Sociedade

"Os chineses têm pavor de três coisas. A primeira são as epidemias"

A resposta chinesa à pandemia da covid-19 e o debate em torno do regime de Pequim servem de ponto de partida para uma viagem pela história e pela cultura daquele país com Guilherme Valente, editor e estudioso da China.

"Os chineses têm pavor de três coisas. A primeira são as epidemias"

Visitou a China pela primeira vez em 1966, durante a infame Revolução Cultural de Mao, quando foi para Macau como alferes. Aí conheceu uma aluna brilhante, filha de chineses, com quem casou há perto de 50 anos. Licenciado em Filosofia, desde então Guilherme Valente, hoje editor (fundador da Gradiva), dedicou-se a estudar a civilização chinesa. Mas o fascínio remonta à infância. «Tinha um tio, irmão da minha mãe, que era embarcadiço, como se dizia na altura, e quando vinha das suas viagens pelo mundo trazia-nos sempre recordações. Um dia trouxe-nos um prato chinês, com muita cor. Acho que aquele prato despertou a curiosidade do miúdo que gostava de cor e de ilustrações», recorda. Numa altura em que muitos apontam o dedo ao regime (o Nobel peruano Mário Vargas Llosa fez duras críticas a Pequim), a resposta chinesa ao surto do coronavírus serve-nos de ponto de partida para uma lição sobre a história e os costumes do povo chinês.

É um grande estudioso da China e gostava que falasse sobre como os comportamentos dos chineses face a esta crise refletem a sua história e a sua cultura.

Por mais que saibamos, falar sobre a China é a coisa mais difícil que há. Conhece a anedota dos três monges cegos?

Não.

Três monges cegos quiseram saber o que era um elefante. Então levaram o primeiro monge até junto de um elefante para ele o apalpar. O primeiro monge apalpou a tromba e disse: ‘Já sei como é o elefante. É parecido com uma serpente enorme’. Veio outro e apalpou a pata. ‘Já sei. O elefante é parecido com o tronco de uma árvore’. Veio o terceiro e tocou na presa. ‘Parece uma lança’. Em todas as culturas e países é assim: a pessoa não consegue dominar tudo. Mas no caso da China ainda mais. Se não conhecer a história dos Han, do império mongol ou da decadência Manchu não percebe a política hoje nem os chineses de hoje. Não percebe sequer como é que eles conseguiram – pelo menos é a minha esperança – conter este vírus.

O facto de a China ser uma ditadura faz com que seja mais fácil lidar com o problema?

As pessoas julgam que a China é uma ditadura total. Não é nada. Mas tem tabus que não podem ser postos em causa. O tabu político é a autoridade do Partido Comunista. Aliás, não vamos chamar-lhe comunista porque aquilo de comunismo não tem nada. Lembre-se da grande frase do Deng [Xiaoping]: ‘Enriqueçam’. E disse mais: ‘Uns têm de enriquecer antes dos outros’. Abriu a China ao investimento estrangeiro e aos negócios, abriu uma janela de liberdade. E os chineses, quando podem trabalhar, só trabalham. Sobre a China, toda a gente diz: ‘Eles conseguiram aquela disciplina toda por causa daquela ditadura terrível do Xi Jinping’. Não foi nada por causa disso.

Há quem diga que, uma vez que o indivíduo não tem direitos, é mais fácil obrigá-lo a fazer o que o Estado quer.

Dizem isso porque não avalizam o peso da história e da geografia nos comportamentos. A minha tese é outra: mesmo que o Partido ‘Capitalista Imperial’ Chinês não tivesse o poder centralizado e autocrático que tem, o povo chinês tinha-o obrigado a fazer o que fez. A questão não está na autoridade do Partido Comunista. E tenho uma prova disto.

Qual é?

