Economia

TVI. Uma questão de preço

A decisão da Cofina em não avançar com a compra da Media Capital caiu que nem uma bomba junto da Prisa, que vai tentar fazer com que o negócio avance. Analista diz ao SOL que pode ser uma oportunidade de o grupo liderado por Paulo Fernandes conseguir uma baixa de preço.

Nada fazia prever que o negócio que daria origem ao maior grupo de comunicação social português tivesse este fim: a Cofina meteu na gaveta a compra do grupo Media Capital. A principal justificação foi o falhanço do aumento de capital de 85 milhões de euros para a compra da dona da TVI que o grupo liderado por Paulo Fernandes não conseguiu obter.

Na verdade, o objetivo ficou muito perto de ser conseguido uma vez que faltavam apenas três milhões de euros para que a Cofina tivesse conseguido o valor pretendido. Ou seja: na informação disponibilizada pelo grupo liderado por Paulo Fernandes à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), os investidores subscreveram quase 97% das novas ações. O preço único das ações era de 45 cêntimos e foram subscritas mais de 182,5 milhões das 188,9 milhões da oferta. Os valores são claros: a Cofina deitou por terra o negócio quando faltavam subscrever cerca de 6,4 milhões de novas ações, o que ronda os 2,9 milhões de euros.

Para justificar a desistência, o grupo dono do Correio da Manhã explica que «depois de todos os esforços feitos e contactos realizados infrutiferamente junto de potenciais investidores ao longo deste período, bem como, conforme já foi comunicado ao mercado, tendo em consideração a recente e significativa deterioração das condições de mercado não estavam reunidas as condições para o sucesso da oferta particular».

Na mesma nota, a Cofina explica que esta era uma possibilidade «prevista no prospeto da oferta pública de subscrição».

No entanto, a desistência não foi vista com bons olhos pela Prisa, que garante fazer os possíveis para forçar o negócio.

«De acordo com as declarações feitas pela Cofina no acordo de compra e venda e em comunicados aos mercados, a Cofina tinha os compromissos necessários para financiar a quantia requerida para completar a transação, de um lado por instituições de crédito e, de outro, pelos principais acionistas da Cofina no montante necessário para dar cobertura ao aumento de capital», explica a Prisa, que não percebe o que levou ao fim do negócio. E é por esse motivo que deixa o aviso: «A companhia iniciará, a partir desta data, todas as ações disponíveis contra a Cofina no prosseguimento do acordo de compra e venda».

Caso o negócio fique mesmo por aqui, esta é a quarta vez em 10 anos que a Prisa vê falhar a venda da Media Capital. A primeira tentativa de compra aconteceu pelas mãos da então Portugal Telecom. Seguiu-se a oportunidade também falhada com a Ongoing em 2009 e, oito anos depois foi a vez da Altice, num negócio avaliado num valor muito superior ao da Cofina mas que também caiu por terra. Aliás, a Altice chegou mesmo a reagir ao possível negócio Cofina / Media Capital.  Alexandre Fonseca, CEO da Altice prometeu que o grupo não iria «estorvar», mas que «como português» estava «triste» por Portugal «perder 200 milhões de euros num ano». As declarações de Alexandre Fonseca estavam relacionadas com o facto de a Altice ter oferecido 440 milhões de euros pela Media Capital. Agora, com a Cofina, o valor baixou para metade e poderá baixar ainda mais.

 

Sete dias para nova negociação

Entretanto, ao final da tarde de ontem, a Cofina disse ter notificado a Prisa da resolução do contrato referente à compra da Media Capital. Em comunicado enviado à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), a empresa liderada por Paulo Fernandes explica que «no seu entendimento, o contrato não caducou por efeito insucesso do aumento de capital da Cofina, cujo prospeto foi objeto de divulgação no passado dia 17 de Fevereiro», explica a dona do Correio da Manhã, garantindo que esta é a «razão pela qual não são devidos os 10 milhões de euros».

Na mesma nota, a Cofina garante que «enviou à Prisa, em 12 de março p.p., uma notificação de resolução do contrato (na base de fundamentos que oportunamente serão objeto de divulgação pública), condicionada a que, no prazo de sete dias, a Cofina e a Prisa não venham a acordar numa modificação do contrato de forma a restabelecer um equilíbrio das prestações recíprocas conforme com os princípios da boa-fé», lê-se na nota. Ou seja, caso a Prisa recuse este contacto, a Cofina considera que o negócio fica sem efeito.

 

Coincidência ou oportunidade?

Para Nuno Caetano, analista da corretora Infinox, fica por justificar a decisão de cancelamento do negócio por parte da Cofina, que pode estar a aproveitar a oportunidade para que o preço de compra baixe. «Posto isto, resta saber o real interesse da Cofina em que o negócio realmente se realize, e se a informação de que o aumento de capital ficou a 2,9 milhões de euros de se concretizar é uma arma a ser aproveitada para baixar novamente o preço de aquisição da Media Capital por parte da Cofina, tal como aconteceu no final de 2019 com a redução do preço em cerca de 50 milhões de euros», destaca o analista que refere ainda que  «poderá ser essa a estratégia que está a ser utilizada pela Cofina, até porque em 2019 a Media Capital apresentou prejuízos na casa dos 55 milhões de euros». O interesse da Prisa em vender a Media Capital é claro: «O que é facto é que a Prisa tem interesse que o negócio se realize e, com a aquisição da Media Capital, a Cofina passaria a ser maior grupo de comunicação social português».

Já André Pires, analista da XTB, não considera que a desistência da compra possa ter sido uma jogada da Cofina para comprar a dona da TVI por um valor mais baixo. «Parece-me antes que a Cofina percebeu que o momento atual não é o mais adequado para uma aquisição, pois correria o risco de que o lançamento de quase 189 milhões de novas ações, a €0,45 cada, não tivesse os resultados pretendidos», explicou o analista ao SOL.

 

Mário Ferreira surpreendido

A verdade é que, mesmo que a compra não tenha sido efetivada, Mário Ferreira garantiu uma posição qualificada na Cofina. A Pluris Investments, de Mário Ferreira, e o empresário dono da Douro Azul detêm em conjunto uma participação de 2,072% na Cofina, num total de 2.125.200 ações. A Pluris ficou com 2.050.000 ações, representativas de 1,998% do capital da dona do Correio da Manhã, enquanto Mário Ferreira detém 75.200 ações do grupo (0,073%).

O empresário confessou ter sido apanhado de surpresa pela decisão da Cofina, até porque estava disponível para assegurar a realização do que faltava para o sucesso do aumento de capital.