Opiniao

O país da eutanásia, cães galgos e racismo

Esta semana o país ficou a saber que um famoso toureiro, João Moura, viu serem-lhe confiscados 18 galgos que estavam famintos [...] O cavaleiro foi detido e desmente que tivesse maltratado os animais. Mas alguém acredita nisso? As imagens divulgadas pela GNR não deixam margens para dúvidas e são deprimentes.

1.O que se terá passado com o Governo para querer aprovar a eutanásia sem um referendo? Se a proposta estivesse no programa do PS não havia nada a dizer. Os eleitores tinham-lhe dado carta branca e falar de referendo seria até um pouco absurdo. O problema é que quem foge das consultas populares fá-lo com medo de perder nas urnas. Aqueles que a defendem, pensam precisamente o contrário. Com o aborto até se passou uma história mais curiosa. O primeiro referendo deu a vitória ao não, mas os derrotados insistiram tanto que se fez um segundo que deu, finalmente, a vitória ao sim.

Dizer-se que a questão da eutanásia não pode ser decidida pela maioria, caso houvesse o referendo, é um disparate total. Como já escrevi, votaria ‘sim’ numa consulta popular, mas é óbvio que o tema é dos mais fraturantes da sociedade portuguesa e, como tal, deve chamar-se os eleitores a votos. Repito, se o PS tivesse dito que a iria legalizar se ganhasse as eleições, ninguém poderia queixar-se de não ter sido avisado. Mas não foi o caso.

Quem mais uma vez não se saiu nada bem foi Rui Rio. O homem consegue transformar o fácil em difícil com uma habilidade estrondosa. E a ser verdade que o deputado Pedro Rodrigues - defensor dentro do partido de uma iniciativa legislativa que permitisse o referendo, contrariando a posição oficial do PSD - sofreu ataques de colegas devido à sua dependência com o álcool, é lamentável. 

Num testemunho impressionante, Pedro Rodrigues, que não esteve presente na votação, escreveu no Facebook: «Sim, tenho um problema com o alcoolismo [...]. Decidi hoje assumi-lo porque, além do sofrimento pessoal em que estou mergulhado, tenho sofrido ataques inaceitáveis». Se isto for verdade, é lamentável que colegas de partido utilizem argumentos tão baixos para vergarem uma opinião contrária.

Mas a votação da eutanásia provou mais uma vez que António Costa deve ter negociado muito bem o Orçamento do Estado, prometendo uma coisa aqui, outra acolá, aos diferentes partidos que o viabilizaram. É um verdadeiro mestre da política e acredito que fará mais este mandato sem grandes dificuldades. Não fosse a política o reino da hipocrisia.

2. Por norma, as imagens que nos chegam de animais famintos dizem respeito a a donos pouco instruídos e que são insensíveis ao sofrimento dos animais. Há também quem não tenha dinheiro para comer e, logicamente, também não terá para os cães. Mas esta semana o país ficou a saber que um famoso toureiro, João Moura, viu serem-lhe confiscados 18 galgos que estavam famintos. Um deles acabou por morrer no canil para onde tinha sido levado. O cavaleiro foi detido e desmente que tivesse maltratado os animais. Mas alguém acredita nisso? As imagens divulgadas pela GNR não deixam margens para dúvidas e são deprimentes.

Quando pessoas com alguma responsabilidade dão este triste espetáculo o que se pode dizer daqueles que não têm instrução nem dinheiro para cuidar dos bichos? Há pedintes que tratam muito melhores os seus cães de estimação do que o cavaleiro João Moura. 

3.Há pessoas que querem à força que Portugal seja um país racista. Não o é, apesar de ter vários mentecaptos que o são. Só que de tanto se falar no assunto, aqueles que estão adormecidos aproveitam a boleia e demonstram-no. Os partidos deviam ser bem mais contidos a achar que em cada esquina há um racista. E já nem digo que deviam pensar nos portugueses que estão em África. Há os portugueses negros que não sofrem tantas represálias, mas os brancos ficam em maus lençóis sempre que há um histerismo com episódios isolados.

vitor.rainho@sol.pt