Hoje Escrevo Eu

Costa, a informação e o entretenimento

Enquanto decorria a conferência diária da Direção-Geral da Saúde/Governo sobre a evolução da covid-19 em Portugal, o primeiro-ministro falava no programa de Cristina Ferreira sobre os riscos inerentes à época. A mesma Cristina Ferreira que viu tornar-se viral um vídeo retirado de uma rubrica da sua ‘Casa’ sobre o vírus que, dizia a apresentadora, só fazia mal aos chineses e não aos ‘estrangeiros’ na China.

A informação que circula na web, sobretudo nas redes sociais, é mais desinformação do que outra coisa, tantas as falsidades que se espalham de modo mais viral do que o novo coronavírus e com uma rapidez ainda mais impressionante.

Há de tudo. Textos, fotos e vídeos manipulados que, por vezes, de tão repetidos quase passam a verdades.

Na realidade, sempre foi assim - ainda hoje não falta quem ponha em causa que Armstrong alguma vez tenha posto o pé na lua, alimentando a tese de que tudo não passou de uma megaprodução da NASA para fazer crer o mundo na supremacia dos Estados Unidos sobre a União Soviética em plena ‘guerra fria’.

Por estranho que possa parecer, houve muitos e bons meios de informação jornalística que correram atrás desse prejuízo, criando projetos ou programas dedicados ao chamado fact checking, como se essa não fosse uma obrigação básica do trabalho de todo o jornalista e da imprensa em geral. Não noticiar ou divulgar informação não confirmada (ou ‘checkada’) é regra inviolável e pressuposto elementar do jornalismo.

Não quer dizer que esses projetos ou programas não tenham utilidade - o Polígrafo (SIC), por exemplo, até tem alguma, apesar de o próprio nome lhe retirar a credibilidade que seria suposto ter (a falibilidade da máquina da verdade sempre obstou, por exemplo, a que fosse reconhecida como meio de prova na Justiça portuguesa) -, mas mais como programas de entretenimento do que como avaliador ou validador de informação.

Esses projetos e programas estão, aliás, para os meios de comunicação como o chamado provedor do leitor - se o diretor do meio bem cumprir as funçõs inerentes ao cargo, ele é o verdadeiro provedor do leitor, sendo este absolutamente inútil. Tal como, aliás, se os jornalistas cumprirem a sua função, são eles, e não outros, quem tem de ‘checkar’ e confirmar devidamente a informação antes de a publicar ou divulgar.

Serve este relambório para dizer que esta semana, enquanto decorria a conferência diária da Direção-Geral da Saúde/Governo sobre a evolução da covid-19 em Portugal, o primeiro-ministro falava no programa de Cristina Ferreira sobre os riscos inerentes à época (para os quais o SOL alertou na última edição com a manchete Cuidado com a Páscoa!). 

A mesma Cristina Ferreira que viu tornar-se viral um vídeo retirado de uma rubrica da sua ‘Casa’ sobre o vírus que, dizia a apresentadora, só fazia mal aos chineses e não aos ‘estrangeiros’ na China.

Vá lá perceber-se por que razão António Costa privilegia a SIC - definitivamente transformada na televisão do regime, tantos os membros do Governo, e a começar pelo chefe, que picam o ponto nos estúdios de Laveiras - em detrimento do canal público de televisão, a RTP, ou de declarações ao país, com a carga institucional que a situação impõe, veiculadas por todos os media em simultâneo e sem descriminação.

Cristina Ferreira já foi jornalista, mas é uma animadora ou entertainer. O programa da Cristina é de entretenimento, não de informação.

Por algum motivo, desta vez, António Costa apresentou-se na ‘Casa’ de gravata e não foi cozinhar outra coisa a não ser uma ‘entrevista’ com a apresentadora para passar uma mensagem certamente importante muito mais para ele próprio do que para o país. 

Pela primeira vez, aliás, o primeiro-ministro reconheceu que «vamos ficar mais pobres e mais frágeis na nossa economia». E fê-lo imediatamente antes de reunir o Conselho de Ministros extraordinário para dar parecer positivo ao prolongamento do estado de emergência (por decreto presidencial que há de conferir ao Governo poderes adicionais nomeadamente em matéria de restrições à liberdade de circulação).

O primeiro-ministro devia tudo fazer para manter o sentido de Estado que a gravidade da situação e do país a tanto obrigam e não entrar numa deriva propagandística nesta altura censurável a qualquer político, do Governo ou da Oposição.

António Costa tem estado bem na gestão de toda esta crise, com serenidade e segurança nas suas intervenções públicas.

Por isso, menos se percebe como não resistiu à tentação de cair no registo panfletário e na bajulação fácil de quem se guia por audiências e populismos.

E não havia necessidade de revelar tamanho desrespeito pela informação, pela imprensa em geral, pelo canal público de televisão em particular, e pelo povo.

A crise é demasiado grave e não justifica otimismos, mais do que irritantes, absolutamente infundados.