Opiniao

O drama de um snob

Como sempre acontece quando morre alguém conhecido, Vasco Pulido Valente tornou-se, depois da morte, uma figura consensual, amada e respeitada por todos. Antes, era detestado nos mais variados quadrantes (e ele fazia por isso, convenhamos). Depois, passou a ser um génio e um santo – independente, corajoso, brilhante. Os meus leitores sabem que nunca fiz parte desta cultura de bajulação dos que, por terem morrido, já não fazem mal a ninguém.

Sempre procurei dar dos que morreram retratos vivos, apresentá-los como pessoas reais, de carne e osso, com os seus defeitos e virtudes. Fui muitas vezes atacado por isso. Mas não sou capaz de fazer doutra maneira. Não cultivo a vingança nem a hipocrisia. Não me aproveito de uma pessoa ter morrido e já não poder defender-se para lhe bater – nem inversamente a bajulo por ter morrido.

Critiquei algumas vezes Vasco Pulido Valente em vida, e ele atacou-me também com invulgar violência, como era seu apanágio. 

Conheci-o pessoalmente em 1974, depois do 25 de Abril, em casa de Helena Vaz da Silva. Nessa altura já eu era seu leitor. Ele publicava no Diário de Notícias uma coluna chamada O País das Maravilhas, onde Portugal e os portugueses eram zurzidos com brutalidade.

E os seus leitores, entre os quais me incluía, deleitavam-se com os ataques implacáveis, exagerados, sem limites que ele fazia a figuras públicas, amesquinhando-as sem piedade. O pior era quando os visados eram os próprios… 
Acontece que, logo no nosso primeiro encontro, o azar calhou-me a mim. 

A reunião em casa de Helena Vaz da Silva destinava-se a gravar uma mesa-redonda para ser publicada no semanário Expresso. O tema era o 25 de Abril e o papel dos militares na história contemporânea de Portugal. Os convidados, além de Pulido Valente, eram Manuel Villaverde Cabral, eu e mais uma ou duas pessoas que já não recordo.

O encontro estava marcado para as nove horas da noite. As pessoas chegaram mais ou menos a essa hora, mas de Vasco Pulido Valente nem o cheiro. Esperámos, esperámos, esperámos – e por fim, por volta das dez e meia, lá apareceu ele. Entrou com ar altivo, olhou em volta e perguntou: «Onde está o António José Saraiva?». A anfitriã explicou-lhe que não era o António José Saraiva mas sim o José António Saraiva. E ele, então, comentou: «Se soubesse que não era o António José Saraiva não tinha vindo». A coisa começava bem…

Uma boa meia hora depois dessa chegada pomposa, a mesa-redonda lá se iniciou. Passado pouco tempo, porém, Pulido Valente envolveu-se numa discussão com Villaverde Cabral sobre a entrada de Portugal na 1.ª  Grande Guerra, irritou-se, e declarou para os presentes: «E agora vou-me embora porque não dou lições à borla». Levantou-se e saiu porta fora.

Foi esta a primeira (e última) vez que me cruzei ao vivo com Vasco Pulido Valente. 

Entretanto, apesar da desconsideração sofrida, continuei a lê-lo com interesse e a comprar os seus livros – como O Poder e o Povo. Acompanhei a sua coluna no Expresso, para onde se transferiu – que, aliás, ajudou a tornar-me leitor regular do jornal. E a sua rebeldia, o seu desrespeito pelas conveniências, a sua disponibilidade para criticar e amesquinhar tudo e todos, foram para mim estimulantes. Eram manifestações de uma liberdade radical que faltava aos nossos compatriotas. E escrevia muito bem, com um humor sarcástico, aliás muito influenciado por escritores como Eça e sobretudo Oliveira Martins, conseguindo no entanto dar a essa escrita oitocentista um toque de modernidade.

A par do desprezo pelas conveniências, Vasco Pulido Valente cultivava o desprezo pelos outros. Julgo que isso lhe vinha também do exílio de cinco anos no Reino Unido. O doutoramento em Oxford, a estadia num país que estava no centro da civilização, inculcou-lhe um sentimento de superioridade em relação aos portuguesinhos lorpas, incultos, ignorantes, brutos, incivilizados. Ele admirava tanto os ingleses como desprezava os portugueses.

Curiosamente, Armindo Monteiro, que foi embaixador de Portugal em Londres durante a 2.ª Guerra Mundial, experimentou a mesma sensação – explicando a certa altura a Salazar, por carta, que devia abandonar a política de neutralidade e apoiar os Aliados. E fê-lo em termos de quem fala de cátedra, levando Salazar a enfurecer-se – respondendo-lhe que estava muito enganado se, pelo facto de viver em Londres, o via a ele como um pobre provinciano de Santa Comba que não dominava os assuntos da alta política internacional. 

Armindo Monteiro acabou naturalmente demitido – mas no fim verificou-se que a razão estava do lado de Salazar, que não teria ganho nada, pelo contrário, em entrar na guerra.

No regresso de Inglaterra, exceção feita a meia dúzia de amigos, Vasco Pulido Valente olhava para os seus compatriotas do alto da sua imensa superioridade. Ele era melhor, mais civilizado, mais culto, mais inteligente, mais tudo. Tornou-se um snob. 

Suspeito, no entanto, que a partir de certo momento esse complexo de superioridade se tornou uma couraça para proteger a sua enorme solidão. Uma solidão que, afinal, era semelhante à de tantos outros estrangeirados, intelectuais que andaram lá por fora e que, quando regressaram à Pátria, se sentiram uns intrusos. 

Não conseguindo integrar-se, não tendo criado raízes, tornaram-se ácidos, zangados com os outros e consigo próprios, incomodados com o seu destino. 

Assim, Pulido Valente aplicou-se sempre mais a destruir do que a construir. Foi mais um pedreiro empenhado em demolir à picareta obras feitas do que um construtor ocupado na edificação de obras novas. 

Georges Sadoul dizia que Rocco e Seus Irmãos, de Visconti, era uma obra-prima falhada. De Vasco Pulido Valente pode dizer-se de certo modo o mesmo: não conseguiu fazer uma obra correspondente ao seu enorme talento.