Opiniao

Os simples

Simplicidade é a regra.
Perde quem não conseguir transmitir sem complexidade a mensagem política.
Há uma certa preguiça no eleitorado, as pessoas não têm paciência para explicações muito elaboradas.
Portanto, o Governo, qualquer Governo, é responsável pela escolha dos caminhos, das justificações, da decisão.
Há governos hábeis e inábeis.
Há oposições atentas e distraídas.
Conheço um Governo da explicação simples. É feliz.
Principalmente porque ninguém, com igual eficácia, o põe em causa, torna visível o absurdo.
De um lado a ligeireza simples, do outro a inexistente denúncia assassina.
Exemplos vários se recordam.
O inefável ministro do Ambiente, perante o dantesco cenário das cheias do Mondego, da incúria do Estado, da desconsideração da obra e das pessoas, exprime a absurda conclusão.
Se o rio ameaça as localidades, mudam-se de sítio as áreas habitadas, levam-se as populações a um ‘pogrom’ imperioso, deixa-se que tudo aconteça porque sim.
Manteve, o ministro, um bom ambiente. 
Discutem-se agora os valores do prejuízo.
A solução vai perder-se no tempo.
Simples foi a comunicação do ministro.
Uma secretária de Estado, a da difícil saúde, tem uma frase lapidar.
Os utentes do serviço nacional de saúde confiam tanto nele que, apesar das dificuldades, não aderem a outro.
Ora aí está.
O cidadão escolhe entre ter dinheiro para outro serviço ou não poder esperar por aquele.
O cidadão espera, sem saber o que tem, quem o ouve, como se trata, quando é operado.
O cidadão morre ancorado na confiança.
Simples foi a opinião da secretária de Estado.
Outro ministro nega a denúncia dos elementos das forças de segurança. Não precisam de comprar o que lhes falta.
O Ministério providencia o necessário, os profissionais são mais exigentes e ambiciosos.
Quem dá o que tem, a mais não é obrigado.
Simples, a declaração do ministro.
Mais complexa parece esta outra questão.
O aeroporto do Montijo foi aprovado com condições.
São, agora se conhecem, 160 as contrapartidas ambientais.
Não pouco, portanto.
Sempre me interroguei quanto ao conteúdo do contrato com a ANA.
Certamente porque seja, eu, complicativo.
Mas a questão mais importante residia e reside no seguinte.
Se as contrapartidas ambientais têm um valor extraordinário, como se resolve?
O Estado é chamado ou a empresa adjudicatária da construção recusa?
O aeroporto vai à vida ou é construído?
O ministro Nuno Santos, chamado (agora) ao problema, fundamenta uma conclusão de eventual fracasso.
Na sua opinião, a atribuição à ANA da gestão dos aeroportos foi um negócio ruinoso.
Simples, portanto.
Se houver azar, ou recusa, a culpa é de outrem.
O cenário era conhecido, é certo. Mas isso não queria dizer nada.
O primeiro-ministro, sabidas as contrapartidas e o seu valor, esclarece de pronto.
Ou a ANA assume as suas obrigações, ou sai fora.
Isto é: ou sim, ou sopas.
Ou há, ou não há aeroporto.
Simples a declaração do primeiro-ministro.
Está aberto o caminho para não haver.
E, perante tudo isto, o que espanta não é a simplicidade.
O que verdadeiramente assusta é a incapacidade de somar dois mais dois, de abanar a modorra, de sacudir a permissividade.
Será assim tão difícil?