Conta-me como vai ser

A banda deixou de passar

Os festivais começam a ser cancelados ou reagendados, assim como os concertos previstos para os próximos meses. De casa, alguns artistas continuam a dar-nos música e até a lançar discos, como é o caso de Dino d’Santiago. Aproveite para ler as opiniões de Álvaro Covões, Márcia e Ricardo Ribeiro.

Primeiro, ainda antes do estado de emergência, os cancelamentos de um ou outro espetáculo começaram a cair a conta gotas. Depois, a inevitabilidade da situação engrossou o caudal. E, finalmente, a proibição de ajuntamentos fez o resto. Concertos, festivais, lançamentos adiados ou cancelados – as contas do impacto da pandemia no mundo da música são dolorosas. Mas, neste momento de pausa forçada – que tem, a julgar pelo crescimento lento do número de infetados, surtido efeito – nasceram também movimentos bonitos. Lá iremos, nesta brevíssima radiografia ao setor.

Roberta Medina, vice-presidente do Rock in Rio, anunciou o que se vinha a adivinhar: não há condições para montar a cidade do rock. A 9.ª edição do Rock in Rio, que deveria encher o Parque da Bela Vista entre os dias 20 e 27 de junho, foi adiada para 19, 20, 26 e 27 de junho de 2021. «E em 2022 estaremos de volta para a 10.ª edição, não deixando sequer espaço para a saudade e retomando a festa ‘nos anos pares’», promete a organização. O Festival Músicas do Mundo, em Sines, já tinha também cancelado a edição deste ano e o Boom Festival também anunciou esta semana que só voltará a Idanha-a-Nova em 2021. Também os Dias da Música, do CCB, foram reagendados para o início de setembro. A mesma decisão tomou a organização do Nos Primavera Sound, no Porto, que irá acontecer entre os dias 3 e 5 daquele mês, no Parque da Cidade. Será uma «uma Primavera no Verão, por uma vez na vida», disse a organização. Os responsáveis pelos restantes grandes festivais do país continuam medir o pulso à situação.

 

Concertos em casa

Branko festejou esta semana o seu 40.º aniversário em casa, com um concerto online. Uma festa prevista para o Tivoli BBVA. O músico e produtor, que tinha a sala praticamente esgotada, não quis deixar a data em branco e ofereceu assim um escape aos ouvintes. «Acho muito interessante o que está a acontecer, o despir de uma série de adereços e camadas de produção como luzes ou maquilhagem e assumir mesmo a cara das pessoas, simplesmente a cantar, a tocar ou passar um momento a conversar com as pessoas que os seguem», dizia ao i.

Também Dino d’ Santiago quer ver o copo meio cheio e, em jeito de presente, lançou ontem de surpresa um novo álbum. O sucessor do clamado disco Mundu Nôbu (2018) chama-se Kriola, vai beber novamente às suas raízes cabo-verdianas e expande esse ponto de partida por todas as influências que foi colecionando. E, numa altura em que o mundo inteiro se debate contra o mesmo inimigo, o seu ritmo vem-nos lembrar o que é mais do que óbvio: estamos todos no mesmo barco.

A lista de músicos que se têm apresentado em suas casas de cara lavada para pequenos concertos é maior do que a que poderíamos enumerar. Tendência que começou com o Festival eu Fico em Casa, uma iniciativa conjunta de músicos, editoras e promotores, e que reuniu mais de cem nomes, numa maratona de concertos através das redes sociais. Alguns músicos continuaram a fazer-se ouvir deste e doutros modos: Tiago Nacarato, a título de exemplo, lançou uma série online, Além do que se vê.

Chegando às opiniões: esta semana, Álvaro Covões, diretor da Everything Is New, deixa-nos as suas preocupações com o futuro do setor, numa altura em que ainda é possível manter o NOS Alive. Convidámos igualmente dois músicos da nossa praça. Ricardo Ribeiro, que em tempos sombrios prefere ver a luz, e Márcia. A cantora, que celebrou este ano uma década de carreira no Coliseu, aproveitou para lembrar a única vez que passou por uma situação de isolamento. Foi aí que descobriu a sua voz.

 

Todos já sentimos falta dos aplausos, por Álvaro Covões

"Mas adiar significa manter vivos todos aqueles que se viram inibidos de trabalhar por força da proibição. É esta a nossa missão enquanto indústria"

Passo a passo, tudo passará..., por Márcia

"A estranheza dos sítios e das situações que desconhecemos, vai-se vencendo com o dia-a-dia. Procuramos a normalidade no meio do nosso caos interior, tentando agir como se pertencêssemos ao meio que agora nos envolve, sem termos ainda conseguido envolver-nos nele. Um dia que passa, é mais um dia em que avançámos".

 

Num repente o mundo mudou!, por Ricardo Ribeiro

"A palavra quarentena entrou pelos olhos, pelo nariz de todos, sem saber o que ela significa escrita na carne com a caneta dos dias".