Opiniao

Quando o que os preocupa é o Megxit

A campanha do HSBC chegou a gerar polémica, mas os ingleses estão hoje muito mais preocupados com o Megxit do que com o Brexit

Se os ingleses tivessem sido tão rápidos a cumprir o Brexit como o Museu Madame Tussaud foi lesto a separar Harry e Meghan da Família Real inglesa após a renúncia do casal ao principesco estatuto, Boris Johnson provavelmente não teria chegado a primeiro-ministro nem hoje a sua figura de cera estaria ao lado da de Donald Trump no segundo edifício mais famoso na nobre zona de Baker Street.

Apesar de Isabel II já ter dado o seu assentimento à decisão dos duques de Sussex, minimizando com invulgar eficácia o impacto negativo do anúncio da cisão familiar, o tema do Megxit – para utilizar o termo logo inventado pelos sempre criativos tablóides ingleses – continua a dominar as capas dos jornais e das revistas e os noticiários televisivos.
Porque na Velha Albion a tradição ainda é o que era. Basta constatar a impressionante multidão – de milhares de turistas mas também de devotos súbditos –  que se acotovela junto ao gradeamento do Palácio de Buckingham, na rotunda frontal do Victoria Memorial e nas laterais da enorme avenida que rasga o jardim de St. James para assistir ao tradicional render dominical da Guarda Real.
A ‘concentração’ impressiona até mais do que o centenário cerimonial.
A verdade é que, apesar dos percalços e dos avanços republicanos, a monarquia continua bem sólida e enraizada no povo inglês.
Sente-se. Vive-se. Eles – os ingleses – seguem a Família Real, nos seus dramas, nas suas crises, nas suas alegrias, nas suas conquistas.
É impressionante.

Tão impressionante como Londres. Que surpreende a cada visita. Já era assim antes, continua a ser assim durante o Brexit, há de continuar a ser assim depois.
Pela pujança económica, pelo cosmopolitismo, pela prosperidade, pelo ritmo de vida – o frio (será só o frio?) faz com que os londrinos andem sempre em passo acelerado –,  e, até, acreditem, pela simpatia (então não é que parece que perderam a snobeira e estão bem mais sociáveis, prestáveis e afetivos?).
E toda a gente convive com naturalidade com a presença quase permanente de agentes de segurança fortemente armados, com as câmaras de vigilância espalhadas um pouco por toda a cidade, com os acessos cortados em ruas e locais estratégicos, com os blocos de metal impedindo a circulação automóvel nas laterais pedonais das principais pontes. 
Consequências dos vários atentados dos últimos anos que continuam bem presentes. Basta falar nisso para se perceber o receio que causam em qualquer um.

Muito maior do que os medos do Brexit. Diga-se o que se disser, ingleses e não ingleses residentes em Londres não parecem estar minimamente preocupados com o que o futuro lhes reserva fora da Europa comunitária.
Se estão, não dá para perceber. Pelo menos pelos sinais públicos, a tão poucos dias da histórica data de saída (31 de janeiro).
A vitória de Boris Johnson e a clamorosa derrota dos trabalhistas de Jeremy Corbyn não deixaram qualquer dúvida nem motivam já grandes conversas. Nem debates. Nem parangonas. Que hão de voltar.
Mas, para já, nem os ingleses perdem muito tempo com o assunto, nem os imigrantes europeus: sejam polacos (que fazem da sua a segunda língua mais falada no Reino Unido), sejam portugueses, que os há também cada vez em maior número (e já se ouve o português frequentemente nas ruas, nos corredores do Metro, nos autocarros, nos restaurantes, nos bares e nos cafés, como também são cada vez mais comuns os pastéis de nata – estão a espalhar-se por todo o lado e até já há uma loja especializada, de portugueses, claro, em pleno Soho).

Atente-se, aliás, na curiosa campanha de um conhecido banco inglês, bem visível nos cartazes publicitários do Metropolitano de Londres: «Se nasceste num sítio, cresceste noutro, mas agora vives noutro completamente diferente, DE ONDE ÉS? Complicado. Talvez a melhor pergunta não seja de onde és, mas onde te sentes em casa? Não somos uma ilha, somos a casa de muitos mais».
A campanha gerou polémica (chegou a ser conotada com o movimento anti-Brexit, além de ter tido outras leituras menos abonatórias), mas continua nas paredes do Metro londrino. Ficou a mensagem. Mas também os problemas, que são reais.
Só que a polémica que interessa agora é o Megxit – ou, como diria o outro, ser ou não ser príncipe, eis a questão.