Economia

Economia mundial treme com China

O impacto do coronavírus põe em causa as metas de crescimento. Também a escassez de produtos oriundos da China está a afetar empresas em vários mercados mundiais. 

 

A economia mundial pode tremer com o impacto que o coronavírus pode provocar à economia chinesa. A opinião é unânime juntos dos analistas contactados pelo SOL: «Sendo a China a segunda maior economia do mundo, o impacto do vírus nas economias mundiais poderá ser notável». E os problemas não ficam por aqui. «A escassez de produtos vindos da China está a afetar as empresas de vários países. Indústrias farmacêuticas estão a ser gravemente afetadas a nível de produção, bem como outras empresas que se viram obrigadas a fechar temporariamente as suas fábricas na China», refere ao SOL, o analista da Infinox Francisco Alves.

Uma opinião partilhada por André Pires, da XTB, ao garantir que o coronavírus surgiu numa situação já delicada da economia mundial e também fragilizada pela guerra comercial. «Não é difícil de admitir que o impacto deste surto põe em causa as metas de crescimento dos países. Não só a China, nem tão pouco apenas a Ásia, pois o efeito de estagnação e o clima de risco nos mercados financeiros propaga-se também para a Europa», afirma ao SOL, acrescentando que «o impacto da disseminação de um vírus resulta do comportamento preventivo da população e dos governos. As pessoas poderão evitar espaços públicos, as empresas interrompem atividades e os governos impõe controlo restrito às trocas comerciais, o que provoca um efeito de estagnação da economia».

E os números falam por si. Há estudos que preveem que o produto interno bruto (PIB) chinês poderá ser afetado em 3,5% no primeiro trimestre. Ainda assim, Francisco Alves reconhece que a previsão mantém-se positiva e, como tal, acredita que poderá não ser necessário levar a cabo as metas de crescimento, já que o analista prefere aguardar por uma recuperação no resto do ano.

O certo é que empresas como a Apple já anunciaram que não irão atingir as metas propostas para o primeiro trimestre deste ano devido às paragens de produção. «Sendo uma situação temporária é uma questão de tempo até voltar tudo à normalidade», diz o responsável ao SOL.

Os sinais de crise são também visíveis noutras situações. É o caso, por exemplo, da venda de automóveis que registou um tombo. «Começamos já a ter dados sobre esse impacto, como foi o caso, ontem, da divulgação da China de uma quebra de cerca de 90% nas compras de carros na primeira quinzena de fevereiro, o que indica um impacto na economia alemã», lembra André Pires.

 

Vem aí nova crise?

Ainda que os analistas contactados pelo SOL reconheçam que o risco de entrarmos numa nova crise é uma probabilidade baixa, garantem que a «economia global sofrerá um impacto notável». No entanto, lembram que a China tem acumulado grandes reservas monetárias nos últimos anos, para se proteger de situações de crise. «É previsível um impacto no PIB chinês, no entanto, a China tem aplicado grandes medidas de incentivo à sua economia que poderão mitigar fortemente esse impacto. A não ser que o surto degenere numa epidemia, não é provável que as empresas multinacionais desejem terminar as suas atividades no país nem (na minha opinião) que a China entre em crise», diz o analista da XTB.

A verdade é que a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI) já veio admitir que a previsão de 3,3% para o crescimento da economia mundial possa descer 0,1 ou 0,2 pontos percentuais devido à propagação do coronavírus. 

Ainda assim, Kristalina Georgieva garantiu que «é muito cedo» para se conseguir estimar com alguma precisão o impacto da propagação do vírus, admitindo, no entanto, que esta epideia terá consequências mais profundas nos setores do turismo e do transporte.

Também o presidente da Reserva Federal norte-americana, Jerome Powell, declarou que «haverá certamente implicações, pelo menos a curto prazo na produção chinesa». 

 

Portugal não sai incólume

Apesar do analista da Infinox admitir que o turismo português poderá ser afetado, acredita que a nível global não terá grande impacto na economia nacional. 

Menos otimista está André Pires, que reconhece que Portugal poderá sofrer um impacto nas suas exportações.

André Pires lembra ainda que «as condições económicas poderão ser mitigadas ou agravadas dependendo do impacto que o coronavírus vier a ter na Europa».