A Coreia do Sul. A Coreia do Sul é o contrário do regime autocrático. Quando vejo a Assembleia Nacional da Coreia, diria até que aquilo é uma verdadeira confusão, muito pior que a nossa. Vou-lhe contar uma pequena história. Nos Estados Unidos, há 20 ou 30 anos, toda a gente começou a falar numa coisa estranha: os estudantes chineses eram todos os melhores na matemática. Eram claramente superiores. Havia suecos, holandeses, até portugueses, que também eram bons, mas a maioria esmagadora não eram apenas chineses, eram alunos da área confuciana. E chegaram a uma conclusão muito simples, muito à americana: a importância que as famílias chinesas davam à educação e que se traduzia em resultados. Voltando à Coreia. Temos ali a prova de que o fulcro não está…

No regime?

No sistema político. A Coreia conseguiu com um sistema político extremamente liberal, politicamente democrático, o mesmo que foi conseguido [conter a ameaça do vírus] num país que é o oposto disso. Mas há outra coisa que se prova: numa crise destas, o modelo chinês é muito mais eficaz. A nossa democracia tem dificuldade em agir rápido. Já o Churchill dizia: a nossa democracia tem disfunções que têm de ser enfrentadas. Agora, a melhor eficácia do outro modelo justifica o que se perde em liberdade? Não sei. Muitas vezes, quando digo estas coisas, acusam-me de querer viver numa ditadura. Isso é uma estupidez… Se eu for um entomólogo e estiver a falar sobre borboletas, a investigá-las, a dizer ‘que maravilha’, ninguém diz que eu quero ser borboleta. Mas se estou a falar sobre a China dizem que quero ser chinês. Não quero nada! Sou um extremo-ocidental e por isso é que gosto tanto da China e de estudar outras culturas: não tenho nenhum perigo de perder a minha identidade. Bom, mas onde eu queria chegar há pouco é aqui: os comportamentos defensivos, como é preciso impor em situações destas, já estavam na tradição quer da sociedade chinesa, quer da coreana.

Que tipo de comportamentos?

Vou dar-lhe um exemplo que é o meu de todos os dias e por isso ninguém pode duvidar. Vi pela primeira vez a Deolinda, com quem casei há quase 50 anos, numa sessão cultural em Macau. Ela era uma aluna brilhante, e tinha ido com a professora. O pai dela sabia a importância do ensino e naquela altura do maoismo pôs os filhos na escola portuguesa. Desde que eu a conheço que ela pratica estas regras todas.

Nomeadamente…

Nomeadamente não pôr as mãos na boca, lavar as mãos regularmente, não tossir para as outras pessoas – isso deixa-a doida. A maior parte das irritações que tivemos os dois é porque ela está sempre a querer ensinar-me. Um professor nunca deixa de ser professor. Eu digo-lhe: ‘Deolinda, eu tenho 78 anos. Não quero mudar’. Acha que quando me casei alguma vez mais entrei em casa sem deixar os sapatos à porta?

E hoje vemos que é um dos cuidados de higiene que devemos ter quando regressamos da rua.

Quando a gente pensa nisso é uma coisa óbvia. Em nossa casa temos sempre daqueles chinelos de quarto que dão nos hotéis para amigos que nos visitem. Claro que se vier uma pessoa com quem não tenho intimidade não vou perguntar se quer trocar. Entra com os sapatos da rua e quando sair a Deolinda vai logo a seguir aspirar o tapete. Obsessivamente. O Luís Salgado de Matos foi casado com uma alemã da Baviera que também deixava os sapatos à porta. Porquê? Porque na Baviera há grandes tempestades.

E os sapatos ficam cheios de lama.

Nós percebemos que eles é que estavam certos. Os sapatos pisam tudo… A primeira vez que fui a casa dos meus sogros sabe qual foi a primeira coisa para que eles olharam? Foi para os meus sapatos. Uma família média, mas até as gentes mais humildes fazem isso. Porquê? Porque eles têm pavor de três coisas. A primeira são as epidemias.

Por viverem em grandes concentrações populacionais?

Não é só isso, é também o clima extremamente húmido… Nos anos 60, quando fui para Macau cumprir o serviço militar, ainda fui vacinado contra a cólera e contra a febre amarela, porque foram endémicas durante imenso tempo por causa do clima. Vou fazer uma aposta consigo. Se for à China, a Macau ou até uma dessas lojas chinesas, você nunca verá uma coisa que agora até é moda, que é uma mãe dar de beber do seu copo a uma criança ou beber do copo da criança. Uma mãe chupar o gelado do filho?! Nunca. É uma forma de contágio extraordinária.

