Opiniao

Viajar nas asas do papel

Num cantinho da estante principal lá de casa existe um espaço reservado ao género epistolar. Não são muitos livros, é certo, mas são os suficientes para formar um pequeno núcleo coerente onde aparecem, entre outros, Virginia Woolf e Rainer Maria Rilke, com as famosas Cartas a Jovens Poetas; a Carta ao Pai de Kafka; as Cartas da Rússia do Marquês de Custine; as cartas de amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz; as cartas da guerra de Lobo Antunes; e até uma antologia de cartas de suicidas (Vou-me Embora, de Hugo Grashoff).

Por estes dias, o dito núcleo recebeu um reforço. Não se trata de um livro, mas de uma revista: um número do Magazine Littéraire cujo prato forte é justamente ‘As correspondências dos escritores’. O dossiê começa com uma conversa com o falecido Pierre Dumayet, conhecida personalidade da TV francesa. «Fiquei sempre um pouco agastado com o facto de as correspondências dos escritores serem, de forma mais ou menos assumida, objeto de uma certa desclassificação em relação às obras», diz-nos ele. «Esta distinção de valor esconde uma espécie de desprezo incompreensível. Uma correspondência cruzada de escritores é uma máquina capaz de nos fazer assistir, por exemplo, a uma conversa entre Flaubert e Bouilhet [poeta e colega de escola do grande escritor], ou Sand, Tourgueniev, Goncourt. É um pouco como se bastasse carregar num botão para os ouvir conversar».

Bela tirada! Mas há muito mais neste número do Magazine: uma fascinante viagem pela história das cartas, mensagens e serviços postais, começando na velha Babilónia; e uma série de textos ‘monográficos’ dedicados a temas como as tabuinhas (antepassado da folha de papel) de Cícero, a correspondência amorosa de Heloísa e Abelardo, a circulação de cartas no século de Luís XIV, o ‘nascimento da intimidade’ no século XIX, etc., etc.

Em termos de riqueza do conteúdo, julgo que estamos conversados. Porém, a revista guardava-me ainda uma boa surpresa no final. Uma entrevista com André Miquel, especialista na literatura árabe e autor da tradução francesa das Mil e Uma Noites que recebi há uns anos pelo Natal. Nessa entrevista fiquei a saber que a paixão de Miquel pela cultura árabe lhe ficou de uma viagem à Tunísia, Argélia e Marrocos que recebeu como prémio de um concurso de geografia em 1946. Que obteve uma bolsa para estudar árabe em Damasco em 1953, e que aproveitou para viajar pela região. «Podia-se passear por todos os países do Próximo Oriente em perfeita tranquilidade. Ia-se ao Iraque num autocarro que atravessava o deserto». Idílico? Nem por isso. Em setembro de 1961 Miquel foi detido no Cairo e acusado de espionagem. Esteve preso durante cinco meses e foi sujeito a interrogatórios «musculados». Quando saiu do cativeiro, as coisas eram «perfeitamente claras»: iria fazer uma carreira académica e dedicar-se à investigação. A sua tradução das Mil e Uma Noites é o corolário dessa carreira singular.

Pois bem, começámos a falar de cartas e acabámos no Oriente, com as suas maravilhas e horrores. É que as palavras têm este tom: viajam nas asas do papel e levam-nos com elas para sítios inesperados.