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Covid-19, a Igreja e a CGTP

O pior exemplo de comportamento, ao arrepio de todas as regras de contenção foi protagonizado pela CGTP na comemoração do 1º de Maio

A religião católica tem uma história de mais de 2000 mil anos, uma consistência e robustez incomparável. A política, as organizações políticas e os políticos vivem do imediato e sobrevivem em cada instante. Esta diferença tem sido evidente no comportamento de uns e de outros nesta crise pandémica. Esta diferença justifica, em grande medida, o deplorável comportamento da CGTP no 1.º de Maio.

Senão, vejamos: a Conferência Episcopal Portuguesa decidiu, logo no dia 13 de março, a suspensão da celebração de missas e outros atos de culto. O decreto do Governo que regulamentou o Estado de Emergência, determinando as restrições à circulação realizações de eventos e concentração de pessoas, é de 20 de março. Uma semana antes das imposições oficiais, já a Igreja se tinha antecipado, tomando a iniciativa prudente de restringir a concentração de fiéis.

A imagem da Praça de São Pedro, no Vaticano, completamente vazia, com o Papa Francisco sozinho a rezar foi impressionante e resume bem a atitude da Igreja. Aliás, a Igreja tem dado um exemplo de responsabilidade e de serenidade na reação à pandemia que deve ser enaltecida. O comportamento de antecipação e colaboração com as autoridades contribuiu para entender a delicadeza da situação e até para aceitar a generalidade das restrições entretanto impostas pelo Governo.

A sociedade entendeu a gravidade da situação, aceitou e adotou as medidas determinadas no Estado de Emergência que vivemos.

Entre estes bons exemplos, também tivemos más práticas: primeiro, a demora da Direção Geral de Saúde em admitir a vantagem do uso generalizado de máscaras, depois, a polémica com a sessão comemorativa do 25 de Abril, marcada pela teimosia e declarações infelizes do presidente da Assembleia da República que só foram corrigidas com a pressão da opinião pública e o bom senso dos partidos.

Mas o pior exemplo de comportamento, ao arrepio de todas as regras de contenção neste período de crise, foi protagonizado pela CGTP na comemoração do 1.º de Maio. Mesmo prevista a exceção para este evento no Estado de Emergência, esta organização optou por fazer uma utilização abusiva, desafiadora dos limites legais (em relação à deslocação proibida entre concelhos) e, sobretudo, desrespeitando o sentimento da generalidade dos cidadãos.

A CGTP, neste 1.º de Maio, manifestou arrogância e desrespeito ao abusar de um direito que não lhe foi coartado, apenas limitado, e revelou que receia enfraquecer a sua presença e a sua sobrevivência na sociedade apenas com a limitação extraordinária da manifestação habitual.

No entanto, foram erradas as comparações entre as celebrações da Páscoa e do 25 de Abril ou entre o 1.º de Maio e as celebrações da Páscoa como pretexto para criticar os excessos e abusos. São realidades diferentes e aqueles que as utilizaram como argumento para o combate político ou não entendem a diferença ou fizeram-no por conveniência. A Igreja, com serenidade e responsabilidade, fez questão de recusar a tentação fácil das comparações entre a Fé e a política. Neste contexto, há apenas uma comparação pertinente: o respeito e o bom senso de uns e de outros.

A Igreja não precisa de manifestações precipitadas de afirmação. Afirma-se pela autolimitação da sua ação neste tempo de emergência, em nome do respeito pela Vida e pela saúde, com a serenidade e a confiança de que a Humanidade ultrapassará esta crise e dando este contributo de solidariedade à sociedade.