Opiniao

Mitos e perceções eleitorais erradas

«Dentro de qualquer cínico está um idealista desiludido».
George Carlin

Existem no nosso país alguns mitos e muitas perceções eleitorais erradas.
E não é de hoje. Sobretudo nas últimas duas décadas, ‘a bota não dá com a perdigota’, como o povo diz. Ou seja, no que respeita a vários tipos de eleições (sobretudo para a Assembleia da República), a ‘nata’ e a ‘fina flor’ de vários media, e muitos analistas e comentadores, entretêm o país com ideias como: o sistema partidário português vai estoirar, os novos partidos vão crescer exponencialmente e vão arrasar os mais clássicos, vai acontecer em Portugal o que aconteceu em países como a Itália, a França, a Grécia e nos últimos anos em Espanha. 
A narrativa tem em vista a diabolização de determinados partidos políticos e vários dos seus militantes e dirigentes. E, em simultâneo, a promoção descarada de outros partidos e sobretudo de determinadas pessoas. Tudo somado, alimenta-se uma espécie de mitos e de perceções eleitorais que, como temos comprovado, são claramente erradas. 
Aliás, ‘justiça’ seja feita a esses narradores oficiais da catástrofe da mudança, mesmo perdendo e enganando-se quase sempre, no dia das eleições imitam com grande descaramento o Dr. Álvaro Cunhal, que ganhava sempre, quaisquer que fossem os resultados. 

Isto tem acontecido muito em relação ao PSD. E não é de agora. No pós-cavaquismo, quem não se lembra dos prognósticos de que, com a liderança de Fernando Nogueira, o PSD ia perder metade do eleitorado? E com a liderança de Durão Barroso nunca ganharia eleições (Durão Barroso, de resto, ex-maoísta, nunca seria primeiro-ministro). 
Até muitos dos que hoje dizem que Passos Coelho é o líder natural da direita (extraordinário!...), quase o mataram mediaticamente com muitos mimos: aparelhista, sem verdadeira formação académica, sem estatura de estadista, perigoso esquerdista, sem experiência de vida – e muitos outros mimos que um dia recordaremos. Com Rui Rio é o que se sabe: pancada a cada segundo que passa, política de casos, criação e promoção de adversários internos, etc.

Nas recentes eleições legislativas, muita desta turma mediática corporativa vaticinou que o PSD não chegaria aos 20 por cento dos votos. O Partido Socialista e António Costa iriam ter maioria absoluta. O PSD ficaria em escombros. Nada disso aconteceu. 
Depois vieram as eleições diretas. Que para vários iriam ser o momento de viragem. O PSD teria de mudar para não morrer. Mas Rui Rio venceu. E volta a ouvir de tudo um pouco: que é a confirmação do desastre (coitados, não percebem que dentro do PSD, por serem tão ‘cristão novos’, e que já foram felizes e não sabiam, esse tempo não voltará mais), que o PS pode dormir descansado, etc. 
Há muitos anos que, dentro e fora do partido, defendo a necessidade de o PSD não deixar de acompanhar a realidade. Com vetores de atuação claros: expansão no país, sem ser por via da lógica partidária; aumento do número de filiados e simpatizantes fora dos circuitos do aparelho interno; incremento da formação política para os novos e antigos militantes, de modo a que o PSD não seja o ‘albergue espanhol’; forte intervenção interna e, sobretudo, externa, para que a relação com os portugueses e o país seja contínua e com uma agenda esclarecida e ativa.

POR OUTRO LADO, considero que, para a reforma e ‘atualização’ do nosso sistema político, devemos em várias sedes políticas e legislativas: 1) equacionar o voto obrigatório e/ou o voto premial; 2) fazer um código eleitoral que condense e sistematize todos os atos eleitorais e que reforce o direito eleitoral; 3) que se diminua o número de deputados, compatibilizando o atual sistema eleitoral com a eleição através de círculos uninominais; 4) que se tenha a coragem de rever as remunerações dos titulares de cargos políticos para o médio e longo prazo; 5) que se legisle no sentido de ser mais rápida a convocação dos atos eleitorais e a posse dos eleitos.

Para além disto tudo, faz todo o sentido que se equacione a possibilidade de divulgação de sondagens no período oficial das campanhas eleitorais, à semelhança do que acontece noutros países. Faço parte dos eleitores que gostam de analisar e de conhecer os estudos quantitativos e qualitativos, e considero-os muito importantes para a decisão política e não política. Respeito as sondagens. Quer quando são ‘boas’, quer quando são ‘más’ para mim e para a minha área política. E tenho sempre a curiosidade de tentar perceber alguns dos comportamentos de várias categorias eleitorais: os ‘duros’, os ‘indulgentes’, os ‘possíveis’, os ‘difíceis’, e sobretudo os ‘improváveis’. Que são quem destruiu muitos mitos e perceções eleitorais. Muitas delas erradas, como temos percebido. 

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