A relação deles com as crianças é diferente?

Não sei se já reparou que as crianças chinesas inspiram muita ternura aos ocidentais. Isso tem uma explicação. Como eles são de baixa estatura – estou a falar do Sul da China, porque no Norte são mais altos que nós – a cabeça parece maior e o Stephen J. Gould [paleontólogo] dizia que todos os bichos que têm uma cabeça maior inspiram esses sentimentos. Lembra-se da primeira versão do Rato Mickey?

Lembro.

Veja como a figura evoluiu.

A cabeça aumentou, não foi?

Imenso. Isto para dizer que as crianças chinesas, como têm a cabeça maior, inspiram muita ternura. E nós às vezes, num ato de carinho, dizemos: ‘Dá ca um beijinho!’. Eu via as mães chinesas todas arrepiadas. ‘Sabe-se lá o que é que este tipo pegou ao meu filho!’. O general Rocha Vieira esteve recentemente em Singapura, e foi à missa numa igreja católica. Quando chegou aquele momento em que o padre diz ‘Saudai-vos na paz de Cristo’, ele ficou à espera. Nós aqui damos logo beijinho, abraços, apertos de mão a pessoas que não conhecemos. Sabe como é que eles fazem?

Com um aceno de cabeça, não?

Claro! Nunca cumprimente um chinês com abraços, não abrace um chinês – um aperto de mão, e à distância. E beijinhos nas senhoras jamais! Julgo que foi o Paulo Portas que foi lá, isso vi na televisão, e fartou-se de distribuir abraços. E eles todos encolhidos.

Tinha falado em três ameaças.

A primeira ameaça são as epidemias. A segunda são as catástrofes naturais. Eu estive em Macau, fui lá para a tropa, e passam por aquela região muitos tufões. Uma das unidades onde estive chamava-se o Quartel da Ilha Verde. À volta de Macau nessa altura, eram arrozais, agora são arranha-céus – em vinte anos a paisagem mudou radicalmente. Um dia passou em Macau um tufão de sinal dez que destruiu completamente os arrozais. Os meus soldados, que eram agricultores do Alentejo, estavam confrangidos porque sabiam o trabalho que aquilo dava. Mas passado muito pouco tempo vieram-me dizer: ‘Meu alferes, venha ver os arrozais!’. Eles tinham reconstruído tudo. Isto é a história da China. Vou só fazer um aparte muito simples com uma nota que vem num livro chamado Outliers [Outliers – The Story of Success], do Malcolm Gladwell. Ele diz que o tradicional engenho chinês tem na origem o cultivo do arroz.

Por ser um processo complicado?

Não se imagina o rigor que a cultura do arroz exige, é uma coisa do outro mundo. Aquilo tem que ter a água sempre a uma determinada altura – por isso é que eles fizeram todos aqueles canais de irrigação muito séculos antes do Ocidente –, tem de ser tudo podado... Os chineses sofisticaram-se muito. Se você for ao Museu Marítimo de Macau fica parvo. Eles tinham barcos para tudo, até para passear os patos no rio! Por isso é que quando os ingleses chegaram à China em 1700 e tal ficaram de boca aberta com o sistema de correios, com a urbanização de cidades enormes, com bombeiros, com tudo. Outra coisa interessante que o Malcolm Gladweel diz é para compararmos, no passado, o tempo de trabalho de um camponês chinês com o de um camponês europeu. As horas de trabalho do chinês ao fim do ano eram incomensuravelmente mais. Até porque o camponês europeu hibernava no inverno. Repare: cá havia o cesto, a roda; na China era o contrário, os pais precisavam de muitos filhos para trabalharem no arroz. Aliás existe a teoria de que nunca houve escravatura ligada à terra na China – como houve em todo o lado – porque a cultura do arroz exigia um tão grande empenho do trabalhador que eles não conseguiam obter isso com trabalho escravo. E como é que conseguiam esse empenho? Dando ao trabalhador uma participação nas colheitas.

