas as soluções de Governo passam pelo PS. Isso não é desejável»

Por seu turno, o também ex-vice-presidente da Assembleia da República José Matos Correia acrescenta que o grande desafio eleitoral são as autárquicas de 2021. «A história ensina-nos, quer no PS, quer no PSD, que as autárquicas são alavanca para as legislativas».

O ex-deputado social-democrata sublinha que «o primeiro desafio que um partido, que teve o resultado que teve nas últimas eleições,  tem à sua frente é o de encontrar os caminhos para se afirmar como alternativa que, pelos vistos os portugueses não consideraram que fosse há três meses. Ficámos quase a dez pontos do PS, basicamente não cumprimos nenhuns dos objetivos que eram importantes para o PSD». Assim, o principal objetivo para o próximo líder é o de « encontrar os caminhos para se ultrapassar essa situação de dificuldade em que o partido se encontra. Isso exige o quê? a afirmação de uma alternativa clara ao Partido Socialista, e implica manifestamente a capacidade de se apresentar a uma só voz na apresentação dessa alternativa».

Matos Correia concluiu que o partido não pode ter um pensamento único, mas «tem de haver bom senso de quem lidera e também de quem é liderado».

 

Madeira é o caso das diretas

Nestas eleições diretas, em que existem 40416 militantes aptos a votar, o PSD terá de gerir um braço-de-ferro com o PSD/Madeira. Que contabilizou 2500 militantes nos seus cadernos eleitorais contra os 103 registados no sistema criado pela secretaria-geral do PSD nacional. A direção regional dos sociais-democratas inclui-se quase toda nesta lista. E há o risco sério dos seus votos serem considerados nulos porque o comprovativo de pagamento de quotas não foi feito de acordo com o regulamento da sede nacional.

O Conselho de Jurisdição Nacional já emitiu um parecer a lembrar que os regulamentos não preveem exceções, mas este caso pode ensombrar as diretas do partido. O líder e recandidato a presidente do PSD, Rui Rio, lembrou  que as regras são iguais para todos, enquanto Miguel Pinto Luz pediu «recato» à direção nacional sobre este caso, lembrando que o PSD/Madeira tem autonomia no processo. De realçar que entre os apoiantes de Pinto Luz está Rui Abreu, que já foi chefe de gabinete do líder regional do PSD/Madeira, Miguel Albuquerque.

Após o debate orçamental, Rio fez ainda questão de lembrar que se os 2500 militantes forem às urnas, na Madeira, quem cumpriu as regras da secretaria-geral nacional pode ficar «sem direito a votar»  porque todo o processo seria anulado na Madeira. O caso, no limite, pode ir para o Tribunal Constitucional e baralhar algumas contas: a Madeira pode ser decisiva para a vitória ou ficar fora da história destas diretas.

Entretanto, as eleições para a secção do PSD/Aveiro desta semana ficaram marcadas por uma nova polémica. Victor Martins venceu o ato eleitoral local por 39 votos de diferença, é  apoiante de Rio, mas o Observador noticiou que idosos de um lar foram transportados para a sede local para votar. O candidato tem ligações ao lar. Já a candidatura adversária de Luís Souto ( apoiante de Luís Montenegro) foi acusada de usar meios públicos para a campanha pela equipa vencedora.

 

Carreiras vs. Balsemão em Cascais

Vice-presidente da Câmara de Cascais, Miguel Pinto Luz tem como primeiro subscritor da sua lista de candidatos ao Congresso do PSD Carlos Carreiras, presidente daquele munícipio.  Curiosamente, o primeiro subscritor da lista afeta à candidatura de Rui Rio é Francisco Balsemão, militante número um do PPD/PSD_e pai da vereadora Joana Correia da Silva, número 3 na Câmara cascalense. Recorde-se que Filipa Roseta, que trocou a vereação em Cascais pelo lugar de cabeça de lista dos sociais-democratas por Lisboa nas últimas (e recentes) legislativas, a convite do líder Rui Rio, também está ao lado do atual presidente do partido nas eleições diretas que se realizam hoje. Já quanto a Joana Correia da Silva – sendo certo que não consta da lista de candidatos a delegados ao Congresso encabeçada pelo seu vice-presidente de Câmara nem da lista concorrente e afeta a Rui Rio, liderada pelo médico e deputado Ricardo Baptista Leite –, desconhece-se o seu posicionamento nesta guerra pela liderança do partido.

*com Luís Claro