Economia

Empresas querem regressar rapidamente à normalidade

Dados de um inquérito da Associação Industrial Portuguesa revela que 76% das empresas inquiridas querem voltar ao trabalho a curto prazo. Dados apontam ainda para 79% das empresas com redução no volume de negócios.

As consequências da crise pandémica têm afetado milhares de empresas, de todos os setores e a vontade de voltar à normalidade é uma realidade. Pelo menos, é isso que mostra o mais recente inquérito da Associação Industrial Portuguesa (AIP) a que o SOL teve acesso: 20% das 2,427 empresas inquiridas pela AIP entre 13 e 14 de abril defendem que o regresso gradual à atividade económica (produção, consumo e circulação de pessoas) deve acontecer de imediato. 56% consideram que deve realizar-se apenas no início de maio e 24% defende que é preciso esperar até a pandemia acabar.

Dentro deste ‘desejo’, o destaque vai para as médias empresas que são as que mostram mais vontade de voltar ao trabalho mais cedo.

 

Redução de negócios

Cerca de 80% das empresas revela ter tido uma redução do volume de negócios desde o início da crise, segundo o mesmo estudo. Desta percentagem, 34% revela quebras superiores a 40% e 53% quebras superiores a 20%.

É no alojamento e restauração (98%) que as perdas são maiores, mas são extensíveis a outros setores como serviços (81%), transportes e armazenagem (79%), comércio (77%), construção (77%), indústria (75%), agricultura e pescas (64%).

Quem sofre mais com os prejuízos são as micro empresas (82%).

No que diz respeito à adesão das empresas às medidas do Governo, 33% das empresas inquiridas admitem ter recorrido ao layoff. Apesar de ter sido a medida mais adotada pelas empresas analisadas, existiram outras opções. Cerca de 30% das empresas optou por moratórias e renegociação dos créditos, 28% por medidas fiscais e contributivas, 21% por linhas de financiamento e apenas 5% pela antecipação de incentivos comunitários.

A análise da AIP revela também que das empresas que recorreram ao layoff nesta fase pandémica, 74% pertencem ao setor mais afetado: alojamento e restauração. Mas também o comércio (32%) e os serviços (32%) optaram por esta solução. De todas estas empresas, 28% são exportadoras e 34% não o são.

No entanto, há ainda uma grande percentagem de empresas (68%) que não recorreu ao layoff. Os motivos são vários: 47% admite não precisar. Mas existem outras razões: 29% diz não ter condições de acesso, 14% assume outras razões como o teletrabalho, férias, despedimentos ou apenas quererem continuar a trabalhar, 6% admite estar a ponderar e 5% não tem trabalhadores dependentes.

Dos 29% que diz não ter condições de acesso, a maior parte (61%) são micro empresas e os setores que mais se destacam nesta condição são os serviços (30%) e a indústria (23%).

Mas é também o setor da indústria que se destaca no leque de empresas que não pretende recorrer ao layoff com 52% das empresas analisadas a assumi-lo. Destaque ainda para as empresas da área do comércio (48%) e do alojamento e restauração (36%) que não perspetivam aderir a esta ferramenta.

 Já das empresas que pediram moratória de crédito, o destaque vai novamente para alojamento e restauração (46%), transporte e armazenagem (46%) e indústria (39%). Os mesmos setores destacam-se nas medidas fiscais e contributivas e nas linhas de financiamento.

 

Dívidas afastam empresas de medidas

Na amostra de 2.411 empresas que responderam ao inquérito, 10% está sem acesso às medidas por dívidas fiscais e contributivas. Desta percentagem, a maior parte (30%) pertence ao setor dos serviços (30%) ou da indústria (23%).

Desde o início da crise, 13% das empresas inquiridas admitem já ter despedido trabalhadores ou esperam fazê-lo nos próximos seis meses. A maior parte dessas empresas pertence ao setor dos transportes e armazenagem (21%), construção (19%) ou alojamento e restauração (18%).

 

‘Dinâmica de aceleração da crise é elevadíssima’

Ao SOL, José Eduardo Carvalho, presidente da AIP, comentou as conclusões deste relatório e garante que «a dinâmica de aceleração da crise é elevadíssima». «Se compararmos os dados do inquérito do INE que tem uma amostra maior que a nossa, verificamos que há uma aceleração do acesso às próprias medidas e quando se acede às medidas, significa que há um agravamento das condições de exploração das empresas», explica.

O responsável fala ainda sobre o financiamento, ao referir que 21% das empresas recorreram ao financiamento. «O que é que isto pode indicar? Pode indicar que na altura [em que o inquérito foi realizado] havia ainda uma dificuldade de interpretação da própria legislação e do comportamento dos bancos, havia problemas relacionados com exigências de garantias e por outro lado as empresas estão a resistir a contrair mais dívidas. Só contraem dívida, só vão ao financiamento quando têm mesmo necessidade. estão a resistir», refere.

Destaque ainda para o comportamento das médias empresas «nomeadamente as exportadoras», que são as que menos recorrem ao layoff, têm menor redução de vendas e são as mais dinâmicas no acesso às moratórias ou ao financiamento. «Isto dá uma indicação clara, que têm melhor robustez financeira de que outros segmentos das pequenas e das micro empresas. No meu entender deve dar-se mais atenção neste programa de relançamento económico que vamos ter de fazer ao problema do redimensionamento empresarial. Nesta situação em específico de guerra e crise, acabam por ser as médias empresas aquelas que têm melhores condições de enfrentar este tipo de situação», destaca José Eduardo Carvalho.

De futuro, o responsável prevê que a situação das empresas agrave. «Achamos que se vai agravar. Até estou com curiosidade em verificar resultados dos novos inquéritos para ver a dimensão. Há uma paragem e um bloqueio total da economia, com certeza que os dados se vão agravar», finaliza.