Esse foi um dos problemas da coletivização da agricultura na União Soviética. Como sentiam que não tinham nada a ganhar as pessoas produziam muito pouco…

Claro. Agora vamos o terceiro pavor. E se o Partido ‘Capitalista’ Chinês não tivesse cuidado com isso seria corrido como foram alguns imperadores. Pavor das invasões de estrangeiros. Sabe qual era a população da China quando se deu a invasão mongol no século XIII?

Não faço ideia.

Estes dados são muito rigorosos. De todos os países do planeta, aquele que tem registos historiográficos mais antigos e em maior número é a China. Isto tem uma origem muito interessante. Como no Egipto, ou mesmo na Grécia, com os oráculos, aqueles registos começaram por razões mágicas, faziam aquilo para poderem a partir daí interpretar tendências, não só tendências climatéricas, mas também tendências políticas e sociais. O objetivo da historiografia era poderem determinar o melhor momento para atuar. ‘É altura para fazermos uma grande muralha para nos protegermos dos bárbaros’. ‘É altura para coroar o novo governador’.

Isso é o que faziam os nossos astrólogos.

A origem é a mesma. Mas no caso deles sempre com interesse prático, com grande pragmatismo. Isto para lhe dizer que os registos são muito fiáveis. Nessa altura da invasão mongol eles tinham uma população de 75 milhões de habitantes. Já tinha havido muitas invasões, mas que a tecnologia chinesa – inclusive com pólvora – tinha repelido. Até que de repente começam a ser confrontados já não com hordas mas com grupos organizados. Desses 75 milhões sabe quantos morreram? 25 milhões. Um terço da população. Acha que isto não está na memória daquela população? Mais tarde, na última invasão, no tempo dos manchus, eram 250 milhões. Morreram 75 milhões. E tem aqui a explicação porque é que o Mao era um deus – o povo atribuiu-lhe a expulsão do invasor. É por isso que o novo poder imperial capitalista da China nunca põe em causa a figura do Mao. Por um lado, porque é história, e os chineses têm esta visão filosófica de que todos os momentos que acontecem são explicação para o momento seguinte, todos têm a mesma dignidade. Por outro lado, porque ficou com o crédito de ter expulso o invasor.

Disse que os chineses têm esse respeito pela história. Mas o maoismo não tentou cortar com o passado?

Atenção que eu estou sempre a falar das atitudes dominantes, porque gente boa e gente má existe em todo o mundo. O maoismo é um hiato tremendo numa civilização e numa cultura que naquele momento, depois da decadência manchu, estava à procura de um novo modelo. Com a queda brutal, os chineses quiseram recuperar o seu papel internacional e a riqueza, naturalmente. Mas quiseram sobretudo recuperar o reconhecimento. No tempo da Revolução Cultural, todos os tratados começavam: ‘Queremos que reconheçam…’. O povo com o maior orgulho – com os ingleses – foi ferido. A história desde 1911 até agora foi a procura de um novo modelo político. Só que o Mao traiu o país por causa do partido e depois traiu o partido por causa dele, porque enlouqueceu em 1956. Nessa altura os grandes dirigentes chineses (o Deng, o Zhou Enlai) – disseram: ‘Temos que neutralizar o Mao, está louco’. Mas, com o tal prestígio e com o génio estratega que ele tinha, conseguiu manter-se no poder.

Um génio maligno…

Claro. Eu fui para Macau a pensar que o maoismo era uma coisa, depois cheguei lá e foi um tratamento de choque, uma vacina como eu agora precisava para este vírus. De início até fui à livraria comunista comprar a obra do Mao. Depois comecei a ver aquela gente fugida da China para Macau e comecei a perceber o que era aquilo. Durante umas três semanas perdemos o controlo da cidade, mas não houve nenhum português nem agredido, nem humilhado, nada.

Isso quando foi?

Em 1966, durante a Revolução Cultural – 1,2,3 de dezembro, por isso lhe chamavam o ‘1,2,3’. O Mao morre em 76, curiosamente entre um eclipse e um sismo – na tradição chinesa era como morriam os grandes imperadores. Está a imaginar o que isto é para o povo? Está na história: os grandes imperadores morriam entre dois acontecimentos naturais de envergadura. O Mao morreu entre um e outro. Aí há um interregno de transição e a seguir o Deng toma conta da direção do partido e a seguir é a grande liberalização. Na primavera de Pequim havia tantas liberdades ou mais do que no Ocidente. E os americanos, que estavam preocupados que a China se desenvolvesse, fizeram Tiananmen em 1989. Desde que se faça mal a um homem, para mim é sagrado, mas temos de ter noção das dimensões. Uma manifestação de seis mil estudantes na Praça de Tiananmen é uma manifestação de 600 bombeiros ou mil polícias ali no Terreiro do Paço.

O maoismo não deixou marcas?

A corrente maoista não desapareceu por encanto, havia muita gente comprometida com o regime. Para responder a isso vou recordar o que me dizia o Padre Joaquim Guerra, um dos últimos grandes jesuítas de Macau. Ele foi um bocado ostracizado, porque defendia que o confucionismo era o mesmo que o cristianismo. E foi ele quem me mostrou um texto onde o Confúcio diz: ‘Há só uma espécie humana, o que difere são os costumes’. E permita-me só um aparte, repare como isto é bonito: quando eu entrava na praça chinesa do mercado vermelho, sentia-me na praça da minha velha terra. Os gestos das vendedoras de peixe eram iguais. A gente sente uma epifania. Voltando à sua pergunta, um dia o Padre Guerra diz-me o seguinte: ‘O comunismo na China é um verniz superficialíssimo que vai estalar completamente e ser esquecido logo que os chineses tenham oportunidade’. E foi o que aconteceu. O Deng disse: ‘Enriqueçam’. Onde é que ficou o comunismo? Hoje vê é fugirem disso. E outra coisa: não há ninguém tão autónomo como o chinês. Tem aqueles tabus todos, mas depois tem a sua privacidade. Uma vez eu até disse a um amigo: ‘Se andares de cuecas em Macau verás que nenhum chinês vai ligar a isso’. O chinês quer é que não o chateiem, não se metam na vida dele. Por isso é que nenhum imperador conseguiu penetrar na intimidade do chinês.

Ou seja, por detrás desses movimentos, acaba por haver uma grande continuidade.

Por isso é que digo que é a civilização que continua ali que marca estes comportamentos agora contra o vírus. Se o regime chinês – ditadura terrível ou não, eu acho que é para umas coisas, para outras não é – não tivesse feito o que fez e que dizem que impôs, era o povo que fazia. Vou acabar com uma história pessoal. Eu ia sempre cortar o cabelo – quando ainda tinha algum – a um barbeiro no Hotel Lisboa que era o barbeiro dos portugueses. Ele gostava muito de falar comigo, embora eu não percebesse nada, e eu falava com ele. Como os chineses são muito argutos, ele percebeu muito rapidamente que eu era um hipocondríaco. E um dia levei o meu pente, a escova para ele me pentear e mais não sei o quê, que ele guardava numa prateleirazinha. O chinês serve sempre o cliente à sua vontade, respeita a idiossincrasia do outro. ‘Queres assim, levas assim. Se isso é um disparate, é contigo’. Até que regressei a Portugal, mas a minha mulher ficou lá dois anos porque era professora e tinha compromissos. Nesse período, o meu filho, que estava a estudar na universidade de Cornell [EUA], foi lá passar parte das férias com a mãe. E precisou de cortar o cabelo, porque gosta de usar o cabelo à americana, sempre muito curto. Onde é que a minha mulher o levou? Ao barbeiro do Hotel Lisboa. E disse ao barbeiro, em cantonense: ‘Olhe, este é o filho daquele senhor que vinha aqui chateá-lo’. O senhor toca no ombro do meu filho e aponta para um canto da prateleira. Estavam lá umas coisas. ‘Sabes o que é aquilo?’ – a minha mulher traduziu. ‘Não, não sei’. ‘Aquilo é para quando o teu pai voltar a Macau’. Há aqui um aspeto que me comove que é o afetivo. Mas por trás disto está o tal começo de pensamento e a tal conceção da história que é diferente.

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